"Custe-nos o que custar, Trump é um homem do seu tempo", mas que tempo é esse? Hoje começa um novo mundo

20 jan 2025, 07:00
Donald Trump (Evan Vucci/AP)

Já não vivemos num mundo bipolar, nem num mundo unipolar, nem sequer num mundo multipolar. O novo mandato de Donald Trump, que hoje se inaugura nos Estados Unidos, marca o fim oficial da dita ordem mundial do pós-II Guerra. E é possível que só dentro de quatro anos, quando a administração Trump 2.0 chegar ao fim, venhamos a ter a verdadeira noção deste admirável mundo novo

Quando José Filipe Pinto estudou geografia, ensinaram-lhe o famoso adágio - Deus fez o mundo, mas os holandeses fizeram a Holanda. “O que se esqueceram de mencionar foi que o livro de cheques fez os Estados Unidos da América”, adianta o especialista em Relações Internacionais e professor catedrático, à distância de “muitos anos” desde os tempos de estudante. O comentário surge a propósito de uma das mais recentes e controversas propostas feitas pelo novo presidente norte-americano, que toma posse esta segunda-feira para um segundo (e último) mandato nos EUA.

“A maior parte das pessoas esquece-se que a maior parte do território dos EUA foi comprado a outros países, designadamente Espanha, França, México e inclusivamente a Dinamarca”, adianta José Filipe Pinto. “Se a memória não me falha, a última aquisição dos EUA foi a das Ilhas Virgens, compradas precisamente à Dinamarca. E é daí que vem a visão da compra da Gronelândia de que Donald Trump tem falado - não é uma invenção, é a recuperação de uma ideia antiga, que remonta pelo menos à década de 40 do século passado, quando foi feita a primeira proposta para comprar essa ilha à Dinamarca.”

Como com inúmeras outras ameaças de Trump desde que venceu as presidenciais de novembro (e já antes disso), os analistas têm-se desdobrado em considerações e avaliações sobre o impacto que a nova administração norte-americana vai ter a nível internacional, num contexto geopolítico volátil e em rápida e constante mutação. 

No caso da Gronelândia, em particular considerando o seu PIB, há quem destaque que Trump nem sequer precisa de a comprar, pode só arrendá-la. E numa altura em que a liderança da região autónoma dinamarquesa parece estar a aproveitar a ameaça transatlântica para ver que ofertas obtém da parte de Copenhaga, a questão Gronelândia funciona como pedra-de-toque para uma discussão bem mais alargada: a segunda administração Trump marca o fim da atual ordem mundial?

“Custe-nos o que custar, Trump é um homem do seu tempo, é alguém que já percebeu que vivemos num mundo de múltiplas ordens, o que não é o mesmo que um mundo multipolar”, responde José Filipe Pinto. “Num mundo multipolar há vários centros de decisão com regras comuns, num mundo de múltiplas ordens são vários os centros de decisão e cada um tem as suas regras. E neste mundo de múltiplas ordens, Trump vai reivindicar a sua zona de influência da ordem liberal, que compete com a ordem eurasiana liderada por Vladimir Putin e com a ordem da rota da seda liderada por Xi Jinping, quando começa também a perfilar-se uma outra ordem muçulmana possivelmente liderada pela Turquia.”

Parece haver um consenso sobre a nova administração Trump vir a ser muito diferente da primeira, que se inaugurou há precisamente oito anos, quando a realidade internacional era também ela muito diferente - veja-se a situação na Ucrânia, cuja invasão total pela Rússia ocorreu dois anos após Trump abandonar a Casa Branca. E se essas diferenças são notórias em termos domésticos, a começar pelo leque de secretários e conselheiros que Trump nomeou e cuja falta de experiência é compensada pela total lealdade ao presidente, também o são no contexto internacional.

“Se a II Guerra Mundial disfuncionou o mundo eurocêntrico e deu origem a um novo paradigma e a um mundo bipolar - o mundo das metades, assente em dois tratados, o de Varsóvia e o da NATO, com duas Alemanhas - e, se quando implodiu a União Soviética, veio o unilateralismo dos EUA, um mundo unipolar, hoje temos a implosão da hegemonia americana desafiada por Pequim e Moscovo e Trump vai ter a atitude que se espera neste mundo de múltiplas ordens”, refere o especialista português. 

Que atitude é essa? A proposta de compra da Gronelândia, como a de adquirir o Canal do Panamá, aponta-nos o caminho. “É a atitude de fazer valer os interesses dos EUA enquanto potência-líder da ordem liberal - em que, acima de tudo, vamos assistir a uma conjuntura em que o valor é substituído pelo preço. Tudo se compra e tudo se vende em função dos interesses nacionais.”

Os 600 milhões de dólares de PIB anual da Gronelândia fazem com que Trump não tenha sequer de comprar a região para atingir os seus objetivos, basta arrendá-la, dizem alguns analistas Foto: EPA

Interesses à frente de valores

Quase ninguém tem dúvidas de que a nova administração Trump vai cimentar mudanças no paradigma global, embora poucos se atrevam a antever como, pelo menos para já. E não sendo de agora, é contudo provável que essas mudanças se aprofundem ainda mais a partir de hoje, defende Kiran Klaus Patel, historiador da Universidade de Munique.

"As estruturas e os mecanismos internacionais do pós-II Guerra e, mais ainda, do início do pós-Guerra Fria, têm vindo a sofrer uma erosão há já algum tempo, estamos num movimento com direção multipolar em que as regras do jogo estão e em mudança. Trump não é a única razão nem o único promotor desta mudança, mas vai aprofundar esta tendência."

Em geral, adianta o historiador alemão, "as estruturas internacionais não mudam de um dia para o outro, pelo menos sem uma rutura importante" e aquilo a que temos vindo a assistir é a "um processo lento que também regista tendências inversas". Ainda assim, Patel receia "que nos estejamos a afastar de um sistema multilateral baseado em regras, com um forte papel das organizações internacionais, para um mundo que se assemelha ao do século XIX, onde os Estados-nação, o poder bruto e os impérios desempenham um papel importante".

"O futuro está sempre em aberto e não espero uma mudança fundamental, antes uma erosão das estruturas existentes, com a política mundial a tornar-se mais transacional, situacional e disruptiva", reforça Patel. "Uma das principais tendências durante a Guerra Fria, pelo menos no mundo ocidental e, em certa medida, nas relações Leste-Oeste, foi tornar o mundo mais previsível, ser fiável nos compromissos assumidos e tentar cumprir as regras - e e é isso que está a desaparecer."

Não são só os sociólogos e historiadores que o dizem. Num artigo de opinião publicado na revista Time após a vitória do magnata tornado político, em novembro passado, o empresário Ray Dalio já antecipava mudanças na ordem mundial, incluindo o derradeiro fim dos “restos esfarrapados do sistema pós-II Guerra Mundial, criado pelos EUA e seus aliados, em que existem/existiam normas de comportamento, regras e organizações globais geralmente aceites, como a ONU, o Tribunal Penal Internacional, o Banco Mundial, etc”.

Em vez disso, antecipava aquele que é classificado como “o Steve Jobs do Investimento”, a segunda vitória de Trump abre caminho a “uma ordem mundial mais fragmentada, em que os EUA seguirão uma política de «América em primeiro lugar» com categorizações claras de aliados, inimigos e países não-alinhados, uma vez que haverá mais guerras económicas e geopolíticas e uma probabilidade de guerra militar maior do que nunca”.

Esse caminho começou a ser percorrido por vários países, incluindo os EUA, há oito anos, mas só agora começa a perfilar-se o seu rumo. “Quando Putin invadiu a Ucrânia, fê-lo para tentar definir os contornos da ordem eurasiana a Ocidente e agora os EUA vão tentar definir os limites da sua ordem quer ao nível do Ocidente, quer no Médio Oriente e no Indopacífico”, diz José Filipe Pinto, que vaticina um “mundo tripartido, ou tri-hegemónico”, em que cada uma das ditas ordens “faz a sua interpretação dos princípios e valores” que as guiam.

“Quando estive em Xangai foi quando percebi que as coisas nessa ordem não funcionam como funcionaram aqui até agora”, adianta. “O Ocidente tem quatro gerações de direitos humanos, em que a primeira não é questionável e não cabe ao Estado garanti-la, cabe ao Estado reconhecê-la, porque são direitos considerados inerentes à pessoa humana. Mas para Pequim, os direitos verdadeiramente fundamentais são os direitos de segunda geração, os direitos ao trabalho e à habitação, não o direito à liberdade de imprensa e à liberdade de expressão.”

Quando o presidente chinês, Xi Jinping, ou o homólogo russo, Vladimir Putin, surgem a acusar os EUA e o Ocidente de quererem impor a sua interpretação das cartas de princípios e direitos que serviram de farol nas últimas décadas, estão a “assumir publicamente isso mesmo”, que “cada região do mundo tem direito a fazer a sua própria interpretação dessas cartas”, diz o especialista português. 

“Os princípios e valores são como o eixo da roda, acompanham o movimento dela mas não giram. E o que vai acontecer é que Trump vai substituir esta visão eurocêntrica ocidental – e onde até agora estavam princípios e valores, ele vai colocar interesses. A sua interpretação dos direitos humanos vai estar muito mais próxima da visão de Pequim e de Moscovo do que da visão ocidental. É uma daquelas situações em que lamento ter razão.”

Em termos de princípios e valores ditos universais, Trump tenderá a aproximar-se mais da Rússia de Putin e da China de Xi do que da Europa, refere José Filipe Pinto Foto: EPA

Europa numa encruzilhada

Numa primeira análise à vitória de Trump há dois meses, Victor Warhem, do Center for European Policy, ressaltava um facto que, desde então, vários especialistas têm destacado. “Ao contrário da sua primeira vitória, vista como uma falha no sistema, no contexto do progresso para um mundo mais liberal, para o fim das guerras e por aí fora, esta eleição atinge duramente a ideia de um futuro diferente”, sublinhou o analista alemão numa entrevista com a CNN. “Na verdade, a eleição de Trump desafia o próprio modelo europeu de valores, a par do seu modelo económico e do seu modelo de defesa. Está realmente tudo em jogo neste momento.”

Como jogador nato, que investe e desinveste sem pudores e que olha para a geopolítica como algo transacional, Trump sabe mover os peões desse jogo. “É perfeitamente nítido que a Europa está numa encruzilhada”, refere José Filipe Pinto, numa alusão ao título do seu mais recente livro. “A União Europeia será o grande paladino dos direitos humanos e das cartas de princípios e continuará a defender esses princípios da ordem liberal, o que vai levantar problemas com Trump, rapidamente e em primeiro lugar já com a Ucrânia, que liga à questão do gás liquefeito norte-americano.”

Com a decisão recente da Ucrânia em fechar a passagem do gás russo para a Europa, e após quase três anos de busca por fontes de energia alternativas, “a grande verdade é que interessa aos EUA esta dependência da Europa, porque o gás norte-americano é quatro vezes e meia a cinco vezes mais caro do que o russo”, exemplifica o especialista português.

Esse interesse de Trump na dependência europeia serve de pano de fundo a outras exigências, como a de querer que os Estados-membros da NATO invistam 5% do PIB em Defesa. “Esse é um processo muito mais moroso do que Trump pretende e o elemento fundamental é perceber se vamos ter essa verba como despesa ou como investimento. Se for investimento, implicará uma enorme aposta numa política comum de Defesa que implica também a existência de uma indústria militar europeia de defesa, mas não é essa a visão de Trump, Trump sabe que os EUA são os principais fornecedores do material que os membros da NATO vão precisar de comprar.” 

É aquilo que José Filipe Pinto e outros definem como uma política "economicista e protecionista" da América de hoje, que põe os europeus diante da tal encruzilhada, talvez a mais desafiante da sua história moderna, até porque “a Europa não pode prescindir do apoio dos EUA enquanto não tiver uma indústria militar de defesa, e também porque tem uma ligação histórica aos EUA”.

Tentando antever o que trará o segundo mandato de Trump, o editor diplomático da CNN Internacional partilhava há uma semana uma visão “algo esotérica”, nas suas palavras, que encontra respaldo nas análises de inúmeros especialistas, ao dizer que “os próximos quatro anos vão marcar o fim definitivo da ordem mundial pós-II Guerra”.

Neste momento, sublinhava Nic Robertson, “não sabemos para onde vamos – mas dentro de quatro anos [quando o mandato de Trump terminar], vamos saber para onde é que o mundo se encaminha”.

“Está coberto de razão e o que diz não é nada esotérico”, reage José Filipe Pinto. “Este é o fim da hegemonia americana e a Europa tem decisões a tomar. Isso vai levantar problemas com Trump? Vai. Mas vamos cortar com a administração Trump? Impossível. E vamos aproximar-nos mais das outras ordens? Sim. Agora que o mundo não é ocidental, não quer dizer que tenhamos de prescindir dos nossos princípios e valores, mas temos de aprender a lidar com todos. Dito de uma forma mais dura: não vamos apenas comprar petróleo e gás a outras democracias, vamos ser obrigados a comprar petróleo e gás a regimes ditatoriais – como, de resto, já está a acontecer com a compra de gás à Argélia e à Nigéria.”

Questionado sobre o mundo em que poderemos encontrar-nos quando esta nova administração Trump chegar ao fim, e aquilo que poderemos estar a debater dentro de quatro anos, Kiran Kalus Patel aponta para "ziliões de coisas", que representam "precisamente o motivo por que atores internacionais tentam tornar o mundo menos previsível". A esperança do historiador alemão, como o próprio adianta à CNN, "é que mais pessoas vejam o que estamos a perder se abandonarmos os velhos hábitos e que não percamos de vista as verdadeiras prioridades: abrandar as alterações climáticas e lutar por um mundo mais justo, em vez de nos limitarmos a falar de banalidades ou de questões secundárias, como estrelas porno, o canal do Panamá e as lutas entre homens egocêntricos."

E.U.A.

Mais E.U.A.