"A guerra na Ucrânia demonstrou que as armas nucleares não têm utilidade militar"

22 nov, 09:00
Rússia testes nucleares lançamento míssil balístico intercontinental Yars (Ministério da Defesa da rússia via AP)

ENTREVISTA || John Erath, diretor de políticas do Centro para o Controlo de Armas e a Não-Proliferação, não acredita que estamos na iminência de uma nova corrida global ao armamento nuclear. Contudo, e diante da posição "contraditória" de Donald Trump, se os EUA cumprirem a ameaça de testes isso poderá levar outros países a "melhorar significativamente as suas forças nucleares e, nesse caso, o mundo tornar-se-á um lugar mais perigoso"

O único tratado que resta entre Estados Unidos e Rússia, o New START, que limita os dois rivais a um máximo de 1.550 ogivas nucleares de longo alcance implantadas em sistemas de lançamento, está prestes a expirar. Estamos diante de uma iminente nova corrida global ao armamento nuclear?

Não necessariamente. Ainda não há motivos para construir mais armas nucleares. Os EUA e a Rússia já possuem armamentos mais do que suficientes para dissuadir qualquer um. O perigo reside no facto de que o contínuo aumento do poderio militar chinês possa exercer pressão psicológica adicional sobre outros governos, levando-os a seguir o mesmo caminho. A guerra na Ucrânia demonstrou que as armas nucleares não têm utilidade militar, ao contrário das armas convencionais avançadas, que provaram a sua eficácia. Nesse sentido, prevejo uma maior ênfase em forças não nucleares daqui para a frente.

Mas dada a troca de ameaças de testes entre ambos, como pode isso impactar outras potências, como a China, o Irão ou a Coreia do Norte?

O desenfreado programa nuclear chinês é atualmente a maior fonte de incerteza em relação às armas nucleares. Caso continue a ser esse o caso, os governos dos EUA, da Índia, do Japão e da Coreia do Sul vão ter de reavaliar a sua segurança. Isto tem pouca relação com o New START. Se houver uma maior ênfase nas armas nucleares como garantia de segurança — e isso depende mais das possíveis perceções de uma vitória russa na Ucrânia do que do destino do New START — podemos esperar que esses governos reajam de acordo e possivelmente aumentem as suas capacidades nucleares.

Sobre o programa nuclear chinês ser a maior fonte de incerteza da atualidade, quais são as hipóteses de assistirmos a negociações de controlo de armas entre Pequim e Washington?

Tradicionalmente, a China tem evitado o controlo de armas, geralmente sob a desculpa de que tem um número muito menor de armas estratégicas. Mas os seus argumentos estão a perder credibilidade à medida que o seu arsenal aumenta. Se uma corrida armamentista nuclear começar, o crescimento do arsenal chinês será a causa imediata disso. Envolver a China num processo de controlo de armas será uma importante medida preventiva.

Num contexto mais geral, quais são as possibilidades de a atual administração norte-americana continuar a trabalhar no desarmamento e não-proliferação?

O presidente Trump tem afirmado repetidamente que gostaria que houvesse menos armas nucleares. Mas ao mesmo tempo, fala em retomar os testes nucleares, então a mensagem é contraditória. Contudo, um grande acordo de controlo de armas é o tipo de coisa que ganha Prémios Nobel...

Depois de mais de 30 anos de serviço público relacionado com controlo de armas e não-proliferação, Jonh Erath passou a supervisionar a equipa de políticas do Centro para o Controlo de Armas e a Não-Proliferação, com sede em Washington DC, gerindo dossiers como o Irão, Rússia, Coreia do Norte, China e política nuclear interna dos EUA. foto DR

Então vamos ver as ameaças de testes serem concretizadas? E, nesse caso, diria que podemos assistir a novos testes com explosões, dado que os testes têm estado relacionados com projéteis capazes de transportar ogivas nucleares?

Não há justificação militar, científica, diplomática ou técnica para a realização de um teste nuclear explosivo. Os presidentes Trump e Putin afirmaram que realizariam testes caso o outro país o fizesse. Nenhum país, com exceção da Coreia do Norte, realizou um teste nuclear neste século, e a Coreia do Norte não realiza testes desde 2017.

Dada essa posição contraditória de Trump, e caso o presidente decida mesmo avançar com testes de armamento nuclear, quais seriam as implicações disso para os EUA?

Não houve testes durante mais de 30 anos, o que significa que há uma grande infraestrutura que precisaria de ser reconstruída. Mais importante ainda, seria necessário haver algo para ser testado. Não existem armas nucleares extra. E também não há necessidade. Os cientistas americanos sabem tudo o que precisam de saber sobre como funcionam as explosões nucleares.

Muitos especialistas, entre os quais o John, parecem convencidos de que os testes nucleares seriam contraproducentes para os EUA. De que forma?

Porque os EUA sabem como funciona uma explosão nuclear e os outros componentes de uma arma podem ser testados sem uma detonação nuclear. Outros países não têm tantos dados e poderiam melhorar significativamente as suas forças nucleares por via de testes. E, nesse caso, o mundo tornar-se-á um lugar mais perigoso.

Em março, houve muitas discussões deste lado do Atlântico sobre a necessidade de a Europa ter um "guarda-chuva nuclear", uma ideia que foi levantada pelo presidente francês Macron. Isto faz sentido no atual contexto geopolítico ou a Europa deve abandonar essa ideia? 

A Europa deveria concentrar-se nas suas forças convencionais, que são bastante limitadas. As forças nucleares são só um meio de dissuasão, e as atuais forças nucleares da NATO já oferecem capacidade adequada de dissuasão. França não tem condições de expandir as suas forças nucleares, então diria que a declaração de Macron tinha outro propósito.

Que propósito? 

Talvez uma forma dissimulada de propor que França assuma o lugar dos Estados Unidos como líder de facto da aliança atlântica.

E.U.A.

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