Do amor à mãe ao amor pela pátria destruída: a canção ucraniana que conta "a história mais relevante deste momento"

16 mai, 11:54
Kalush Orchestra (AP Photo/Luca Bruno)

Vitória da Ucrânia na 66ª edição da Eurovisão é, mais do que um evento musical, uma demonstração de solidariedade e resiliência políticas. O vocalista dos Kalush Orchestra tinha escrito o tema vencedor em homenagem à mãe, mas a guerra conferiu-lhe significados ainda mais profundos e universais.

O tema "Stefania", da banda Kalush Orchestra, garantiu a vitória da Ucrânia na final da Eurovisão, que decorreu este sábado em Turim, Itália.

A canção era a grande favorita nas casas de apostas online, e as previsões acabaram por se concretizar. Apesar de o Reino Unido ter conquistado a maior pontuação entre o júri, o apoio do público acabou por catapultar “Stefania” do quarto para o primeiro lugar do pódio.

Na atuação final, posterior ao anúncio dos resultados, a banda ucraniana dedicou a vitória ao povo ucraniano e deixou um apelo à comunidade internacional: "Por favor ajudem a Ucrânia, por favor ajudem Mariupol, por favor ajudem Azovstal”.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky reconheceu a importância política do resultado com uma publicação nas suas contas pessoais.

"A nossa coragem impressiona o mundo, a nossa música conquista a Europa!", afirmou o líder ucraniano. "Estou certo de que o nosso acorde vitorioso na batalha contra o inimigo não está distante".

Outros líderes europeus e da NATO também recorreram às redes sociais para felicitar a Ucrânia, aplaudindo a solidariedade e união do público europeu e referindo-se à vitória como uma "mensagem" de resistência à Rússia.

Da guerra para o palco da Eurovisão

Os Kalush Orchestra assinalam a terceira vitória da Ucrânia no Festival da Eurovisão, que já teve participações premiadas em 2004 e 2016. Esta vitória será, porém, uma das mais inesquecíveis da história do festival. Mais do que uma celebração musical, é assumida pelos músicos como uma homenagem a um país devastado pela guerra. 

O grupo era bem-sucedido no país de origem muito antes da participação na Eurovisão. A invasão russa e o começo da guerra, em fevereiro, viram a participação da Ucrânia ascender do meio das tabelas de apostas para o topo, numa popularidade subitamente global.

Em entrevista ao jornal britânico The Telegraph, pouco antes da cerimónia final, o rapper Oleh Psiuk assume o recém-adquirido cariz político do tema em concurso e as repercussões de uma possível vitória para o país invadido. "[Uma vitória] significaria que todos os ucranianos ganharam. Porque a Ucrânia tem de ganhar - em todos os sentidos".

A escolha da banda como representante do país aconteceu uma semana antes do eclodir da guerra, a 24 de fevereiro. Os votos da seleção nacional ucraniana tinham favorecido Alina Pash, que acabou por ser desqualificada quando foi descoberto que a cantora teria viajado, em 2015, até à península da Crimeia.

O apuramento dos Kalush Orchestra para a semifinal da Eurovisão coincidiu com o início da guerra, o que obrigou a que as aspirações musicais fossem temporariamente suspensas.

O nome da banda deriva da cidade de origem do líder do grupo: Kalush, no oeste ucraniano. A família reside numa zona pouco abalada pela guerra, "embora seja difícil dizer com certeza se estão seguros porque agora nenhuma parte da Ucrânia é segura".

O líder contou ao The Telegraph ter fundado a sua própria organização de voluntários para soldados e civis feridos, garantindo acesso a alimentação, alojamento e cuidados médicos, enquanto outros membros participaram diretamente na defesa territorial de Kiev.

A participação na competição só foi possível com uma permissão temporária cedida por Zelensky, autorizando o grupo a abandonar a Ucrânia para a representar perante milhões de espetadores. O documento expira este fim-de-semana e Psiuk garante que, no regressa a casa, farão os possíveis para contribuir para o fim da guerra. “Se tivermos de o fazer, claro que vamos armar-nos e lutar pela nossa terra".

A música produzida pela banda, uma fusão do género rap com música folk, já os singularizava como autenticamente ucranianos.

Para além da combinação de um género contemporâneo com música tradicional, também a apresentação técnica e criativa do tema foi pensada como uma ponte entre a modernidade e as raízes ancestrais da cultura ucraniana.

O chapéu cor-de-rosa é a imagem de marca do vocalista, mas as roupas invulgares dos membros também se tornaram num dos aspetos mais reconhecíveis e comentados da apresentação na competição.

Estes são, na verdade, trajes tradicionais ucranianos do início do século XX, numa homenagem intencional à tradição e cultura do país.

“A nossa cultura está a ser destruída, e é por isso que temos de reunir todo o apoio que conseguirmos", explicou o líder da banda em declarações à TIME. "O mundo inteiro está a ver-nos a atuar. É importante que promovamos a Ucrânia com sucesso, que deixemos a Ucrânia orgulhosa”.

A Ucrânia mãe

A canção vencedora, “Stefania”, é homónima à mãe do vocalista. A dedicatória é anterior à invasão russa, e fala sobre uma figura maternal que o “embalava em criança" e que mesmo com o cabelo grisalho se preocupa e sacrifica pelo filho. "O meu amor por ti não tem fim", garante a letra, numa declaração de amor filial acompanhada pelo som da talenka, uma espécie de flauta harmónica de origem ucraniana.

Psiuk, o compositor, admite que a associação política da canção não foi deliberada, mas reconhece a existência de várias interpretações.

“Tinha dedicado esta canção à minha mãe e, quando a guerra eclodiu, ganhou muitos novos significados”, escreveu na caixa de descrição do vídeo oficial no canal de YouTube. “Apesar de não falar sobre a guerra na canção, muitas pessoas começaram a associá-la à mãe Ucrânia. Mais do que isso, começaram a chamá-la de hino da nossa guerra! Mas se a «Stefania» é agora o hino da nossa guerra, gostaria que se tornasse o hino da nossa vitória”. 

O vídeo oficial do tema, partilhado este domingo na plataforma YouTube, foi filmado em várias cidades ucranianas devastadas pela guerra, como Bucha e Irpin.

Mães e mulheres-soldado carregam os filhos ao colo, famílias são separadas e reunidas, mulheres e meninas de arma em punho olham em desafio para a câmara enquanto a banda canta e toca a talenka entre os escombros. "Vou sempre encontrar o meu caminho para casa, mesmo que todas as estradas estejam destruídas”.

No final do vídeo, é possível ler-se uma mensagem que assume, em definitivo, o novo significado da figura maternal evocada pela canção. "A guerra na Ucrânia tem múltiplas faces, mas é o rosto da nossa mãe que mantém os nossos corações vivos mesmo nos tempos mais sombrios".

Os versos sobre amor incondicional, proteção e uma sensação de pertença ultrapassam a mãe do artista, a Stefania original, e passam a aplicar-se a toda a nação ucraniana.

Não há política na Eurovisão?

Um dos princípios da Eurovisão assenta na sua natureza apolítica. São proibidas e punidas quaisquer referências políticas, o que terá impossibilitado a banda de incluir imagens do conflito na apresentação.

Ainda assim, ao longo da cerimónia deste ano foram constantes as bandeiras a azul e amarelo e os apelos à paz, quer nas atuações dos restantes participantes, quer nas intervenções dos representantes de cada país e até no anúncio da votação do júri.

Apesar do regulamento do Festival da Eurovisão proibir manifestações políticas, a Rússia viu-se banida da edição deste ano no âmbito de uma série de sanções políticas, económicas e culturais determinadas pelas autoridades europeias.

Oleh Psiuk justifica a abertura desta exceção como uma forma de contestar a máquina propagandística russa e os ataques à liberdade de expressão. "Esta é a coisa certa a fazer, por causa dos russos que dizem não ter um conhecimento total do que está a acontecer", defendeu. "[Ser banidos da competição] vai fazê-los pensar sobre o assunto e ver que o mundo está a afastar-se deles por um motivo".

Nas redes sociais, o mundo aplaude a vitória ucraniana como um símbolo de esperança no meio de um cenário de destruição que se prolonga há meses.

Mas existe, também, quem acuse os organizadores do Festival da Eurovisão de hipocrisia, citando sanções aplicadas em edições passadas.

Na final competição de 2019, que ocorreu em Israel, os participantes islandeses ostentaram bandeiras da Palestina.

A organização alegou que o gesto político desrespeitava as regras da competição e aplicou uma multa no valor de €5000 à Islândia. O protesto da banda Hatari foi ainda censurado no DVD oficial da edição de 2019 da Eurovisão.

O líder dos Kalush Orchestra, no entanto, faz questão de sublinhar a importância da demonstração de solidariedade política na competição de 2022.

“Música é sentimento, certo? A música está aqui para contar histórias. E que história é mais relevante neste momento do que a guerra na Ucrânia?”

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