Para já "é completamente absurdo" pensar numa grande crise na aviação em Portugal, até porque há soluções trabalhadas com países fora do Médio Oriente. Ainda assim, o verão vai ser de pico e é possível que existam ajustamentos
A Europa tem “cerca de seis semanas de reservas de jet fuel” e alguns voos podem começar a ser cancelados “em breve” caso o Estreito de Ormuz não seja reaberto nos próximos tempos. O alerta foi dado pelo presidente da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, esta quinta-feira, e já fez soar alarmes.
Mas “não é caso para tanto”, explica à CNN Portugal o comandante José Correia Guedes, alertando para uma previsão “alarmista”, após a AIE afirmar que estamos perante a “maior crise energética” com que a agência já se deparou.
“Portugal tem reservas para quatro meses, a Dinamarca para seis, Itália e Alemanha para sete e França para oito”, continua, sublinhando que a Europa é neste momento responsável pela produção de 65% das suas necessidades.
Segundo o comandante, a portuguesa Galp, em Sines, é quem produz jet fuel para o território português, assegurando “cerca de 60%” das necessidades nacionais. O resto, adianta, “vamos ter de importar, nomeadamente de Espanha, que tem oito refinarias a trabalhar e neste momento exporta jet fuel”.
O economista Filipe Grilo alerta precisamente para o facto de a Europa não estar totalmente dependente das exportações do Médio Oriente.
“Nós na Europa também produzimos jet fuel, que é refinado em Espanha, aqui ao lado, que vem de petróleo que originário do Brasil, da Nigéria, dos EUA. Portanto, há outro fluxo de petróleo que depois pode ser refinado em jet fuel”, sublinha, dando exemplos de países de onde também vêm combustíveis fósseis importados por Portugal.
O próprio mercado já começou a reagir, garante o economista. Veja-se a exportação “em excesso” conduzida pela Nigéria e pelos Estados Unidos face aos valores anteriores.
“Isto significa que as companhias neste momento estão a gastar mais dinheiro em jet fuel porque estas rotas são menos eficientes do que as que tipicamente existiam no Médio Oriente. Havendo escassez temos de começar a cortar também na própria procura - aquela que é menos interessante para as empresas.”
Antecipando-se um verão em que as pessoas vão viajar bastante de avião, “é natural que haja rotas que, pelo facto de a margem não compensar, vão ser canceladas”, argumentou, justificando a decisão da companhia aérea neerlandesa KLM, que já garantiu operar menos 160 voos no próximo mês devido à eventual escassez de combustível.
Na mesma linha, Pedro Castro, especialista em aviação, critica o “achismo” e a ausência de uma “investigação profunda” com que o anúncio foi feito, apesar de reconhecer que vivemos um “momento de tensão”.
“Birol tem esta tradição de falar nos cenários de forma pessimista e frequentemente errada. Vemos alguém com achismo, sem divulgação de nenhuma investigação mais profunda, dizer que daqui a seis semanas vamos ter escassez de combustível na europa, com vários ‘se’s’.”
De acordo com a sua análise, feita em antena na CNN Portugal, a Europa engloba “600 aeroportos comerciais, 55 países e vários fornecedores de jet fuel”, pelo que é “completamente absurdo dizer que num território desta dimensão vai acontecer uma catástrofe dessa envergadura”.
As preocupações podem ser diferentes para o Reino Unido, que pode mesmo vir a ter problemas “muito sérios” de escassez de combustível, alerta José Correia Guedes, uma vez que está “muito dependente daquelas importações”.
Em Portugal, a previsão é de que, “até fins de maio, não vamos ter problemas - o problema pode, sim, surgir com o pico do verão, chegando a junho, porque há muito mais necessidades, muito mais voos”, conclui.