Longe vai o tempo em que havia uma cimeira da NATO de dois em dois anos. Desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022, tem havido um encontro por ano e, pela primeira vez em 22 anos, será a Turquia a anfitriã. Foco vai estar na despesa dos aliados europeus com a Defesa e antecipam-se anúncios de acordos de investimento no setor avaliados em dezenas de milhares de milhões de euros. A grande incógnita é como vai Donald Trump comportar-se - e o que vai isso significar no futuro a curto e médio prazo
A poucos dias de uma antecipada cimeira da NATO, nas vésperas de mais uma noite de intensos bombardeamentos russos à Ucrânia com dezenas de mísseis e centenas de drones, Mark Rutte fez o que tem sido seu apanágio desde que Donald Trump regressou à presidência dos EUA: mostrou estar empenhado em manter o presidente norte-americano a bordo da aliança atlântica, desta feita alardeando o potencial de desenvolvimento da indústria de defesa aquém e além Atlântico.
Com o grosso dos analistas a apontarem Trump como a grande incógnita de mais um encontro dos 32 Estados-membros da NATO, o primeiro em 22 anos a ter lugar na Turquia, o grande objetivo da cimeira parece ser o de projetar uma imagem de união e apresentar recibos com os valores do reforço dos investimentos dos aliados na Defesa, tal como o líder norte-americano tem exigido.
“Estamos a dias de partir para a cimeira de Ancara [capital da Turquia] e na bagagem levamos a certeza de que Portugal atingiu e até superou o investimento na Defesa Nacional de 2% do PIB”, declarou o ministro português da Defesa, Nuno Melo, na Assembleia da República na semana passada. “Na verdade, atingimos um valor agora confirmado pela NATO de 2,01% apesar da revisão em altas por duas vezes do PIB”, adiantou o responsável da tutela, invocando uma cimeira “muito importante” do ponto de vista geoestratégico e acrescentando que “Portugal pode agora orgulhar-se de dizer que cumpre os compromissos que assume”.
Portugal e outros países até podem ter-se aproximado ou até ultrapassado os 2% do PIB em defesa, como já estava definido desde 2014, mas os 5% que Donald Trump exige são outra história. Como referia Paulo Portas, antigo ministro da Defesa e atual comentador da TVI/CNN, a dias do arranque da cimeira, “os 5% não têm demonstração racional e, de resto, os próprios Estados Unidos não gastam isso” – sendo que o mais provável é que os compromissos possam subir para “3%, 3% e pico”. Não para o valor que Trump quer.
Face às pressões da administração Trump para que os aliados europeus aumentem a despesa com Defesa e após meses de atrito transatlântico – iniciado com ameaças de Washington de tomar a Gronelândia e culminando com a guerra iniciada contra o Irão sem estratégia e com consequências desastrosas para todo o mundo – a incerteza no seio da aliança é gritante.
E é essa incerteza, alimentada pelas críticas e ameaças de Trump de retirar todas as suas tropas da Europa e de fazer uma revisão a seis meses da presença militar dos EUA no continente, que serve de pano de fundo a este encontro – como já tinha sido essa incerteza e essa imprevisibilidade a ficarem patentes na reunião dos ministros da Defesa da NATO que teve lugar em Bruxelas há cerca de um mês.
Foi na altura que o secretário da Defesa de Trump, Pete Hegseth, anunciou a dita revisão do posicionamento militar dos EUA em relação à Europa. “A nossa estratégia de defesa nacional afirma claramente que vamos encorajar e capacitar os nossos aliados para intensificarem os seus esforços e fazerem a sua parte”, declarou Hegseth no encontro de 18 de junho. “Portanto, vamos estar atentos aos aliados que não estão a fazer isto e que dizem ‘não’, ou ‘talvez’, ou ‘vamos esperar para ver quando é mais importante’. É uma revisão em que alguns países falharão e outros passarão com distinção.”
Embora fosse expectável que Trump ordenasse esta revisão, as declarações de Hegseth irritaram alguns dos ministros presentes, como o alemão Boris Pistorius, que usou o púlpito para alertar para o risco de défices militares durante a transição. “Trata-se de um guião, de uma forma sincronizada de proceder”, declarou o ministro alemão da Defesa. “O desafio mais relevante é evitar lacunas perigosas de capacidade.”
Transferência de responsabilidades
Depois da cimeira da NATO em Haia há um ano, quando os Estados-membros se comprometeram com os 5% do PIB e outras medidas de reforço da Defesa até 2035, desta vez os líderes europeus querem mostrar a Trump que estão a ser dados passos para cumprir as promessas firmadas.
“Em 2025, os aliados europeus e o Canadá aumentaram os seus investimentos em requisitos essenciais de Defesa em mais de 139 mil milhões de dólares”, deverão afirmar os líderes numa declaração conjunta em Ancara, de acordo com o texto provisório a que a Reuters teve acesso. “Estamos a construir o futuro: uma Europa mais forte numa NATO mais forte – uma aliança modernizada. Os aliados europeus e o Canadá, trabalhando com os Estados Unidos, estão a assumir uma maior responsabilidade pela Defesa da aliança.”
Essa responsabilidade passa por reforçar os investimentos na indústria de Defesa, com alguns analistas a anteciparem que sejam anunciados acordos no valor de dezenas de milhares de milhões de euros já esta terça-feira. E isto levanta outra questão – e outra incógnita – num momento em que Trump continua a exigir que os europeus façam compras e aquisições “made in America”.
Com Rutte, o secretário-geral da NATO, numa busca desesperada por terreno comum, é a produção em Defesa que está no centro da cimeira deste ano, esperando-se que o responsável revele o que está a ser batizado de “revolução industrial da Defesa”, incluindo os tais novos contratos de dezenas de milhares de milhões de euros e acordos de aquisição para os europeus que buscam impulsionar a produção de armamento.
“O objetivo é mostrar que existe um mercado para a indústria norte-americana e também apresentar um argumento económico a favor da NATO que Trump, espera-se, considere atraente”, diz Claudia Major, especialista em segurança transatlântica do think tank German Marshall Fund, em declarações ao alemão Deutsche Welle.
“Agradar a Trump e defender a NATO” é como a analista embrulha a cimeira iminente, sem esquecer que a Europa precisa de se preparar e delinear o seu próprio plano para gerir a transição militar pré-anunciada pela administração Trump. “Se os EUA decidirem que já não querem desempenhar um papel crucial na Europa, os europeus precisam de assumir a responsabilidade – e é melhor que o façam rapidamente, dada a ameaça da Rússia e a fragilidade geopolítica geral em torno da Europa.”
O ambiente pré-cimeira é genericamente positivo, mas a tensão e as elevadas expectativas são palpáveis. “Há uma boa história para contar”, dizia hoje ao Euractiv um diplomata da NATO sob anonimato, apontando para a mudança sustentada na distribuição das responsabilidades dentro da aliança. “Os números não mentem.” Ainda assim, para Claudia Major, a questão central, acima da despesa em Defesa e dos contratos de aquisição, é se os aliados serão capazes de mostrar unidade política.
"Se a cimeira demonstrar divisão política, se houver disputas abertas, se o presidente dos EUA criticar um aliado por não gastar o suficiente, por não fazer o suficiente na guerra com o Irão, isso enfraquecerá a coesão política e, consequentemente, a mensagem de dissuasão militar e de defesa."
E as guerras em curso?
Inevitavelmente, e depois de uma chamada de 90 minutos entre Trump e o presidente russo, Vladimir Putin, a guerra na Ucrânia não será ignorada nesta cimeira. Mas apesar do alegado empenho do líder norte-americano em ajudar a acabar com a guerra, é improvável que os EUA anunciem um reforço da ajuda financeira a Kiev, ao contrário dos europeus e restantes aliados, que deverão comprometer-se com mais investimento.
De acordo com o texto da cimeira a que a Reuters teve acesso, “para 2026 os aliados prometem 70 mil milhões de euros em equipamento militar, assistência e treino para a Ucrânia e reafirmam os seus compromissos soberanos de manter níveis no mínimo equivalentes em 2027”. Parte desse financiamento será proveniente de acordos bilaterais já em vigor e também da linha de crédito da UE que prevê 60 mil milhões de euros para investimentos e aquisições de defesa ucranianos para 2026-27.
Existe algum otimismo cauteloso de que os aliados vão manter-se unidos quanto à Ucrânia apesar de tudo, depois de, na cimeira do G7 que decorreu em França no mês passado, Trump ter adotado um tom mais cooperante e se ter juntado a outros líderes no apoio à pressão adicional sobre a Rússia de Putin, incluindo sanções adicionais às exportações de petróleo e ao setor bancário do país.
Em declarações aos jornalistas após esse encontro, o chanceler alemão, Friedrich Merz, congratulou-se com o que considerou ser um sinal positivo, sobretudo para a Ucrânia, que veio estabelecer “um novo tom de unidade e determinação transatlântica” para Kiev. “Isto pode abrir, talvez pela primeira vez, uma hipótese para a paz”, declarou então Merz.
Numa altura em que se mantêm tensões dentro da própria UE quanto à retoma de contactos diretos com o Kremlin para tentar pôr fim ao conflito, este está longe de ser o único a ensombrar a cimeira da NATO em Ancara, receando-se que a irritação de Trump com os governos europeus pelo que encara como falta de cooperação perante a sua guerra contra o Irão também respingue para os encontros.
Na sua declaração para a cimeira, noticia a Reuters, os líderes deverão reiterar a posição dos aliados de que “o Irão nunca deve possuir uma arma nuclear” e “apelar ao Irão para que respeite integralmente a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz” – sem mais, já que, em geral, continuam a não estar totalmente alinhados com a abordagem de Washington.
Para Ulrike Franke, investigadora sénior do European Council on Foreign Relations (ECFR), ouvida pelo canal norte-americano CNBC, a cimeira poderá ser palco de debates sobre potenciais contribuições europeias para a segurança marítima ou qualquer acordo de paz futuro, incluindo a participação nos esforços de desminagem do Estreito de Ormuz – mas todos os contributos deverão ser limitados e total ou parcialmente simbólicos.
Que outros pontos na agenda?
E em mais uma camada de complexidade, há a ter em conta o papel da Turquia como anfitriã da cimeira deste ano. É a primeira vez em mais de duas décadas que o Estado-membro organiza um encontro da aliança e, como aconteceu com países anfitriões anteriores, é provável que a utilize para pôr na agenda as suas próprias preocupações de segurança e interesses na indústria de Defesa.
Para Recep Tayyip Erdogan, o presidente turco, uma cimeira bem sucedida não só demonstraria a centralidade da Turquia na geopolítica mundial como reforçaria a posição de Ancara para obter acesso ao bolo de investimentos vindouros na indústria militar. O objetivo de Ancara será, numa dupla frente, destacar as suas crescentes capacidades de produção industrial de Defesa e reiterar o seu apelo de longa data para que os aliados suspendam todas as restrições ao comércio de Defesa dentro da NATO.
Nesse contexto, Erdogan estará investido em avançar com acordos de cooperação com países como França e Itália relativos a sistemas de defesa antimíssil SAMP/T e, em conversações bilaterais com Trump, espera-se também que pressione pela suspensão das sanções americanas e pela retoma do acesso de Ancara ao programa de caças F-35.
A par dos 32 Estados-membros da NATO, a cimeira que arranca amanhã contará com a presença do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, dos ministros dos Negócios Estrangeiros do Bahrein, Kuwait, Catar e Emirados Árabes Unidos e da chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, a par dos ministros da Defesa da Austrália, Japão, Nova Zelândia e Coreia do Sul.
