"Quero morrer bonita e elegante", desejou a espanhola, de 25 anos, que teve a companhia da família nas últimas horas de vida, mas não durante o procedimento: "Não quero que me vejam a fechar os olhos"
Noelia Castillo, uma espanhola de 25 anos, paraplégica, morreu na tarde desta quinta-feira após receber eutanásia no centro sociossanitário de Sant Pere de Ribes, em Barcelona, onde estava internada. A jovem aguardava há 601 dias pelo procedimento, segundo confirmaram fontes da área da saúde ao El País.
Noelia sofria de dores constantes, além de intenso sofrimento psicológico, conforme atestado pela comissão independente de especialistas que avaliou o seu caso e supervisionou o cumprimento da lei da eutanásia. Ainda assim, teve de esperar mais de um ano e meio pela morte medicamente assistida.
Ya se le ha ejecutado la eutanasia a Noelia. Pedimos oraciones por su alma y su familia. Descanse en paz. pic.twitter.com/5eqTbJv6iF
— Abogados Cristianosﻦ (@AbogadosCrist) March 26, 2026
Noelia passou a sua última noite acompanhada pela mãe e, nas horas finais, por outros familiares, incluindo a avó e o próprio pai, apesar de ter solicitado que a administração da eutanásia fosse feita sozinha, na sua “zona de conforto”, no quarto.
"Quero morrer bonita e elegante, Vou vestir o vestido mais bonito que tenho e maquilhar-me. Já disse à família que estão convidados a vir despedir-se, mas não quando me forem dar a injeção. Não quero ninguém lá dentro, não quero que me vejam a fechar os olhos”, confessou Noelia, dias antes.
A eutanásia seguiu o protocolo legal: a combinação gradual de fármacos como ansiolíticos, anestésicos, indutores de coma e bloqueadores musculares, que se administram de forma a que, por norma, a morte ocorra em cerca de 30 minutos. No caso de Noelia, a medicação foi aplicada por via intravenosa.
Mas até chegar este dia, a vida de Noelia não foi fácil. Após a separação dos pais, quando tinha 13 anos, Noelia esteve sob a tutela do governo da Catalunha, onde sofreu múltiplos episódios de violência sexual. Em outubro de 2022, depois de ter sido alvo de uma violação coletiva, tentou suicidar-se atirando-se de um prédio de cinco andares, situação que a deixaria paraplégica.
Dois anos depois, a Comissão de Garantia e Avaliação da Catalunha (CGAC) autorizou a eutanásia, considerando que apresentava uma situação clínica “não recuperável” com dor e sofrimento crónico e incapacitante, cumprindo os requisitos legais.
Em entrevista ao programa "Y ahora Sonsoles", da Antena 3, transmitido na casa da avó materna um dia antes da sua morte, Noelia desejou “finalmente poder descansar”: “Porque não aguento mais esta família, não aguento mais a dor, não aguento mais tudo o que me atormenta desde que passei por isto.”
O conflito com a família marcou profundamente o processo. Noelia explicou que os pais e a irmã se opunham à eutanásia. “Ele [o pai] disse-me que eu não tinha coração, que eu não pensava nos outros, que tudo o que eu dizia era mentira. Doeu-me”, contou. “Ele nunca me liga nem me escreve. Porque quer ele que eu viva, para me manter num hospital?”
Até este dia, a jovem de 25 anos passou por um processo longo e doloroso. Noelia teve de esperar decisões de cinco tribunais diferentes antes de ver reconhecido o seu direito. O seu caso tornou-se o primeiro em Espanha a ir a julgamento. “Cada dia é horrível e doloroso”, afirmou numa sessão à porta fechada.
O tribunal administrativo de Barcelona viria a rejeitar o pedido do pai, confirmando a legalidade da eutanásia, decisão posteriormente reforçada pelo Tribunal Superior de Justiça da Catalunha (TSJC), que validou a sua capacidade mental para tomar a decisão. A morte, que inicialmente estava prevista para o dia 2 de agosto de 2024, aconteceu esta quinta-feira, 601 dias depois de ter iniciado o processo.