Cimeira da NATO em Ancara vai ser encontro da união ou da desunião? "Há uma boa história para contar", mas está quase tudo em aberto

6 jul, 22:00
Donald Trump na cimeira da NATO (Alex Brandon/AP)
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Longe vai o tempo em que havia uma cimeira da NATO de dois em dois anos. Desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022, tem havido um encontro por ano e, pela primeira vez em 22 anos, será a Turquia a anfitriã. Foco vai estar na despesa dos aliados europeus com a Defesa e antecipam-se anúncios de acordos de investimento no setor avaliados em dezenas de milhares de milhões de euros. A grande incógnita é como vai Donald Trump comportar-se - e o que vai isso significar no futuro a curto e médio prazo

A poucos dias de uma antecipada cimeira da NATO, nas vésperas de mais uma noite de intensos bombardeamentos russos à Ucrânia com dezenas de mísseis e centenas de drones, Mark Rutte fez o que tem sido seu apanágio desde que Donald Trump regressou à presidência dos EUA: mostrou estar empenhado em manter o presidente norte-americano a bordo da aliança atlântica, desta feita alardeando o potencial de desenvolvimento da indústria de defesa aquém e além Atlântico.

Com o grosso dos analistas a apontarem Trump como a grande incógnita de mais um encontro dos 32 Estados-membros da NATO, o primeiro em 22 anos a ter lugar na Turquia, o grande objetivo da cimeira parece ser o de projetar uma imagem de união e apresentar recibos com os valores do reforço dos investimentos dos aliados na Defesa, tal como o líder norte-americano tem exigido.

“Estamos a dias de partir para a cimeira de Ancara [capital da Turquia] e na bagagem levamos a certeza de que Portugal atingiu e até superou o investimento na Defesa Nacional de 2% do PIB”, declarou o ministro português da Defesa, Nuno Melo, na Assembleia da República na semana passada. “Na verdade, atingimos um valor agora confirmado pela NATO de 2,01% apesar da revisão em altas por duas  vezes do PIB”, adiantou o responsável da tutela, invocando uma cimeira “muito importante” do ponto de vista geoestratégico e acrescentando que “Portugal pode agora orgulhar-se de dizer que cumpre os compromissos que assume”.

Portugal e outros países até podem ter-se aproximado ou até ultrapassado os 2% do PIB em defesa, como já estava definido desde 2014, mas os 5% que Donald Trump exige são outra história. Como referia Paulo Portas, antigo ministro da Defesa e atual comentador da TVI/CNN, a dias do arranque da cimeira, “os 5% não têm demonstração racional e, de resto, os próprios Estados Unidos não gastam isso” – sendo que o mais provável é que os compromissos possam subir para “3%, 3% e pico”. Não para o valor que Trump quer.

Na véspera da cimeira de Ancara, o ministro português da Defesa, Nuno Melo, disse que "Portugal pode orgulhar-se de dizer que cumpre os compromissos que assume. (Paulo Cunha/Lusa)

Face às pressões da administração Trump para que os aliados europeus aumentem a despesa com Defesa e após meses de atrito transatlântico – iniciado com ameaças de Washington de tomar a Gronelândia e culminando com a guerra iniciada contra o Irão sem estratégia e com consequências desastrosas para todo o mundo – a incerteza no seio da aliança é gritante. 

E é essa incerteza, alimentada pelas críticas e ameaças de Trump de retirar todas as suas tropas da Europa e de fazer uma revisão a seis meses da presença militar dos EUA no continente, que serve de pano de fundo a este encontro – como já tinha sido essa incerteza e essa imprevisibilidade a ficarem patentes na reunião dos ministros da Defesa da NATO que teve lugar em Bruxelas há cerca de um mês.

Foi na altura que o secretário da Defesa de Trump, Pete Hegseth, anunciou a dita revisão do posicionamento  militar dos EUA em relação à Europa. “A nossa estratégia de defesa nacional afirma claramente que vamos encorajar e capacitar os nossos aliados para intensificarem os seus esforços e fazerem a sua parte”, declarou Hegseth no encontro de 18 de junho. “Portanto, vamos estar atentos aos aliados que não estão a fazer isto e que dizem ‘não’, ou ‘talvez’, ou ‘vamos esperar para ver quando é mais importante’. É uma revisão em que alguns países falharão e outros passarão com distinção.”

Embora fosse expectável que Trump ordenasse esta revisão, as declarações de Hegseth irritaram alguns dos ministros presentes, como o alemão Boris Pistorius, que usou o púlpito para alertar para o risco de défices militares durante a transição. “Trata-se de um guião, de uma forma sincronizada de proceder”, declarou o ministro alemão da Defesa. “O desafio mais relevante é evitar lacunas perigosas de capacidade.”

Transferência de responsabilidades

Depois da cimeira da NATO em Haia há um ano, quando os Estados-membros se comprometeram com os 5% do PIB e outras medidas de reforço da Defesa até 2035, desta vez os líderes europeus querem mostrar a Trump que estão a ser dados passos para cumprir as promessas firmadas. 

“Em 2025, os aliados europeus e o Canadá aumentaram os seus investimentos em requisitos essenciais de Defesa em mais de 139 mil milhões de dólares”, deverão afirmar os líderes numa declaração conjunta em Ancara, de acordo com o texto provisório a que a Reuters teve acesso. “Estamos a construir o futuro: uma Europa mais forte numa NATO mais forte – uma aliança modernizada. Os aliados europeus e o Canadá, trabalhando com os Estados Unidos, estão a assumir uma maior responsabilidade pela Defesa da aliança.”

Essa responsabilidade passa por reforçar os investimentos na indústria de Defesa, com alguns analistas a anteciparem que sejam anunciados acordos no valor de dezenas de milhares de milhões de euros já esta terça-feira. E isto levanta outra questão – e outra incógnita – num momento em que Trump continua a exigir que os europeus façam compras e aquisições “made in America”.

Cimeira da NATO em Ancara segue-se à cimeira de há um ano em Haia, quando os Estados-membros da aliança se comprometeram com os 5% do PIB e outras medidas de reforço da Defesa até 2035. (Geert Vanden Wijngaert/AP)

Com Rutte, o secretário-geral da NATO, numa busca desesperada por terreno comum, é a produção em Defesa que está no centro da cimeira deste ano, esperando-se que o responsável revele o que está a ser batizado de “revolução industrial da Defesa”, incluindo os tais novos contratos de dezenas de milhares de milhões de euros e acordos de aquisição para os europeus que buscam impulsionar a produção de armamento.

“O objetivo é mostrar que existe um mercado para a indústria norte-americana e também apresentar um argumento económico a favor da NATO que Trump, espera-se, considere atraente”, diz Claudia Major, especialista em segurança transatlântica do think tank German Marshall Fund, em declarações ao alemão Deutsche Welle

“Agradar a Trump e defender a NATO” é como a analista embrulha a cimeira iminente, sem esquecer que a Europa precisa de se preparar e delinear o seu próprio plano para gerir a transição militar pré-anunciada pela administração Trump. “Se os EUA decidirem que já não querem desempenhar um papel crucial na Europa, os europeus precisam de assumir a responsabilidade – e é melhor que o façam rapidamente, dada a ameaça da Rússia e a fragilidade geopolítica geral em torno da Europa.”

O ambiente pré-cimeira é genericamente positivo, mas a tensão e as elevadas expectativas são palpáveis. “Há uma boa história para contar”, dizia hoje ao Euractiv um diplomata da NATO sob anonimato, apontando para a mudança sustentada na distribuição das responsabilidades dentro da aliança. “Os números não mentem.” Ainda assim, para Claudia Major, a questão central, acima da despesa em Defesa e dos contratos de aquisição, é se os aliados serão capazes de mostrar unidade política.

"Se a cimeira demonstrar divisão política, se houver disputas abertas, se o presidente dos EUA criticar um aliado por não gastar o suficiente, por não fazer o suficiente na guerra com o Irão, isso enfraquecerá a coesão política e, consequentemente, a mensagem de dissuasão militar e de defesa."

E as guerras em curso?

Inevitavelmente, e depois de uma chamada de 90 minutos entre Trump e o presidente russo, Vladimir Putin, a guerra na Ucrânia não será ignorada nesta cimeira. Mas apesar do alegado empenho do líder norte-americano em ajudar a acabar com a guerra, é improvável que os EUA anunciem um reforço da ajuda financeira a Kiev, ao contrário dos europeus e restantes aliados, que deverão comprometer-se com mais investimento.

De acordo com o texto da cimeira a que a Reuters teve acesso, “para 2026 os aliados prometem 70 mil milhões de euros em equipamento militar, assistência e treino para a Ucrânia e reafirmam os seus compromissos soberanos de manter níveis no mínimo equivalentes em 2027”. Parte desse financiamento será proveniente de acordos bilaterais já em vigor e também da linha de crédito da UE que prevê 60 mil milhões de euros para investimentos e aquisições de defesa ucranianos para 2026-27.

Existe algum otimismo cauteloso de que os aliados vão manter-se unidos quanto à Ucrânia apesar de tudo, depois de, na cimeira do G7 que decorreu em França no mês passado, Trump ter adotado um tom mais cooperante e se ter juntado a outros líderes no apoio à pressão adicional sobre a Rússia de Putin, incluindo sanções adicionais às exportações de petróleo e ao setor bancário do país.

Em declarações aos jornalistas após esse encontro, o chanceler alemão, Friedrich Merz, congratulou-se com o que considerou ser um sinal positivo, sobretudo para a Ucrânia, que veio estabelecer “um novo tom de unidade e determinação transatlântica” para Kiev. “Isto pode abrir, talvez pela primeira vez, uma hipótese para a paz”, declarou então Merz.

Numa altura em que se mantêm tensões dentro da própria UE quanto à retoma de contactos diretos com o Kremlin para tentar pôr fim ao conflito, este está longe de ser o único a ensombrar a cimeira da NATO em Ancara, receando-se que a irritação de Trump com os governos europeus pelo que encara como falta de cooperação perante a sua guerra contra o Irão também respingue para os encontros.

Navegação no Estreito de Ormuz continua condicionada ao final de mais de quatro meses de guerra no Irão. (Getty Images)

Na sua declaração para a cimeira, noticia a Reuters, os líderes deverão reiterar a posição dos aliados de que “o Irão nunca deve possuir uma arma nuclear” e “apelar ao Irão para que respeite integralmente a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz” – sem mais, já que, em geral, continuam a não estar totalmente alinhados com a abordagem de Washington.

Para Ulrike Franke, investigadora sénior do European Council on Foreign Relations (ECFR), ouvida pelo canal norte-americano CNBC, a cimeira poderá ser palco de debates sobre potenciais contribuições europeias para a segurança marítima ou qualquer acordo de paz futuro, incluindo a participação nos esforços de desminagem do Estreito de Ormuz – mas todos os contributos deverão ser limitados e total ou parcialmente simbólicos.

Que outros pontos na agenda?

E em mais uma camada de complexidade, há a ter em conta o papel da Turquia como anfitriã da cimeira deste ano. É a primeira vez em mais de duas décadas que o Estado-membro organiza um encontro da aliança e, como aconteceu com países anfitriões anteriores, é provável que a utilize para pôr na agenda as suas próprias preocupações de segurança e interesses na indústria de Defesa.

Para Recep Tayyip Erdogan, o presidente turco, uma cimeira bem sucedida não só demonstraria a centralidade da Turquia na geopolítica mundial como reforçaria a posição de Ancara para obter acesso ao bolo de investimentos vindouros na indústria militar. O objetivo de Ancara será, numa dupla frente, destacar as suas crescentes capacidades de produção industrial de Defesa e reiterar o seu apelo de longa data para que os aliados suspendam todas as restrições ao comércio de Defesa dentro da NATO.

Erdogan (à direita) continua investido em lavar a imagem da Turquia e, acima de tudo, mostrar que o país não pode ser posto à margem da geopolítica mundial. (EPA)

Nesse contexto, Erdogan estará investido em avançar com acordos de cooperação com países como França e Itália relativos a sistemas de defesa antimíssil SAMP/T e, em conversações bilaterais com Trump, espera-se também que pressione pela suspensão das sanções americanas e pela retoma do acesso de Ancara ao programa de caças F-35.

A par dos 32 Estados-membros da NATO, a cimeira que arranca amanhã contará com a presença do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, dos ministros dos Negócios Estrangeiros do Bahrein, Kuwait, Catar e Emirados Árabes Unidos e da chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, a par dos ministros da Defesa da Austrália, Japão, Nova Zelândia e Coreia do Sul.

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