Está "a destruir as regras" para criar "um mundo que privilegia os ricos": Relatório Munique 2026 antecipa o legado de Trump

CNN , Brad Lendon
10 fev, 10:55
Elon Musk e Donald Trump com um Tesla na Casa Branca (Photo by MANDEL NGAN/AFP via Getty Images)

Há “uma crescente sensação de impotência e desespero individual e coletivo”, sublinha ainda o relatório. Mais de 50 chefes de Estado e de governo são esperados em Munique no final da semana - Trump não é um deles

Trump é o “homem-demolidor” da ordem mundial, alertam especialistas europeus em segurança

por Brad Lendon, CNN

O mundo está a viver uma era "política de demolição" liderada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que está a pôr a próspera ordem internacional, construída ao longo de décadas, sob uma pressão sem precedentes, segundo o Relatório de Segurança de Munique 2026.

O relatório anual, divulgado antes da Conferência de Segurança de Munique, descreve Trump sem rodeios como a figura mais poderosa a desafiar as regras e instituições existentes e argumenta que a sua abordagem corre o risco de desmantelar alianças e normas de longa data.

"Mais de 80 anos após o início da sua construção, a ordem internacional pós-1945, liderada pelos EUA, está agora num processo de destruição", é apontado no relatório.

O relatório classifica Trump como um dos mais proeminentes "homens-demolidores".

No evento do ano passado, que reúne anualmente importantes autoridades de segurança e académicos, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, chocou a plateia com um discurso a criticar duramente os líderes europeus em relação à “censura” e à imigração, alegando que a ameaça ao continente vinha "de dentro".

O discurso de Vance, proferido apenas algumas semanas após o início do segundo mandato de Trump, deu o tom para um ano de turbulência, incluindo tarifas punitivas dos EUA sobre aliados europeus próximos, a ameaça de ações militares americanas para tomar o território da Gronelândia - pertencente à Dinamarca, membro da NATO - e a deferência à Rússia face à sua invasão ilegal da Ucrânia.

O relatório também classifica Trump como “o mais poderoso entre aqueles que estão a destruir as regras e instituições existentes”.

As suas ações podem resultar “num mundo moldado por acordos transacionais em vez de cooperação baseada em princípios”, afirma o documento.

Os críticos temem que as políticas de Trump “abram caminho para um mundo que privilegia os ricos e poderosos e não a grande maioria das pessoas que depositaram as suas esperanças em mudanças transformadoras”, segundo o relatório.

JD Vance deu o mote às políticas demolidoras da segunda administração Trump com o seu discurso na Conferência de Segurança de Munique há um ano foto Leah Millis/Reuters
JD Vance deu o mote às políticas demolidoras da segunda administração Trump com o seu discurso na Conferência de Segurança de Munique há um ano foto Leah Millis/Reuters

Inquéritos de opinião pública realizados para a produção do relatório mostram que grande parte do mundo já teme que isso esteja a acontecer.

As sondagens revelam um ceticismo generalizado quanto à capacidade dos governos de realmente resolverem problemas como a crise da habitação, o aumento das desigualdades, a diminuição da mobilidade social ascendente e a estagnação ou queda dos padrões de vida.

Há “uma crescente sensação de impotência e desespero individual e coletivo”, afirma o relatório.

Em França, 60% dos entrevistados disseram que as políticas dos seus governos deixarão as gerações futuras em pior situação, bem como 53% no Reino Unido e 51% na Alemanha. Nos EUA, esse número foi de 45%.

E os inquéritos atribuem a maior parte da culpa por essa sensação de desgraça a Trump.

Questionados sobre se as políticas do presidente dos EUA são boas para o mundo, metade ou mais dos entrevistados nos EUA, no Canadá, em França, na Alemanha, em Itália, no Japão, ni Reino Unido, no Brasil e na África do Sul disseram discordar, em maior ou menor grau.

A Conferência de Segurança de Munique decorre desta sexta-feira a domingo na cidade bávara. Mais de 50 chefes de Estado e de governo são esperados, segundo o site do evento.

Trump, no entanto, não participará. Os EUA serão representados pelo seu secretário de Estado, Marco Rubio, e por mais de 50 membros do Congresso, afirmou o presidente da conferência, Wolfgang Ischinger, de acordo com a Reuters.

E.U.A.

Mais E.U.A.