Há “uma crescente sensação de impotência e desespero individual e coletivo”, sublinha ainda o relatório. Mais de 50 chefes de Estado e de governo são esperados em Munique no final da semana - Trump não é um deles
Trump é o “homem-demolidor” da ordem mundial, alertam especialistas europeus em segurança
por Brad Lendon, CNN
O mundo está a viver uma era "política de demolição" liderada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que está a pôr a próspera ordem internacional, construída ao longo de décadas, sob uma pressão sem precedentes, segundo o Relatório de Segurança de Munique 2026.
O relatório anual, divulgado antes da Conferência de Segurança de Munique, descreve Trump sem rodeios como a figura mais poderosa a desafiar as regras e instituições existentes e argumenta que a sua abordagem corre o risco de desmantelar alianças e normas de longa data.
"Mais de 80 anos após o início da sua construção, a ordem internacional pós-1945, liderada pelos EUA, está agora num processo de destruição", é apontado no relatório.
O relatório classifica Trump como um dos mais proeminentes "homens-demolidores".
No evento do ano passado, que reúne anualmente importantes autoridades de segurança e académicos, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, chocou a plateia com um discurso a criticar duramente os líderes europeus em relação à “censura” e à imigração, alegando que a ameaça ao continente vinha "de dentro".
O discurso de Vance, proferido apenas algumas semanas após o início do segundo mandato de Trump, deu o tom para um ano de turbulência, incluindo tarifas punitivas dos EUA sobre aliados europeus próximos, a ameaça de ações militares americanas para tomar o território da Gronelândia - pertencente à Dinamarca, membro da NATO - e a deferência à Rússia face à sua invasão ilegal da Ucrânia.
O relatório também classifica Trump como “o mais poderoso entre aqueles que estão a destruir as regras e instituições existentes”.
As suas ações podem resultar “num mundo moldado por acordos transacionais em vez de cooperação baseada em princípios”, afirma o documento.
Os críticos temem que as políticas de Trump “abram caminho para um mundo que privilegia os ricos e poderosos e não a grande maioria das pessoas que depositaram as suas esperanças em mudanças transformadoras”, segundo o relatório.
Inquéritos de opinião pública realizados para a produção do relatório mostram que grande parte do mundo já teme que isso esteja a acontecer.
As sondagens revelam um ceticismo generalizado quanto à capacidade dos governos de realmente resolverem problemas como a crise da habitação, o aumento das desigualdades, a diminuição da mobilidade social ascendente e a estagnação ou queda dos padrões de vida.
Há “uma crescente sensação de impotência e desespero individual e coletivo”, afirma o relatório.
Em França, 60% dos entrevistados disseram que as políticas dos seus governos deixarão as gerações futuras em pior situação, bem como 53% no Reino Unido e 51% na Alemanha. Nos EUA, esse número foi de 45%.
E os inquéritos atribuem a maior parte da culpa por essa sensação de desgraça a Trump.
Questionados sobre se as políticas do presidente dos EUA são boas para o mundo, metade ou mais dos entrevistados nos EUA, no Canadá, em França, na Alemanha, em Itália, no Japão, ni Reino Unido, no Brasil e na África do Sul disseram discordar, em maior ou menor grau.
A Conferência de Segurança de Munique decorre desta sexta-feira a domingo na cidade bávara. Mais de 50 chefes de Estado e de governo são esperados, segundo o site do evento.
Trump, no entanto, não participará. Os EUA serão representados pelo seu secretário de Estado, Marco Rubio, e por mais de 50 membros do Congresso, afirmou o presidente da conferência, Wolfgang Ischinger, de acordo com a Reuters.