"E significa, sobretudo, que o projecto europeu, que se pretendia resiliente perante os populismos, está a ser lentamente corroído por dentro — não pela força dos seus inimigos, mas pela fraqueza das suas respostas"
Foi assim, com uma frase que soou mais como aviso do que como promessa, que o novo Presidente da Polónia, Karol Nawrocki, respondeu à pergunta sobre o que teria a dizer a Bruxelas. E se há algo que esta eleição presidencial deixa claro é que Nawrocki não vem para dar continuidade ao papel Polaco no projecto europeu — vem para desafiá-lo.
A vitória de Nawrocki, figura próxima da direita nacionalista e com o apoio tácito de Donald Trump, é mais do que um contratempo para Donald Tusk. É uma peça estrutural na recomposição do mapa político europeu — e um golpe na frente liberal que resiste ainda com alguma solidez na Europa Central. Tusk, antigo presidente do Conselho Europeu e um dos baluartes da visão federalista e pró-Ucrânia no Leste, vê-se agora cercado. E a Europa, mais uma vez, surpreendida pela sua própria miopia política.
A Polónia tem sido um dos países mais decisivos no apoio à Ucrânia, tanto pela sua proximidade geográfica como pelo peso militar que decidiu assumir — aproximando-se dos 5% do PIB em defesa, mais do que os 2% de média dos restantes Estados da NATO. Este compromisso está não só ligado a razões históricas e securitárias, mas também a uma leitura política do lugar da Polónia na nova ordem europeia. A eleição de Nawrocki abala esse eixo.
Se o apoio popular à Ucrânia ainda é expressivo, a nova liderança presidencial representa um risco real de reorientação estratégica: menos Europa, mais soberanismo, menos cooperação transnacional, mais nacionalismo retórico. E, como se já não bastasse a instabilidade em França, a ambiguidade em Itália e os crescente da AfD na Alemanha, Bruxelas vê agora Varsóvia a resvalar para um campo que fala, cada vez mais, a linguagem da desintegração.
A resposta de Tusk foi instintiva: anunciou um voto de confiança no Parlamento, procurando mostrar que o seu governo mantém apoio democrático claro. É uma jogada corajosa, mas arriscada. A sua maioria é real, mas frágil — e qualquer sinal de hesitação poderá custar caro a um executivo que já tinha dificuldades em aplicar a sua agenda de reformas e em lidar com o bloqueio institucional do presidente cessante, Andrzej Duda. Agora, com Nawrocki no Palácio Presidencial, esse bloqueio poderá tornar-se absoluto.
Acresce que Nawrocki não é apenas um conservador tradicional. É um historiador ideológico, presidente do Instituto da Memória Nacional, especialista em narrativas e símbolos. A sua eleição traz consigo uma ofensiva cultural, uma reescrita da identidade polaca que se pretende afirmada contra Bruxelas, contra “os globalistas” e, em última instância, contra os consensos que têm sustentado a construção europeia.
Este novo presidente não será, por certo, um simples executante do PiS (o partido nacionalista Lei e Justiça). Será antes um rosto legitimado pela democracia para reinterpretar o papel da Polónia na Europa — como bastião dos valores conservadores e da soberania nacional, num momento em que a extrema-direita ganha força em várias capitais europeias. Os elogios apressados de figuras eurocépticas como Viktor Orbán ou o apoio silencioso de Trump são reveladores do campo em que Nawrocki se insere.
Entretanto, na Alemanha, o novo governo liderado por Friedrich Merz começa a ocupar o espaço de liderança efectiva da União Europeia. A assertividade alemã na defesa, nas questões económicas, no “controlo” da liderança Europeia e com a secundarização crescente de Ursula von der Leyen, cuja presidência da Comissão perdeu tração e visibilidade. A eleição de Nawrocki na Polónia isola ainda mais os federalistas do centro e fragmenta qualquer tentativa de alinhar uma resposta comum à direita radical que cresce por toda a Europa. A geografia da influência europeia está em transformação — e Berlim, mais do que Bruxelas, volta a ditar o rumo.
E o que significa isto para a Europa?
Significa que a frente de apoio à Ucrânia pode perde coesão política e estabilidade estratégica. Significa que a Polónia, pilar oriental da defesa europeia, pode agora entrar numa fase de tensão interna que poderá ter custos para a articulação militar e diplomática do bloco. E significa, sobretudo, que o projecto europeu, que se pretendia resiliente perante os populismos, está a ser lentamente corroído por dentro — não pela força dos seus inimigos, mas pela fraqueza das suas respostas.
Se a Europa continuar a tratar estas vitórias nacionalistas como episódios isolados, se continuar a reagir em vez de antecipar, arrisca-se a ver ruir os alicerces de um edifício que já revela fissuras. A guerra na Ucrânia, o pacto verde, a crise demográfica e a tensão comercial com os EUA exigem uma Europa com liderança e clareza. Em vez disso, temos agora mais um actor disposto a baralhar as regras do jogo.
A ascensão de figuras como Giorgia Meloni em Itália, o endurecimento discursivo do PVV nos Países Baixos, o avanço do FPÖ na Áustria, a projecção renovada do Chega em Portugal, ou a crescente legitimação do Vlaams Belang na Flandres são sinais de uma Europa em processo de viragem. Em França, Jordan Bardella poderá vencer as eleições presidenciais— e, num cenário que já não é impossível, ele ou Marine Le Pen podem mesmo chegar ao Eliseu. Na Roménia, as eleições presidenciais foram apenas o aperitivo; o verdadeiro teste virá com as legislativas, onde os nacionalistas do AUR ameaçam conquistar uma base de poder real. E nos Balcãs, a tensão volta a subir: a Bósnia-Herzegovina vive dias de instabilidade crónica, com sinais preocupantes de separatismo e pressão russa indirecta. Tudo isto forma um padrão.
“Estou a chegar” não foi uma saudação. Foi um sinal de que o tempo político mudou. E de que, se nada for feito, o próximo a chegar poderá já não bater à porta — poderá arrombá-la.