As mil formas de chorar o adeus ao Rei

29 jan, 09:56

A despedida de Eusébio teve pesar e cânticos, teve lágrimas e fumo, teve dor e paixão: e assim é que faz sentido.

Quando o Maisfutebol chegou ao Largo da Luz, pouco passava das 15 horas, Hilário já estava no interior da igreja. O antigo lateral do Sporting não é só um grande amigo de Eusébio, é família: são compadres.

Cresceram juntos em Lourenço Marques e um batizado ligou-os para a vida.

Hilário não quis falar, não conseguia. Mas também não precisava: tudo o que Eusébio significava para ele estava naquele aspeto curvado. A dor pesa muito.

Andava com dificuldade, tremia, estava nervoso. Contou apenas como tinha recebido a notícia: pela televisão, às seis da manhã, quando se preparava para ir fazer a corrida de todos os dias. Não quis acreditar e foi acordar a esposa.

Depois chorou. Chorou muito.

Saiu por instantes para apanhar ar e só voltou depois de passarem todas as caras conhecidas que tinham lugar na igreja. Hilário também tinha, claro, mas preferiu esperar que acabassem os diretos das televisões para passar despercebido.

Quis sofrer a morte do amigo em privado: dentro dele apenas.

Sem o ser tornou-se quase um anónimo entre milhares de anónimos, e essa é uma homenagem singular. Cresceu com Eusébio, partilhou grande parte dos melhores momentos da vida e envelheceu com ele.

Ninguém pode dizer que a dor dele era a nossa dor, porque não era.

Seguramente era bem maior.

Mas Eusébio não é só da família nem só dos amigos: é de todos. Hilário sofreu como sofremos todos, com a nossa dor no meio de milhares de outras dores.

O último adeus a Eusébio teve muita dor. Teve choro, rostos fechados e olhos pesados. Mas também teve tochas, cânticos e gritos.



Eusébio foi celebrado entre a dor e a euforia, e assim é que faz sentido. Porque a simples presença dele provocava euforia. Era impossível que a última imagem de Eusébio trouxesse outro som de fundo depois de uma vida a fazer saltar o coração de milhões de portugueses, e de milhões de benfiquistas.

Juntaram-se todos, portugueses e benfiquistas, portugueses e sportinguistas, portugueses e portistas, portugueses e brasileiros, portugueses e moçambicanos.

Juntou-se Portugal e o mundo para homenagear um talento à volta do qual cresceu o amor dos portugueses por Portugal e para homenagear um homem que fez nascer no peito de milhões de miúdos a paixão por este jogo.

Choveu, fez frio e caiu a noite. As centenas de pessoas que estiveram na igreja do Seminário da Luz transformaram-se em milhares no Cemitério do Lumiar.

A chuva que caía antes deu lugar a um temporal, mas ninguém arredou pé. Esperou-se meia hora, uma hora e alguém lembrou o óbvio.

«Tive tantas alegrias a ver Eusébio debaixo de água que esta molha é o mínimo que posso fazer.»



Havia sempre lugar para mais um desconhecido debaixo do guarda-chuva e o Maisfutebol é convidado a abrigar-se junto a Maria do Céu: é uma senhora idosa, que não liga muito a futebol, mas garante que gostava de Eusébio e está ali também para homenagear o falecido marido, esse sim um fervoroso do Benfica.

À frente um senhor de roupa pintada de branco, claramente alguém que saiu do trabalho para se despedir do Rei, uns metros ao lado um senhor de fato e gravata. Coube toda a gente no último adeus a Eusébio.

Um pouco atrás um senhor moçambicano garante que na cultura africana um funeral com chuva é sinal de um funeral abençoado: o espírito está em paz.

«O funeral de Nelson Mandela também teve chuva.»

Do outro lado do corredor por onde há-de passar o cortejo fúnebre está Diamantino, o antigo jogador do Benfica, também ele misturado entre a multidão Conversa com os adeptos Barbas e Jorge Máximo.

Jorge Máximo que haveria de ser dos mais eufóricos quando passou o carro que transportava a urna de Eusébio. Antes disso, porém, passaram Luís Filipe Vieira e Mantorras, o que provocou a primeira explosão de carinho.

Pouco depois chegaram os carros com as flores e o carro que transportava Eusébio: houve gente a querer tocar no carro, houve gritos de Benfica e houve o cântico «Tu és o nosso rei, Eusébio, descansa eternamente.»

Soltaram-se tochas, braços no ar e o caos. Só a intervenção de Jesus, Rui Costa, Cardozo e Luisão conseguiu travar a ânsia de tornar tátil o último adeus ao ídolo.

Naquela altura o funeral pareceu invulgar.

Pareceu invulgar sobretudo pelo respeito à família: a esposa de Eusébio, as filhas, os familiares que queriam chorar a partida do ente querido, e não podiam fazê-lo com o pesar que uma situação destas impõe.

Nós perdemos um ídolo, mas elas perderam um marido e um pai.



Eusébio desceu enfim à terra ao som de A Portuguesa, sob o olhar encharcado dos familiares, de Cardozo, de Rui Costa, de Jesus, de dezenas de pessoas que misturavam lágrimas e muita água.

No fim até o padre soltou um «Viva o Benfica».

Houve outra vez tochas, e fumo vermelho, e cânticos por Eusébio.

Não foi um funeral normal, mas Eusébio também não foi uma pessoa normal: tornou-se demasiado grande para seguir o protocolo.

Tornou-se demasiado grande para ser explicado nas mil formas de sofrer de uma multidão. Pessoas anónimas como Hilário.

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