Responsável da União Europeia de Radiodifusão diz que está preparada para agir contra qualquer perturbação da ordem durante a final do concurso, que tem lugar este sábado à noite em Viena
Com a mais recente edição do Festival Eurovisão da Canção, organizado anualmente pela União Europeia de Radiodifusão (UER), um alto responsável do organismo defendeu esta semana que “não precisa de tomar decisões políticas”, porque não é uma instituição política.
“A UER não é a União Europeia nem a Comissão Europeia, não somos as Nações Unidas, portanto não temos de tomar decisões políticas”, disse ontem ao Politico Jean Philip De Tender, vice-diretor-geral da UER, uma aliança de 113 meios de comunicação de serviço público em 56 países.
A declaração do alto funcionário surge na sequência de alguns países terem anunciado um boicote inédito ao festival europeu por causa da participação de Israel, no contexto dos crimes cometidos pelo país na Faixa de Gaza. Apesar de considerar que o festival é "apolítico", De Tender concede que "é um evento tão grande que tem um impacto político”, pelo que os responsáveis estão “preparados” para mais interrupções durante a final da edição deste ano, que vai ter lugar este sábado à noite, na capital austríaca.
No 70.º aniversário do festival, foram cinco os países que optaram por não participar na edição deste ano – Espanha, Irlanda, Países Baixos, Eslovénia e Islândia – justificando a decisão com a guerra de Israel em Gaza, no rescaldo de um violento ataque do Hamas, e a consequente crise humanitária que provocou no enclave e nos restantes territórios ocupados da Palestina.
De Tender diz que a UER está "a dialogar" e "a ouvir" esses países para tentar convencê-los a "regressar no próximo ano", mas ressalta que, no fim das contas, as emissoras públicas desses países têm de ouvir os seus públicos e tomar as suas próprias decisões sobre a participação ou não no festival.
Os que defendem a exclusão de Israel do concurso invocam o facto de a Rússia ter sido banida da competição em 2022, logo após a invasão em larga escala da Ucrânia. Na sexta-feira, numa declaração pública, o chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, disse que “não pode haver dois pesos e duas medidas” face a Israel e à Rússia e à sua participação ou exclusão do concurso.
“Este ano não estaremos no Festival Eurovisão da Canção, mas participaremos com a convicção de que estamos do lado certo da história”, disse Sánchez. “Pela coerência, responsabilidade e humanidade – diante de uma guerra ilegal e também de um genocídio, o silêncio não é uma opção”.
Questionado sobre a duplicidade de critérios, De Tender diz que a diferença entre a Rússia e Israel é que a emissora pública russa não é considerada independente do governo, razão pela qual a sua filiação à UER foi suspensa e, por conseguinte, impedida de competir no Festival Eurovisão da Canção.
Quando a UER anunciou a exclusão da Rússia em 2022, a organização afirmou que a medida pretendia dar resposta às preocupações de que a invasão da Ucrânia "traria descrédito à competição". Sobre isso, De Tender diz que "as coisas ficam mais claras quando um país está envolvido em um conflito".
"[É] quando se vê mais explicitamente se há ou não jornalismo independente. Acho que a guerra deixou claro que esse não era o caso [da emissora russa]", afirmou, contrapondo que a situação com Israel é "totalmente diferente", porque a emissora pública do país, KAN, é suficiente independente e continua a ser um membro de pleno direito da UER.
Falando sobre o mesmo alegado duplo padrão na quarta-feira, Martin Green, diretor do Festival Eurovisão da Canção, disse que a Rússia poderia "teoricamente" ser autorizada a voltar à competição se a sua emissora pública respeitar as regras de independência.
A UER também reformulou o sistema de votação do Festival Eurovisão da Canção este ano, após alegações de que o governo israelita influenciou injustamente os resultados do ano passado por meio de uma campanha de votação em massa.
Com a expectativa de protestos nas ruas de Viena neste sábado contra a participação de Israel, a segurança do recinto vai estar em alerta máximo, noticia também o Politico.
Durante a apresentação de Israel na semifinal de terça-feira, um membro da plateia "expressou a sua opinião em voz alta" e foi retirado do local, a par de outros três, por "comportamento inadequado", confirmaram a EBU e a emissora austríaca ORF num comunicado divulgado no início desta semana.
Durante a final de sábado, diz De Tender, a política em relação ao ruído da plateia na transmissão será igual. "Não vamos esquivar-nos de nenhuma vaia. O nível de som em todo o evento e para todos os artistas permanecerá o mesmo", disse o responsável, adiantando que a organização está "preparada" para o caso de algo semelhante acontecer durante a transmissão da final.
