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Diretor escolar e professor do 1.º Ciclo

Fidalguia digital e a trapalhada no terreno

3 jul, 22:54
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Há convicções que não se abandonam por causa de um mau momento. Continuo a acreditar que a classificação digital dos exames nacionais é o caminho certo para o sistema educativo português, mais rápido, mais rastreável, potencialmente mais rigoroso. Mas defender o destino não obriga a fechar os olhos ao percurso. E o percurso que o Ministério da Educação, Ciência e Inovação nos tem oferecido nas últimas semanas é, sejamos claros, uma trapalhada.

Não se pode dizer que não houvera sinais. Já nas provas-piloto de ensaio à classificação digital, e de forma ainda mais evidente no exame nacional de Filosofia do ano passado, tinham sido identificadas fragilidades sérias. Provas que não apareciam para os professores classificadores, atrasos na sincronização de dados, falhas de acesso à plataforma. Foram avisos claros de que a infraestrutura não estava pronta para uma implementação em larga escala. Mesmo assim, decidiu-se avançar este ano com a massificação do modelo digital  e, pelo meio, desmantelar os agrupamentos de exames a apenas três meses do arranque do processo. Não é inovar. É perder a noção da realidade do terreno.

O JNE/EduQA já tinha reconhecido, a 27 de junho, que o processo de preparação das provas para classificação digital se encontrava "em fase de recuperação, após algumas dificuldades técnicas". Prometeu então distribuição gradual das respostas e manteve o prazo final de classificação em 10 de julho.

Dois dias depois, a 29 de junho, o ministro Fernando Alexandre garantia que tudo continuava "dentro dos prazos previstos" e aproveitava para explicar parte dos erros com falhas de professores que agrafaram exames em cima dos códigos QR, e com diretores que, segundo ele, deram indicações incorretas sobre a disponibilidade de docentes. Uma professora falecida convocada para classificar? "Um erro que vem da escola", disse o ministro. A resposta institucional a um problema tecnológico e organizativo complexo resumiu-se a apontar o dedo às escolas.

Os diretores não ficaram calados. A Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas rejeitou as responsabilidades que lhe eram atribuídas. E, já esta semana, os diretores dos agrupamentos de Lisboa foram ainda mais longe, manifestando "profundo descontentamento" com um comunicado do JNE/EduQA que, na sua leitura, dedicava tempo desproporcionado a sublinhar deveres administrativos das escolas quando "o problema central é inequívoco: a plataforma de classificação digital falhou". As escolas, escrevem, "não estiveram na origem dos atrasos verificados".

Entretanto, no terreno, a FENPROF relatava professores que só tinham acesso aos itens a corrigir com dias de atraso, perguntas ilegíveis, peças incompletas, convocatórias que chegavam depois de o prazo já ter começado a contar. E a Renascença dava conta de que os diretores escolares já antecipavam um "aumento exponencial",  "muitos milhares", segundo o presidente da ANDAEP, de pedidos de revisão de prova, alimentado pela desconfiança gerada por notícias diárias sobre o processo.

A 3 de julho, o inevitável acontece. O MECI anunciou o adiamento do calendário. A classificação passa a decorrer até 14 de julho, a afixação das pautas para 17 de julho, e a 2.ª fase dos exames arranca a 20 de julho em vez de a 16, terminando a 24 em vez de a 22.

Só que este adiamento, decidido sob pressão e sem margem para pensar as consequências em cadeia, revela um desnorte de quem o definiu que se percebe assim que se olha para o encadeamento das datas. As pautas são afixadas a 17 de julho, uma sexta-feira, e a 2.ª fase de exames arranca logo na segunda-feira seguinte, dia 20,  o que deixa os alunos que precisem de se inscrever nesta fase sem sequer dois dias úteis para o fazer. Como, além disso, não ficou previsto qualquer período de inscrição para essa 2.ª fase, os secretariados das escolas ficam sem tempo útil para elaborar as pautas de chamada, convocar vigilantes ou distribuir salas. E o mesmo aperto repete-se num terceiro ponto crítico. Com as pautas a sair também a 17 de julho e as candidaturas ao Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior a abrirem já a 20, os alunos não terão a ficha ENES disponível a tempo de se candidatarem no primeiro dia do concurso.

Isto não é um pormenor técnico. É o resultado previsível de um adiamento decidido sem olhar ao efeito dominó que provoca nas férias dos professores, na organização do próximo ano letivo, nas matrículas e no acesso ao ensino superior.

Escrevi antes, em mais de uma ocasião, sobre o capital político e a autoridade técnica que Fernando Alexandre trazia para a Educação, um capital como há décadas não se via na pasta. Foi por reconhecer esse valor que o defendi publicamente. Mas um ministro não se mede apenas pela solidez das suas convicções de reforma, mede-se também pela forma como reage quando a reforma tropeça. E à primeira dificuldade séria, a resposta institucional voltou-se, sistematicamente, contra diretores e professores, tratando-os como a causa do problema em vez de reconhecer, com a mesma clareza, que a responsabilidade central está numa plataforma que falhou e num calendário que não foi pensado até ao fim.

Não é caso para pedir a demissão do ministro. Mas é caso para pedir coragem, a coragem de arrepiar caminho, de admitir onde a execução falhou, e de corrigir o calendário e o processo antes que o dano se torne irreversível para milhares de alunos, famílias e professores que, mais uma vez, pagam pelos erros de quem decide.

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