Um tem o "campo aberto" onde o outro quer colher "frutos". O que reserva o futuro político de Bugalho e Temido

7 jun, 07:00
Temido e Bugalho

Sebastião Bugalho e Marta Temido disputam o lugar no Parlamento Europeu no dia 9 de junho, mas o percurso político de ambos não fica por ali

Na ala mais à esquerda “uma mulher empática, com capital político colhido durante a pandemia, numa crise que exigiu uma resposta europeia”. À direita “um homem intelectualmente capaz, com preparação política, conhecimento e notoriedade”. Marta Temido e Sebastião Bugalho são duas apostas diferenciadas na corrida às eleições europeias de 9 de junho, mas com um propósito em comum: alavancar os respetivos partidos no plano eleitoral. Ou seja, “será um falhanço para o PS ou para a AD, conforme os resultados”, prevê o politólogo João Pacheco em entrevista à CNN Portugal.

Mas enquanto a candidata socialista apresenta “esta proximidade que cativa o eleitorado”, o adversário da Aliança Democrática (AD) tem um desafio maior pela frente. “Em campanha Sebastião Bugalho mostra que não tem o mesmo à-vontade a contactar com o povo na rua, falta-lhe esse perfil”, observa o especialista. Compara-o, nesse aspeto, ao cabeça de lista do Chega, que por sua vez não considera ter sido “a melhor escolha” do partido: “É quase um Tânger Corrêa de outra geração”. Apesar do seu passado diplomático, este “não é um animal político e não tem o perfil indicado para andar em campanha”, afirma, não inviabilizando, contudo, “a capacidade que pode ter para servir os interesses do Chega no exercício do seu mandato como eurodeputado”.

Mais definição política, mais reconhecimento

Mas as dificuldades de Sebastião Bugalho não passam unicamente pelas ações de campanha junto da população. O candidato possui, aliás, um handicap mais gritante, sobretudo no contexto mediático: a indefinição partidária. “Normalmente a política gosta de uma definição mais clara, pelo menos num momento em que as pessoas estejam vinculadas a uma opção”, esclarece Paula do Espírito Santo à CNN Portugal. “Talvez por isso esteja a ser mais escrutinado, no sentido de se perceber exatamente como é que ele pode transitar de uma posição de observação e de relativa independência dentro da direita, para um vínculo político em que não tem propriamente uma experiência conhecida”.

A especialista em Ciência Política e Comportamento Eleitoral defende que, “com toda a assunção que tem de ter de identidade política e partidária” no cargo em questão, e tendo em conta a responsabilidade exigida, “convém” que o cabeça de lista da AD se integre naquilo que é o projeto político do partido. “A representação partidária não significa que não possa continuar como independente, mas tem uma projeção importante enquanto cabeça de lista”, explica Paula Espírito Santo. Sugere o exemplo de Marta Temido, que se vinculou ao Partido Socialista na 23.ª reunião magna em agosto de 2021, enquanto ministra da Saúde do governo de António Costa - Sebastião Bugalho, recorde-se, não é filiado no PSD ou no CDS, embora até já tenha concorrido ao Parlamento pelos centristas. “Tem de haver um momento em que se define o posicionamento e, particularmente, o vínculo”, defende a politóloga. “E neste caso, pelo menos, devia estar vinculada a um dos partidos para poder também ter mais reconhecimento, não só do ponto de vista partidário, mas também mediático”.

"Dois ilustres conhecidos, mas esquecidos"

E depois de dia 9 de junho? O futuro político dos dois candidatos não é ainda certo, mas os dois especialistas contactados pela CNN Portugal estão de acordo num aspecto: “Vão deixar de ter a visibilidade que têm agora”. Paula do Espírito Santo serve-se do exemplo dos últimos atos eleitorais para o Parlamento Europeu (PE), porque depois da campanha a cobertura mediática altera-se significativamente. “Normalmente os eurodeputados têm uma aparição ou uma intervenção pública no quotidiano muito mais reduzida”, diz. O teste é fácil: lembra-se de quem eram os cabeças de lista nas europeias de 2019?

“Um mandato de cinco anos no PE também afasta a população dos eleitos e vice-versa, com interesses diferentes daqueles que são os mais permanentes e imediatos da população”, acrescenta João Pacheco. “É um trabalho muito escondido, muito distante, muito longínquo, invisível aos olhos da opinião pública”. Em suma, o politólogo prevê que Sebastião Bugalho e Marta Temido possam ser “dois ilustres conhecidos, mas esquecidos, como aconteceu com muitos eurodeputados”. Respondendo à pergunta anterior, Paulo Rangel foi o cabeça de lista do PSD e Pedro Marques do PS.

Segundo o especialista, os cargos europeus eram habitualmente atribuídos a senadores como uma espécie de “medalha de honra” para quem muito deu aos respetivos partidos. Ao passo que agora é cada vez menos comum. É o caso do eurodeputado socialista Pedro Marques, que no entender de João Pacheco foi muito mais reconhecido como ministro do Planeamento e das Infraestruturas no governo de António Costa, do que durante o seu mandato no Parlamento Europeu. “Aliás, passados cinco anos nem entra na escolha do próprio partido”, destaca.

E quem poderá sofrer mais com esta mudança de realidade é Sebastião Bugalho, uma vez que passará a ser “um homem político” com “menos tempo de antena nos ecrãs”. “Ainda que ele possa ocupar pontualmente um espaço de comentário, ele tinha muita exposição aos olhos dos portugueses no plano de jornalista e comentador e vai ser apagado”, diz.

"Inexperiência" vs "estatuto"

Não obstante, acredita o politólogo que o cabeça de lista da AD “tenha um futuro maior do que Marta Temido”, desde logo porque a representante socialista “já atingiu o estatuto de ter sido governante”. Na ótica de João Pacheco não há, portanto, “muito mais para ocupar na política nacional”, e Bugalho “tem o campo aberto, fruto da idade e da inexperiência”.

Já a perspetiva de Paula do Espírito Santo desvia-se um pouco no que concerne à candidata do PS: “Poderá ser uma aposta importante se ela conseguir criar depois a sua própria indústria”. Ou seja, “a integração dentro da sua família política, dentro do trabalho parlamentar no PE que vai ter de desenvolver”. A politóloga prevê ainda que “a ampliação no plano nacional também possa trazer os frutos e dividendos da sua atividade e ser um importante reforço numa carreira política que já está bastante desenvolvida”. E mais: “Pode também facilitar a vida ao PS num plano de afirmação”.

Em relação a Sebastião Bugalho, considerando o facto de este não ter um passado político, acredita que “terá muito mais necessidade de provar as suas competências políticas”. “Espera-se com alguma expectativa o que ele pode trazer de relevante, não só num plano europeu, com todas as limitações”. Limitações essas que, segundo a politóloga baseiam-se na necessidade de se “relacionar profissionalmente com a política em termos mais pragmáticos”. “Certamente será fácil fazê-lo, mas tem pela frente um percurso que terá de ser mais afirmativo e exigente, e é importante que também consiga fazer essa articulação com a política nacional dentro do possível”, conclui.  

Da Europa para o país

“Estas eleições serão mais sobre o futuro do PS e da AD do que propriamente sobre o futuro dos candidatos”, diz João Pacheco numa análise ao impacto das europeias a nível interno. O politólogo explica que neste processo eleitoral as escolhas dos dois candidatos visam “consolidar o eleitorado” e “eventualmente crescer em alguma medida”, dada a proximidade às eleições legislativas. “Ainda que seja de natureza diferente vai ter sempre esta leitura de aproximação ou de correlação com a atividade do Governo”, continua. Ou seja, se o Partido Socialista vencer estas eleições europeias “vai usar isso como um argumento de força face ao Governo da Aliança Democrática e, naturalmente, a Aliança Democrática será confrontada no seu Governo com essa fragilidade durante as eleições imediatamente subsequentes às legislativas”. Mas se o PS perder, segundo João Pacheco a derrota terá muito mais impacto para Pedro Nuno Santos do que para Marta Temido. “A continuidade do secretário-geral dentro do partido depende muito deste resultado eleitoral. Se não vencer, Pedro Nuno Santos pode sofrer uma onda interna de contestação e começar a ser-lhe exigido que saia”, diz. E embora Luís Montenegro não saia tão afetado com o resultado do dia 9 de junho, uma vez mantém o seu cargo de primeiro-ministro, está em jogo “a força que a AD pode ter depois desta eleição”.

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