Pronto, já podemos achar outra vez que vamos ganhar o Euro 2024 ("calma, calma"). Já agora: viram Ronaldo a falar com ele próprio?

11 jun, 23:51
Cristiano Ronaldo na vitória contra a Irlanda (José Coelho/Lusa)

Portugal regressou aos três centrais e marcou um golo por cada um deles: 3-0 à Irlanda, futebol mais alegre do que diante da Croácia mas a Irlanda é feita de outra matéria futebolística, uma matéria mais frágil. Portugal agora tem de provar que sabe ser tão forte com os fortes como é com os fracos. Até lá: Ronaldo está bem e descobrimos que ele tem uma nova e impercetível forma de automotivação. Ah, Pepe assustou e o VAR também

AS NOTAS DOS JOGADORES
 

DIOGO COSTA

(Pedro Falardo) sem nota   Participou na jogada do terceiro golo de Portugal, mas é impossível dar uma nota, positiva ou negativa, a quem pura e simplesmente quase não se viu.

(Germano Oliveira) 7  Sim, o Diogo quase não se viu e isso ótimo, é porque a bola esteve longe da nossa baliza, parabéns ao Diogo por ter assistido ao jogo num lugar tão privilegiado - e por ninguém o ter confundido com um invasor de campo merece um 6 mas sobe para 7 por causa disto: o terceiro golo começa nele, que recebeu a bola e a deu rapidamente para o Gonçalo Inácio, que deu rapidamente para o Nuno Mendes, que deu rapidamente para o Jota, o Jota foi menos rápido, atrapalhou-se, mas depois fez uma trivela muito simpática para assistir o Ronaldo, golo. 


 

PEPE

(Pedro Falardo) 8  Pregou um susto enorme quando teve de ser assistido, mas acabou por regressar a campo e ainda fazer um corte acrobático que tirou o pão da boca a um atacante irlandês. Compreende-se a substituição ao intervalo.

(Germano Oliveira) 10  Qualquer pessoa de 41 anos que corre e berra e lidera e manda e se impõe e salta e corta e passa e cabeceia e caminha e acelera e desacelera como Pepe faz, qualquer pessoa destas merece um 10: soa a condescendência, porventura é, mas é uma condescendência que advém do respeito, o respeito de querer que ele jogue sempre neste Europeu. E é respeito que até o árbitro manifestou: o final da primeira parte teve três minutos de descontos, três é o número da camisola de Pepe e foi devido a Pepe que houve esses três minutos - ele caiu aos 32', Ronaldo foi lá gritar "calma, calma" (é também um excelente conselho para quem já acha que Portugal pode ganhar o Euro depois da lição de realidade diante da Croácia), mas aos 35' Pepe regressou para correr e berrar e liderar e impor-se e saltar e cortar e passar e cabecear e caminhar e acelerar e desacelerar, 10 para ele e 0 para o susto que nos deu.


 

ANTÓNIO SILVA

(Pedro Falardo) 8  O melhor central português nesta noite, com vários cortes importantes, incluindo um que tirou o golo ao avançado irlandês. Um jogo bom para a confiança do central após uma pálida exibição frente à Croácia.

(Germano Oliveira) 7  Seguro e acrobático, aos 64 minutos cortou como pôde um lance ofensivo e, apesar de eu já não me recordar do lance, tenho uma nota no meu caderno sobre isso e portanto deve ter sido importante, 7 para o António Silva - se a única coisa que anotei sobre ele é positiva e envolve acrobacias, então dou 6+1, 6 vai ser o mínimo que hei de dar porque ninguém jogou mal e porque 5 é uma positiva muito azeda.


 

GONÇALO INÁCIO

(Pedro Falardo) 7  Mostrou alguns apontamentos duvidosos no primeiro tempo, como um atraso que quase deu golo irlandês, mas recompôs-se na segunda parte e fez um jogo seguro.

(Germano Oliveira) 6  Assustou aos 23 minutos - assustou os portugueses mas não os irlandeses, que é o que era suposto: um passe atrasado deixou um irlandês na cara de Diogo Costa mas António Silva interveio, depois as câmaras mostraram a cara do António Silva a celebrar como se de um golo se tratasse, portanto: se é para alguém ir ver a cara de alguém que seja sempre à maneira do António Silva e menos à maneira do Inácio. Quase marcou no final da primeira parte, um cabeceamento na zona do ponta de lança que foi parar a uma zona atrás da baliza.  


 

JOÃO CANCELO

(Pedro Falardo) 7  Foi dos que mais ataques realizaram na primeira parte e ocupou vários espaços em campo, inclusive no miolo do terreno. Uma exibição à sua imagem.

(Germano Oliveira) 6  Sobre a imagem do Cancelo há uma muita boa ao minuto 18, foi ele a iniciar o canto curto que resultou depois no 1-0, antes disso anotei no meu caderno que o Cancelo centrou de trivela aos 7m52s, só diz isso e mais nada, resumindo: Cancelo foi melhor hoje do que contra a Croácia mas isso foram todos.


 

DIOGO DALOT

(Pedro Falardo) 7  Sempre consistente e com boas desmarcações no corredor direito. Poderia perfeitamente ter feito um golo, mas optou por tentar assistir João Félix.

(Germano Oliveira) 6  O Dalot é dos futebolistas mais elegantes que conheço a correr com bola e a fazer aqueles vaivéns dos laterais, o Dalot joga como aquelas pessoas que se sentam sempre de costas direitas, é um homem que se sabe comportar em público - não é por acaso que o público do Manchester United o elegeu como o jogador da época. Mas este Dalot de hoje pareceu mais lento que o Dalot habitual, mais cansado, menos vibrante ainda que sempre elegante. Não devemos perder as boas maneiras mesmo quando estamos em baixo.


 

JOÃO NEVES

(Pedro Falardo) 8  Exibição segura, com vários desarmes em zonas mais adiantadas do terreno. Não deverá ser titular no Europeu, mas parece dar garantias de poder substituir com qualidade quem jogar de início. 

(Germano Oliveira) 8 Excelente jogo, sobretudo nos passes longos e em profundidade, é tão bonito o alcance de jogo de um jogador tão pequeno: já ouvi dizer que o João parece uma formiga e pareceu-me um enorme elogio, ter o João a titular não parece provável mas ter alguém como ele no banco é só mais uma prova da força e qualidade dos que estão no 11.


 

BRUNO FERNANDES

(Pedro Falardo) 8  É sempre dos melhores em campo pela seleção e hoje não foi exceção. A sua consistência vai ser chave no próximo Europeu.

(Germano Oliveira) 8  Antes de este artigo estar publicado, tínhamos um rascunho com os nomes dos jogadores titulares e por baixo de cada um deles a seguinte frase: "Jogou muito jogou muito jogou muito jogou muito jogou muito jogou muito jogou muito jogou muito jogou muito jogou muito jogou muito jogou muito jogou muito jogou muito jogou muito jogou muito jogou muito jogou muito jogou muito jogou muito". Acho que se aplica na perfeição ao Bruno, só lhe faltou o golo. 


 

JOÃO FÉLIX

(Pedro Falardo) 8   Não mostrou medo de rematar e pareceu bastante liberto durante os 45 minutos que jogou. O golo coroou uma exibição bem conseguida e que o pode alavancar para a titularidade no primeiro jogo do Euro.

(Germano Oliveira) 8 O Félix é daqueles jogadores que queremos que tenha a melhor carreira da história do futebol, que seja feliz, que marque todos os golos que sonhou, que tenha muitas assistências, que encante bancadas, que tenha o planeta rendido ao futebol dele, queremos isso porque sempre que ele pega numa bola sentimos que temos o direito de ver todo aquele talento a expressar-se, mas a questão é esta: o João não joga sozinho e tem adversários e por vezes o adversário entrega-se mais ao jogo que o João, tem mais intensidade que o João, é mais agressivo que o João. E o João tem de aprender esta lição: quando tiver tanta dedicação e entrega como tem talento, e a dedicação e a entrega são mais fáceis de trabalhar que o talento, o planeta vai mesmo render-se. Hoje: um golo lindo, várias ações ofensivas mas com passes errados, passes que sendo acertados deixavam os nossos isolados diante dos irlandeses. Por isso: este João está no caminho certo depois do João no caminho errado diante da Croácia. Precisamos de ti, João, anda.


 

RAFAEL LEÃO

(Pedro Falardo) 7  Fez o que quis do lateral direito irlandês, com fortes arrancadas de dezenas de metros. Não tiveram o seguimento desejado, mas criaram bastante perigo.

(Germano Oliveira) 6  O Leão é o jogador mais feliz do mundo quando está em progressão com bola, aquele sorriso que ele tem quando finta e remata é um acontecimento que prova que o futebol é um jogo tão bonito quanto romântico. Problema: este sorriso dele merece ser mais consequente, o Leão tem essa tendência de nos deixar num entusiasmo alucinante sempre que pega na bola, esperamos tudo dele, e depois ficamos numa desilusão resignada quando vemos todos aqueles cruzamentos ou passes ou corridas sem grandes consequências. Se ele aliar um pouco mais de inteligência à rebeldia, vamos ser muito felizes no Euro.


 

RONALDO

(Pedro Falardo) 9   Desta vez não só não atrapalhou como jogou bastante (e bem) com o resto da equipa. Os dois golos, com destaque para o primeiro, coroaram uma exibição bastante sólida.

(Germano Oliveira) 10  10 por não ter reclamado com nenhum colega de equipa (só com o árbitro, quando ficou um penálti óbvio por marcar a favor de Portugal por falta sobre o próprio Ronaldo), 10 por nos lembrar naquele primeiro golo porque é um dos melhores de sempre, 10 por nos provar no segundo golo que tem de continuar a ser titular apesar de continuarmos a duvidar se ele o deve ser, 10 por ter tentado fazer uma assistência para o Jota na segunda parte quando outrora tentaria rematar de um sítio absurdo, mas também 10 por nos lembrar nesse mesmo lance com o Jota que este Ronaldo é para finalizar e ponto, não dá para muito mais - mas também não queremos mais dele porque o que queremos já é muito. E isso é bom para todas as partes.


 

NÉLSON SEMEDO

(Pedro Falardo) 7  Mostrou-se a um bom nível, com várias desmarcações e arrancadas que causaram perigo. Parece estar em excelente forma e justifica a chamada.

(Germano Oliveira) 6  Parece mais disponível fisicamente que o Dalot e isso vale muito num fim de época, que é quando o cansaço cria um muro entre o que a cabeça quer e o corpo consegue dar, portanto: contra a Croácia deu mais ao jogo do que o Dalot, mas também não nos podemos esquecer do contexto - toda a equipa foi pior na primeira parte (a que o Dalot jogou no sábado) e melhor na segunda parte (a que o Semedo jogou no mesmo sábado); mas hoje, em que a equipa foi forte nas duas partes, o Nélson Semedo voltou a parecer melhor. Mas leva 6 como o Dalot para manter a competitividade do plantel.


 

DANILO

(Pedro Falardo) 6  Apesar de não ter comprometido, mostrou algumas dificuldades no controlo da profundidade. Terá sempre muitos problemas frente a adversários velozes.

(Germano Oliveira) 6  Falhou num 1 para 1 com um avançado irlandês que acabou por falhar diante do Diogo Costa, mas o Danilo esteve também para marcar - só tenho essas duas notas sobre ele, não fui suficientemente veloz a avaliá-lo melhor.


 

NUNO MENDES

(Pedro Falardo) 7  Pouco se viu, teve alguns bons apontamentos. O ponto mais positivo é não ter-se lesionado e podermos contar com ele para a primeira partida.

(Germano Oliveira) 9  Sublinho: o ponto mais positivo é não se ter lesionado, só não leva 10 como o Pepe porque é mais novo.


 

RÚBEN NEVES

(Pedro Falardo) 8  Entrou muitíssimo bem na segunda parte, tendo feito um grande passe longo para Cristiano Ronaldo que lhe deu a assistência para o segundo golo. 45 minutos sólidos para quem teve o seu estatuto de selecionado em causa pela opinião pública

(Germano Oliveira) 8  Fez aquela assistência perfeita para o segundo golo, um passe em profundidade semilongo - o Falardo diz que foi longo, eu digo que é mais curto mas é defeito etário, eu sou mais velho que o Pedro Falardo e por isso tenho uma noção mais curta do tempo e consequentemente do espaço. Mas resumindo: aquela assistência dá logo um 8 para o Rúben, um jogador cuja presença no Euro foi questionada e que não vai deixar de o ser por causa deste passe. Mas a ser questionado que seja desta maneira, a provar com assistências no Euro que o questionámos indevidamente - é que o Rúben dispõe dessa virtude etária que é ser cada vez melhor nestes passes ao passo que envelhece.


 

DIOGO JOTA

(Pedro Falardo) 8  Entrou muito bem no jogo e coroou a exibição com uma excelente assistência para Cristiano Ronaldo. Podemos contar com ele.

(Germano Oliveira) 8 Eu dou 8 porque o Pedro Falardo também deu e eu respeito muito a maneira como o Falardo avalia os avançados. E porque o Diogo, depois de se envolver naquela embrulhada antes do terceiro golo, saiu daquilo com uma trivela perfeita para o Ronaldo, por isso é um 8 também pela homenagem ao Quaresma.


 

MATHEUS NUNES

(Pedro Falardo) sem nota  Não apareceu vezes suficientes nos cerca de 10 minutos que jogou para poder avaliar a sua exibição.

(Germano Oliveira) sem nota  Injustiçado: não foi chamado para o Euro à primeira nem tem nota na primeira avaliação da CNN Portugal aos jogadores da seleção 😢

"Calma, calma": o melhor do jogo

por Germano Oliveira

O melhor do jogo é não ter sido a Croácia e ter sido a Irlanda o adversário - e por isso vencemos, vencer é o melhor do jogo. Mas este melhor do jogo também é o pior do jogo: entre todas as equipas que Portugal defrontou nos particulares até agora, só duas vão ao Euro e Portugal perdeu com ambas - Croácia e Eslovénia. Portanto: contra esta Irlanda tivemos o melhor Portugal, aquele que tem sido forte diante dos mais fracos. E isso não é necessariamente bom, não sendo naturalmente mau porque já houve um tempo em que nem aos piores ganhávamos - e pelo menos isso já está resolvido. Mas agora Portugal tem de ganhar diante dos seus iguais, os apurados para o Euro. Mas atenção: aquele conselho de Ronaldo quando Pepe estava caído e se temia uma lesão, "calma, calma", tem aplicação além-Pepe: não vamos ganhar o Euro por causa de hoje, tal como não o vamos perder por causa de sábado. Não podemos é ir para o Euro como na primeira parte diante da Croácia - a jogar como se a vitória fosse um direito nosso pelo qual não é preciso lutar. A vitória é uma missão em todos os jogos, procurá-la não pode ser uma chatice. Pareceu que era.

Arbitragem: o pior do jogo

por Pedro Falardo

É bastante triste que, num jogo amigável, sem qualquer tipo de pressão, a equipa de arbitragem tenha cometido três grandes erros. Ficaram dois penáltis por assinalar sobre Cristiano Ronaldo, um em cada parte. Mais escandalosa é a intervenção do VAR no lance de uma falta sobre Diogo Jota. Chris Kavanagh assinalou livre, foi ao VAR ver se era penálti, concluiu que não e acabou a anular a marcação da falta. Não pode fazer isso e tem muita sorte por isto não ter acontecido num dos jogos que habitualmente apita na Premier League.

O monólogo de Ronaldo: o momento do jogo

por Pedro Falardo

Antes do livre que bateu na primeira parte, Cristiano Ronaldo foi filmado a falar sozinho durante longos segundos. Não conseguimos perceber o que disse uma vez que a leitura labial não é a nossa especialidade, mas não deixa de ser um gesto curioso e raramente visto no maior jogador da seleção nacional.

A Irlanda não ter levado mais: a surpresa do jogo

por Germano Oliveira

Vencer 3-0 a Irlanda é uma questão de respeito pela nossa história, de respeito por aquele 3-0 à Irlanda em que consumámos a ida ao Euro 1996 depois do trauma das fases finais falhadas de 1986 em diante, mas há que tirar outra lição menos académica: Portugal fez 22 remates neste jogo contra cinco, teve 71% de posse de bola; até ao minuto 31 só fez uma falta e no total acabou com quatro enquanto a Irlanda fez 11. É tudo muito mansinho e no Euro a agressividade dos adversários vai ser outra, há grande probabilidade de o domínio de jogo ser mais repartido ou menos expressivo que 71% de posse, por isso: três golos em 22 remates são uma estatística eficaz para mostrar a ineficácia que não podemos ter daqui em diante.

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