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Observatório de Segurança e Defesa da SEDES e autor do Livro “Nação Valente – Decisões soberanas para Portugal”

Quem ganha e quem perde no tabuleiro geopolítico que liga o Irão à Ucrânia?

26 mar, 11:55

Se os europeus querem ser Jogadores e não um mero Tabuleiro do jogo geopolítico, não podem ser ingénuos em nome dos princípios, nem cínicos em nome dos interesses. Têm de ser as duas coisas ao mesmo tempo

Daqui a 20 anos, 2026 será lembrado como o ano em que a História do Mundo acelerou vertiginosamente, numa policrise moldada por dois conflitos policêntricos: a guerra na Ucrânia e a guerra no Irão. São dois tabuleiros com vários centros de decisão e de poder em jogo em simultâneo.

Ao dia de hoje, a China está numa posição de "ganhar-ganhar": continua a comprar petróleo barato, posiciona-se como arquiteta da reconstrução do Irão no pós-guerra e apoia a Rússia sem sentir pressão séria do Ocidente.

A Rússia está numa posição de "ganhar-perder" em ambos os tabuleiros: beneficia do aumento do preço do petróleo e da fragmentação entre os aliados da Ucrânia, mas arrisca perder o aliado iraniano e ver os estados do Golfo a apoiar mais abertamente Kiev.

O regime iraniano também está em "ganhar-perder": se sobreviver, poderá tornar-se símbolo messiânico para extremistas religiosos, antissemitas e ideólogos que sonham com a destruição do Ocidente; se sair da guerra profundamente degradado, pode não sobreviver no curto/médio prazo ou ficar condenado a um isolamento regional sem precedentes, ainda mais dependente de Rússia e China, e rejeitado pelas novas gerações iranianas.

A Ucrânia ocupa igualmente uma posição de "ganhar-perder". A guerra no Irão transformou a sua expertise em guerra de drones numa moeda de troca geopolítica: o pedido de apoio técnico e militar ucraniano por parte dos países do Golfo, dos EUA e de aliados europeus eleva Kiev de "peticionário de ajuda" a fornecedor de segurança com lugar à mesa das negociações. Esta nova relevância pode traduzir-se em mais financiamento, parcerias tecnológicas e capital político para exigir garantias de segurança mais sólidas nas negociações de paz com Moscovo.

Mas o conflito no Irão fragiliza a posição ucraniana: o desvio de mísseis Patriot para o Golfo reduz a defesa antiaérea de Kiev, o aumento do preço do petróleo enche os cofres russos quando Moscovo dava sinais de exaustão financeira e a atenção política e mediática do Ocidente afasta-se ainda mais da Ucrânia. Se a guerra se prolongar, o risco é a Ucrânia esgotar recursos financeiros antes de capitalizar o novo estatuto estratégico que ganhou.

Israel encontra-se, por agora, em "ganhar-ganhar". No tabuleiro iraniano, conseguiu transformar uma ameaça existencial numa oportunidade de reconfiguração da arquitetura de segurança do Médio Oriente: eliminou o líder supremo Ali Khamenei, desmantelou grande parte da capacidade nuclear e balística do regime e reduziu a escombros o "Eixo da Resistência" (Hezbollah, Hamas, milícias iraquianas e Houthis). Se o regime iraniano colapsar, Israel terá removido o seu adversário mais perigoso a custo relativamente baixo.

No tabuleiro ucraniano, Israel beneficia do enfraquecimento da Rússia, que vê diminuída a sua capacidade de projetar poder em apoio ao Irão, criando condições para um reequilíbrio mais favorável à ordem internacional que Israel prefere. O grande risco para Telavive reside num eventual Irão falhado, com armas e urânio enriquecido sem controlo e vagas de refugiados desestabilizadoras, ou numa solução de compromisso que ignore os interesses dos países do Golfo e adie "sine die" a normalização diplomática que Israel procura.

A administração americana colocou os EUA numa posição de "ganhar-perder" nos dois tabuleiros. Pode ainda degradar seriamente o programa de mísseis e as lideranças do regime iraniano, reforçar a dependência dos países do Golfo em relação a Washington e usar estes "testes de lealdade" na NATO para aumentar a ambiguidade estratégica sobre o futuro da Aliança. Mas a relutância dos aliados em apoiar a intervenção no Irão fragiliza a ideia de "liderança automática americana" do Ocidente e expõe os limites da sua capacidade de projetar poder em tantos tabuleiros ao mesmo tempo, enquanto enfrenta insatisfação crescente na sua própria base interna.

E a União Europeia? A Europa colocou-se numa posição de "perder-perder". Ao afirmar que "esta não é a nossa guerra", os líderes europeus obtiveram uma vitória tática, retórica e de curto prazo, mas expuseram vulnerabilidades graves nos seus interesses estratégicos.

Em primeiro lugar, desvalorizam a ameaça real que o regime iraniano representa para a segurança dos povos europeus e para a liberdade de comércio marítimo, essencial às cadeias de abastecimento. Entre 2021 e 2024, o Centro Internacional Contra o Terrorismo documenta pelo menos 54 tentativas iranianas de ataques terroristas em solo europeu; e, em julho de 2025, Teerão chegou a ameaçar lançar mísseis contra estados europeus se fossem retomadas as sanções previstas no quadro das Nações Unidas.

Em segundo lugar, a tentativa de isolar Trump criou um facto político que alimenta a narrativa isolacionista e cada vez mais anti-europeia do movimento MAGA, acelerando a fragmentação da NATO.

Em terceiro lugar, pela primeira vez desde o século XI, esta posição afasta os europeus de qualquer papel credível de mediação ou de participação nas negociações sobre a reconstrução e a futura arquitetura de segurança do Médio Oriente. Ao mesmo tempo, nada faz para acelerar a resolução da crise energética que ameaça empurrar a Europa para uma recessão grave, enquanto beneficia a máquina de guerra russa. O evoluir desta crise poderá obrigar os estados europeus a entrar no conflito, por pressões internas, sem que daí se extraia qualquer “dividendo” geopolítico.

Em quarto lugar, os europeus desperdiçam a oportunidade de condicionar um eventual apoio aos EUA em troca de medidas concretas sobre o conflito na Ucrânia, abrindo espaço para Washington se distanciar ainda mais de Kiev e se reaproximar de Moscovo.

Nesta pequena janela de oportunidade, uma oferta europeia de legitimidade política e meios para patrulhar o Estreito de Ormuz poderia ter como contrapartida a negociação de um cessar-fogo com o Irão, o reforço das sanções à Rússia e garantias de segurança para a Ucrânia. Mesmo que Trump recusasse, ficaria com o ónus político dessa decisão, sem margem para retaliar politicamente contra a Europa.

Como escrevo em “Nação Valente: Decisões soberanas para Portugal”, se os europeus querem ser Jogadores e não um mero Tabuleiro do jogo geopolítico, não podem ser ingénuos em nome dos princípios, nem cínicos em nome dos interesses. Têm de ser as duas coisas ao mesmo tempo.

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