opinião
Diretor executivo CNN Portugal

Alvise ganhou e vai sortear o salário de eurodeputado nas redes sociais

10 jun, 07:15
Alvise Pérez instagram

Não é título de "fake news", é promessa de um tal de Alvise Pérez que diz “perseguir corruptos, pederastas e criminosos”, prometera sortear 2,4 milhões de euros de ordenados em cinco anos em Estrasburgo se fosse eleito - e acaba de sê-lo. A sério que “as famílias políticas” moderadas estão aliviadas com os resultados de ontem?...

"Eurodeputados prevêem que a ultra-direita irá abalar a UE, mas os partidos pró-europeus mantêm a maioria", escreve o El Pais. "Os populares, os sociais-democratas, os liberais e os verdes obtêm 63% dos votos, apesar da ascensão dos eurocépticos em países como a Alemanha, a França e a Áustria." São factos. O que espanta é o alívio que estes factos precipitaram. Alívio ou negação.

Não entendo o alívio noctívago dos moderados europeus - ele mais parece um sintoma da sua ansiedade ou talvez desespero. Nem o centro derrotou a extrema-direita nem as forças moderadas vergaram as radicais. Apenas não foram derrotadas por elas. Ainda. E é neste "ainda" que cabe este balão de oxigénio que começará imediatamente a esvaziar-se em França, ao lado do hélio que esganiça na Alemanha e dos fulminantes que rebentam em Itália.  

Olhemos o exemplo de Alvise Pérez, que anda nas redes sociais a partir tudo há cinco anos sem ser muito levado a sério. Até que, ontem, foi “a surpresa da noite eleitoral” em Espanha, “fora dos meios de comunicação convencionais e de qualquer convenção política, ética, moral ou democrática”, escreve Lucía Méndez no El Mundo.

O movimento de Alvise chama-se Acabou-se a Festa e conquistou três lugares no Parlamento Europeu, com 800 mil votos, mais do que os do Podemos. O “agitador ultra” e antissistema festejou numa discoteca.

“Espanha converteu-se na festa dos criminosos, dos corruptos, mercenários, pedófilos e violadores", grita Alvise, que diz defender jovens, velhos, polícias e “os homossexuais que sofrem a homofobia das manadas estrangeiras e as mulheres que sofrem a agressão sexual dessas mesmas manadas”.

Na campanha, prometeu construir “uma macro-prisão sem piscina nem ginásio para os políticos que vivem impunemente depois de terem roubado os espanhóis”.

E prometeu “deportações maciças e imediatas dos criminosos que entraram ilegalmente em Espanha”.

E prometeu prescindir do total de 2,4 milhões de euros que, disse, receberá nos cinco anos como deputado europeu e sorteá-los todos os meses entre os seus seguidores nas redes sociais.

Portugal é dos casos em que a extrema-direita ficou aquém dos objetivos, o que provavelmente resulta de uma combinação de campanhas eficazes de Bugalho e Cotrim que fizeram tampão ao Chega e de nenhum outro candidato do Chega valer mais que meio Ventura. 

Mas, em Itália, Meloni ganhou e saiu reforçada. Na Áustria, a extrema-direita ganhou. Na Alemanha ficou em segundo. Em França, Le Pen arrasou e humilhou Macron, que dissolveu a Assembleia Nacional e convocou eleições antecipadas.

É assim que a Europa acorda, mais extrema-direita do que nunca desde que há UE, mesmo se o Parlamento Europeu ainda - ainda? - não está nas mãos nem aos pés dela.

Entre forças políticas poderosas que há anos preparam a galgada até franco-atiradores que subitamente emergem das redes sociais, o espaço político na UE desaba no preciso momento em que a Europa tem como maior desafio a segurança - militar, energética, cibernética.

A única forma de o centro não perder com o tempo o controlo político é atuar precisamente a partir da argumentação populista para poder contrariá-la. Há tráfico de mentiras nestes partidos emergentes mas há também a eficácia do "eles dizem as verdades". 

A primeira coisa a fazer é governar, governar mesmo, governar para os eleitores e não para os partidos, governar sem a infantilização das narrativas de fita de cetim que embrulham caixas vazias. Foi também isso que ontem muitos europeus disseram, que cada vez mais pessoas desistiram da moderação mas muitas mais ainda lhe querem dar uma nova hipótese.

O balão de oxigénio não são cinco anos de mandato do Parlamento Europeu. é muito menos do que isso. E todo o dinheiro que Alvise sortear será uma forma de atear fogos para queimar uma Europa que hoje vive de um entretanto num entre-lugar.     

 

Europa

Mais Europa

Patrocinados