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Exclusivo: ex-diretor do FBI indiciado por alegada "ameaça" contra Trump

CNN , Hannah Rabinowitz, Kristen Holmes e Holmes Lybrand
28 abr, 23:37
O ex-diretor do FBI, James Comey, discursa no Fórum JFK Jr. do Instituto de Política da Universidade de Harvard, em Cambridge, Massachusetts, a 24 de fevereiro de 2020. (Foto AP/Charles Krupa, arquivo)

As acusações podem resultar numa pena de prisão até 10 anos

O antigo diretor do FBI, James Comey, foi acusado esta terça-feira devido a uma fotografia de conchas do mar que, segundo as autoridades, ameaçava Donald Trump, marcando a segunda tentativa da administração de processar um dos seus maiores opositores políticos, disseram inicialmente à CNN três fontes.

A acusação foi apresentada no Distrito Leste da Carolina do Norte, tendo sido emitido um mandado de detenção contra Comey por um funcionário judicial.

O antigo diretor do FBI enfrenta acusações de ameaça contra o presidente dos EUA e de transmissão de ameaça em comércio interestadual, de acordo com documentos judiciais. As acusações podem resultar numa pena de prisão até 10 anos.

“[Comey] publicou publicamente uma fotografia na rede social Instagram que mostrava conchas dispostas num padrão formando ‘86 47’, o que um destinatário razoável, familiarizado com as circunstâncias, interpretaria como uma expressão séria de intenção de causar dano ao Presidente dos Estados Unidos”, refere a acusação.

O também advogado respondeu à acusação num vídeo publicado na sua conta no Substack.

“Continuo inocente. Continuo sem medo”, disse. “E continuo a acreditar no sistema judicial federal independente, por isso, vamos a isso.”

Trump tem pressionado há muito para que os seus adversários políticos enfrentem acusações, incluindo o antigo diretor do FBI, que considera uma figura central no alegado esforço para “instrumentalizar” o sistema de justiça contra si.

Em maio do ano passado, Comey publicou nas redes sociais uma fotografia de conchas numa praia a formar os números “86 47”, que os críticos disseram referirem-se a eliminar ou matar Trump.

Esta publicação no Instagram, agora eliminada, de James Comey mostra conchas marinhas a formar os números "86 47". O número 86 pode frequentemente referir-se a livrar-se de algo ou a deitá-lo fora, enquanto 47 corresponde ao atual mandato de Trump como 47.º presidente. Os republicanos alegaram que se tratava de uma ameaça contra o presidente Donald Trump, enquanto Comey afirmou que "não se tinha apercebido de que algumas pessoas associavam esses números à violência". James Comey/Instagram

Quando usado como gíria, o número 86 pode significar livrar-se de algo ou deitar algo fora. Trump é atualmente o 47.º presidente. James Comey publicou a fotografia das conchas com a legenda: “Formação de conchas interessante no meu passeio pela praia.”

Numa conferência de imprensa esta terça-feira, o procurador-geral interino Todd Blanche falou do caso como um exemplo do esforço do Departamento de Justiça para processar pessoas que fazem ameaças contra o Presidente. Imediatamente após a conferência de imprensa, Blanche apareceu na Casa Branca.

“Ao longo do último ano, este departamento apresentou dezenas de processos envolvendo ameaças contra todo o tipo de pessoas”, referiu Blanche. “Levamos isto a sério. Cada um deles.”

Questionado por Evan Perez, da CNN, sobre o motivo pelo qual o Departamento de Justiça pediu um mandado de detenção neste caso, Blanche apontou para o grande júri na Carolina do Norte.

“O Departamento de Justiça não emite mandados de detenção, são os grandes júris que o fazem”, sublinhou. “E, por isso, o grande júri apresentou uma acusação e um mandado de detenção, espero que haja comunicação com o advogado do senhor Comey, e a partir daí veremos. Este caso seguirá como centenas de outros todos os anos.”

O processo judicial inclui um pedido de mandado de detenção apresentado com papel timbrado do Departamento de Justiça, sem qualquer assinatura do grande júri.

Quase imediatamente após a sua publicação, republicanos e responsáveis da administração intensificaram as críticas a Comey, com a então secretária da Segurança Interna, Kristi Noem, a anunciar que Comey seria investigado pelos Serviços Secretos pelo que considerou ser um apelo “ao assassinato” de Trump.

Os Serviços Secretos levaram Comey para uma entrevista de várias horas com agentes em Washington, DC, um passo pouco habitual da agência perante uma ameaça não específica. Comey referiu aos investigadores que viu as conchas numa praia da Carolina do Norte.

A diretora da Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard, disse à Fox News, após a publicação de Comey, que o antigo diretor deveria ser “posto atrás das grades por isto” e que estava “muito preocupada” com a vida de Trump.

O ex-diretor do FBI apagou a publicação no mesmo dia, escrevendo nas redes sociais que assumiu que as conchas representavam “uma mensagem política”, mas que “não percebeu que algumas pessoas associavam aqueles números à violência”.

“Nunca me ocorreu, mas oponho-me à violência de qualquer tipo, por isso retirei a publicação”, escreveu.

Especialistas jurídicos e de segurança disseram à CNN que um caso deste tipo contra Comey poderá ser infrutífero, especialmente tendo em conta as proteções da liberdade de expressão no país.

Uma segunda acusação

O caso contra Comey marca um esforço renovado do Departamento de Justiça de Trump para condenar o antigo diretor, que se tornou um crítico feroz do Presidente depois de ter sido despedido por Trump em 2017, devido à investigação sobre a interferência russa.

Em setembro do ano passado, o Departamento de Justiça apresentou pela primeira vez acusações contra Comey, acusando-o de mentir ao Congresso sobre fugas de informação para a imprensa. O caso foi arquivado no final do ano passado por um juiz federal que concluiu que o procurador interino dos EUA para o Distrito Leste da Virgínia tinha sido nomeado de forma imprópria, contornando a aprovação do Senado.

Os advogados de Comey recusaram comentar esta notícia.

O antigo diretor caiu em desgraça junto de Trump antes mesmo de este ser eleito Presidente pela primeira vez, quando a agência de Comey investigava a campanha de Trump e as ligações à Rússia. Comey foi despedido meses após a tomada de posse.

Desde a sua demissão, Comey tornou-se um crítico feroz de Trump e um dos principais inimigos dos republicanos na Casa Branca e no Capitólio.

Processo de Maurene Comey continua

Também esta terça-feira, um juiz permitiu que avançasse em tribunal federal o processo apresentado por Maurene Comey, filha de Comey e antiga procuradora federal de destaque em Nova Iorque, que contesta o seu despedimento do Departamento de Justiça.

Maurene Comey alega que foi despedida como retaliação por ser filha do antigo diretor do FBI. Está a pedir salários em atraso e o pagamento das suas despesas legais.

Trabalhou em alguns dos processos mais mediáticos do gabinete do procurador dos EUA para o Distrito Sul de Nova Iorque, incluindo a acusação do magnata da música Sean “Diddy” Combs, Jeffrey Epstein e a sua cúmplice Ghislaine Maxwell, e do senador democrata de Nova Jérsia Robert Menendez.

A 16 de julho, duas semanas depois de um júri ter condenado Combs por duas acusações de transporte para fins de prostituição, Maurene Comey recebeu um email de Washington a informar que estava despedida “nos termos do Artigo II” da Constituição dos EUA.

Esforços de "instrumentalização"

A acusação contra Comey surge numa altura em que Blanche acelerou a apresentação de processos que o Presidente tem publicamente defendido.

Na sua primeira semana em funções, Blanche supervisionou a divulgação do primeiro relatório do Grupo de Trabalho sobre Instrumentalização — um documento que alegava que o Departamento de Justiça de Biden foi tendencioso na forma como perseguiu manifestantes antiaborto. O departamento despediu quatro procuradores que trabalharam nesses casos.

Também fez alterações nos procuradores responsáveis pela investigação ao antigo diretor da CIA John Brennan — um dos casos mais importantes para o Presidente.

E esta terça-feira, o Departamento de Justiça tomou medidas que provavelmente agradarão a Trump.

O DOJ está a planear intimar os guarda-costas da procuradora distrital do condado de Fulton, Fani Willis, segundo uma pessoa familiarizada com a investigação. Willis processou Trump e muitas outras pessoas pelos seus esforços para alterar os resultados das eleições de 2020.

O Departamento de Justiça também acusou um antigo alto responsável do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas de ocultar registos durante a pandemia de Covid-19. Os republicanos há muito que atacam os responsáveis pela resposta à pandemia devido a falhas, reais ou percebidas, e antes de deixar o cargo, o Presidente Joe Biden concedeu perdão ao Dr. Anthony Fauci — o maior alvo de todos.

A notícia foi atualizada com informação adicional.

Kara Scannell, da CNN, contribuiu para esta reportagem.

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