Dia T, de tarifas. Os EUA vão mergulhar na estagflação e arrastar a Europa? “Ainda é muito cedo para conclusões definitivas"

9 abr 2025, 07:00
O Presidente Donald Trump fala com os jornalistas antes de embarcar no Marine One na Casa Branca, na quinta-feira. Samuel Corum/Sipa USA/AP

Cautela e expectativa são as notas dominantes deste e do outro lado do Atlântico esta quarta-feira, dia em que entram em vigor as tarifas ditas "recíprocas” que a administração Trump decidiu impor sobre bens importados de mais de 150 países

As tarifas recíprocas que a administração Trump vai aplicar a partir desta quarta-feira a cerca de 90 países, incluindo taxas aduaneiras de 20% sobre as exportações da União Europeia para os Estados Unidos, atiraram-nos para fora de pé. Mas exige-se alguma cautela nos exercícios de futurologia quanto ao impacto que esta guerra comercial em inúmeras frentes poderá ter na Europa, nos EUA e no resto do mundo.

“A opinião dominante entre os economistas é que um nível tão elevado de tarifas terá um impacto inflacionista, esse é um efeito inevitável nos EUA e, por outro lado, face a esta evolução dos mercados financeiros, face a estas quedas [nas bolsas] que temos vindo a verificar, há quem tenha a esperança de que Trump procure estabilizar a situação – mas este é um caminho totalmente desconhecido”, refere o economista João Costa Pinto. “A única coisa que se pode fazer neste momento é avaliar probabilidades de evolução, mas ainda é muito cedo para se chegar a conclusões definitivas sobre o que vai acontecer.”

Sem surpresas, os economistas têm-se desdobrado em previsões que vão dos cenários menos maus aos mais catastróficos, com alguns a alertaram, nos últimos dias, para o risco de os Estados Unidos entrarem em estagflação – uma situação em que uma economia regista, ao mesmo tempo, uma inflação elevada e ausência de crescimento.

Muitos dizem que este é um risco real para o país pela primeira vez desde os anos 1970. O presidente Trump, pelo contrário, diz que o risco é nulo porque eventualmente a Reserva Federal irá baixar as taxas de juro, o que, por seu lado, aumentaria as pressões inflacionistas. Talvez por isso, não há sinais de que isso vá acontecer em breve, com o responsável pela politica monetária norte-americana a dar a entender há alguns dias que vai esperar para ver o que acontece antes de decidir se prioriza os estímulos à economia ou a necessidade de conter a inflação.

Em particular, a Reserva quer perceber de que forma a escalada das tensões comerciais vai pesar sobre a atividade económica dos EUA. “Embora seja muito provável que as tarifas gerem, no mínimo, um aumento temporário da inflação, também é possível que os efeitos possam ser mais persistentes”, disse Powell, reiterando que o banco central não tem pressa em ajustar as taxas.

“A Fed enfrenta um grande dilema”, ressalta à CNN Costa Pinto, antigo vice-governador do Banco de Portugal. Powell “sabe que não pode ser visto como perdendo autonomia face à administração Trump, porque se isso acontecer o impacto global sobre os mercados é extremamente complexo, uma vez que um dos elementos centrais para os mercados financeiros internacionais, atualmente organizados em torno do dólar americano, é a confiança na Fed para conduzir uma política monetária autónoma.”

Isso, adianta Costa Pinto, explica porque é que “a primeira reação da Fed foi de cautela, até porque este caminho desconhecido também vai ser muito determinado pela resposta que possa vir a ser tomada pelos países atingidos pelas tarifas”.

O primeiro a reagir no imediato foi a China, um país que “tem muito a perder com as tarifas, dado que grande parte da economia chinesa é suportada pelas exportações”, refere Costa Pinto. “A grande questão agora é saber o que vai fazer a UE, em rigor o primeiro bloco comercial do mundo, um mercado de 450 milhões de consumidores com uma boa base industrial. O que vai a UE fazer? Vai retaliar? Vai procurar negociar com a administração Trump algumas tarifas mais favoráveis?”

Jerome Powell, ou Jay Powell, governador da Reserva Federal (o banco central dos EUA) enfrenta um enorme dilema, entre estimular a economia ou conter a inflação (foto: Chip Somodevilla/Getty Images)

Armas de negociação

Encarando esta guerra comercial como um jogo, Trump já lançou os dados e as peças estão a mover-se no tabuleiro. Face à promessa de tarifas “recíprocas” de 20% sobre tudo o que os EUA importam da UE, os líderes dos 27 estiveram reunidos no Luxemburgo, na segunda-feira, para debater que resposta dar – tendo decidido, em linhas gerais, retaliar apenas com tarifas sobre o aço e o alumínio no imediato, enquanto tentam negociar com a administração americana.

Uma das propostas de Bruxelas passa por tarifas “zero por zero” sobre automóveis e bens industriais. Mas tão rápido foi Trump a rejeitar essa ideia como foi a contrapropor que a UE tem de gastar 320 mil milhões de euros com energia produzida pelos EUA se pretende um alívio das taxas aduaneiras – denotando o que alguns especialistas dizem ser o verdadeiro motor desta guerra tarifária de Trump.

Se, no caso da China, com quem os EUA já estão abertamente em guerra comercial, o principal objetivo das tarifas é “enfraquecer muito a economia” do seu maior rival geopolítico e industrial, no caso da Europa os motivos das taxas sobre exportações são outros, defende o economista Ricardo Paes Mamede, que é da opinião de que "as tarifas são mais uma arma de negociação do que um objetivo em si memso"

“O problema dos EUA com a Europa não tem a ver com o défice comercial especificamente, os americanos estão muito mais preocupados com coisas como saber se a UE vai ou não começar a taxar fortemente as plataformas digitais, passa por saber se a UE vai ou não aumentar substancialmente as suas despesas militares – libertando os EUA desse esforço – ou qual vai ser a relação política entre a UE e a China, que é o arquirrival dos EUA neste momento”, explica o professor de Economia Política do ISCTE.

Questionado sobre os riscos de uma estagflação nos Estados Unidos, e por acréscimo sobre o risco de contágio também à Europa, o especialista afasta cenários catastrofistas. “Os riscos existem, mas a ideia de desastre total parece-me que não faz muito sentido, o impacto do aumento das taxas alfandegárias, sendo relevante, não é algo que seja estruturalmente devastador”, diz Paes Mamede. “Temos de nos lembrar que o peso que, para todos os efeitos, o comércio externo tem numa economia da dimensão da americana é, à partida, contido, porque uma boa parte da economia vive de serviços”.

Para além disso, adianta, “é de esperar que uma parte do aumento das tarifas seja absorvido pelos próprios exportadores”, nos países agora sujeitos a taxas alfandegárias mais elevadas nos EUA. “Pode ainda haver um efeito expectável, que até agora está a acontecer, que é a apreciação do dólar. Se os preços aumentam, mas o dólar também valoriza em relação às outras moedas, é possível comprar mais produtos externos com a mesma quantidade de dólares. E, finalmente, há algumas medidas que podem ser tomadas pelo Governo americano para suavizar o impacto da inflação nalguns bens que tenham efeitos mais transversais na evolução dos preços gerais.”

Peter Navarro, o principal conselheiro económico do presidente americano e ideólogo da guerra tarifária, é classificado pelo correspondente da Sky News em Washington como "o homem mais perigoso no mundo de Trump" (foto: Chandan Khanna/AFP via Getty Images)

Razões e retaliações

Para o arquiteto desta guerra tarifária, um dos poucos elementos que transitaram da primeira para a segunda administração Trump, o que está em causa com as tarifas “não é uma negociação”, mas uma “emergência nacional desencadeada por défices comerciais causados por um sistema manipulado”.

Assim escreve Pete Navarro num artigo de opinião publicado terça-feira no Financial Times, sob o título “As taxas aduaneiras de Donald Trump vão corrigir um sistema falido” – em que o principal conselheiro económico da presidência defende esta estratégia ultraproteccionista sob o argumento de que “os défices comerciais acumulados dos EUA em bens desde 1976 – ano em que começaram os défices crónicos – até 2024 transferiram mais de 20 biliões de dólares da riqueza americana para mãos estrangeiras”, o correspondente a mais de 60% do PIB dos EUA no ano passado.

“Neste momento temos muita dificuldade em perceber a racionalidade e a coerência destas medidas, a estratégia do presidente Trump é claramente gerar confusão, criar choque, criar medo, mas dito isto há duas ou três coisas que devemos ter bem presentes”, refere Paes Mamede, invocando em primeiro lugar precisamente a questão do défice comercial americano.

“Os EUA têm, de facto, um défice comercial muito elevado, são 3 milhões de milhões [biliões] de défice externo que se vai acumulando”, refere o economista, que refere como segunda possível explicação “a dimensão da acumulação da dívida pública, que precisa de receitas fiscais, sendo as taxas alfandegárias uma alternativa à subida dos impostos internos”.

E em terceiro lugar, “há que ter em conta que os EUA não só perderam muita capacidade industrial nas últimas duas décadas, com estudos académicos a demonstrarem que a industrialização aceleradíssima da China teve um papel nesse processo, como correm o risco de ficar para trás em algumas áreas-chave perante a transformação tecnológica muito rápida a que estamos a assistir”.

Para Ricardo Paes Mamede, “qualquer desses elementos traz alguma racionalidade a esta estratégia – a questão é que, para funcionar, são precisas outras medidas, as tarifas por si só não bastam” para devolver a hegemonia comercial aos EUA. “Diria que é possível encontrar racionalidade e que não é impossível que [as tarifas] venham a produzir resultados positivos para o país, mas vai tudo depender do que o Governo americano vai fazer para além disto.”

Até ver, e para além do alvoroço nos mercados e das incógnitas sobre o futuro a curto e médio prazo, as tarifas já estão a fazer estalar o verniz entre membros da administração Trump, com Navarro e Elon Musk envolvidos numa guerra de palavras desde que o bilionário partilhou na X um vídeo do falecido economista Milton Friedman a exaltar o “poder do mercado livre” – guerra essa que viu o primeiro chamar ao segundo “montador de carros” e que ontem registou um novo pico, com o segundo a chamar ao primeiro “perfeito idiota”.

E se “tudo vai depender do que o Governo americano vai fazer”, como refere Paes Mamede, também tudo vai depender do que os restantes países vão fazer, em particular a UE, acrescenta Costa Pinto. O economista concorda que uma retaliação europeia às tarifas de Trump não vai evitar o contágio caso a economia americana entre em recessão ou estagflação, mas ressalta que retaliar ajudará a economia americana a “sentir o impacto das medidas” e “mostrará à administração Trump que há um custo a pagar”.

“É natural que haja tentativas de negociação e, se houver sucesso, é natural que a reação da UE seja mais comedida”, assume João Costa Pinto. “Mas se a administração Trump mantiver esta posição de grande agressividade, a UE não pode ficar quieta – até sob pena de, perante a própria opinião pública europeia, os dirigentes parecerem um grupo de totós.”

E.U.A.

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