Com o apoio do St. Pauli, a equipa foi fundada em 2014 e tem o nome da ilha siciliana que é uma das principais portas de entrada de migrantes da Europa e onde milhares perderam a vida. Um lugar onde a «etnia, religião, orientação sexual ou habilidade» não importam e onde «não são necessários documentos».
É, provavelmente, o segredo mais bem guardado da cidade: FC Lampedusa Hamburgo.
Sob o lema «estamos aqui para jogar, estamos aqui para ficar», clube foi fundado em março de 2014 pouco antes da crise de refugiados na Europa. O nome da equipa não foi escolhido ao acaso: é o mesmo da ilha siciliana, uma das principais portas de entrada de migrantes na Europa e onde milhares perderam a vida.
Caminhamos junto ao estádio do St. Pauli, clube sui generis e que defende várias causas sociais, visitamos a loja do clube e perguntamos pelo FC Lampedusa. «Não sei», foi a resposta que escutamos. Insistimos, mas não temos sorte.
Agradecemos e assim que saímos, deparamo-nos com um autocarro da GoBanyo, associação social sem fins lucrativos que permite aos sem-abrigos terem acesso a instalações sanitárias dignas. O veículo está estacionado às portas do estádio Millerntor, junto ao qual é possível contar pelos dedos das duas mãos as pessoas que ali pernoitam.
Pedem-nos para que não façamos registos fotográficos. Quando perguntamos sobre o FC Lampedusa Hamburgo, há um indíviduo, que está junto ao autocarro, que explica que o clube nasceu depois de as pessoas que chegaram à Alemanha, oriundas da Líbia, em inícios de 2014 terem ficado na rua.
Inicialmente as autoridades alemãs em Hamburgo criam um programa de emergência para que os migrantes passassem o inverno. No entanto, o fim do programa devolve essas pessoas, cerca de 80, à rua. O bairro de St. Pauli não deixa este gente sozinha: oferece-lhe ajuda e um refúgio, neste caso, uma igreja.
E no meio da necessidade, nasce o FC Lampedusa, contou-nos. Faz questão de frisar que não esteve envolvido na fundação do clube e que o melhor seria perguntarmos a alguém do clube. Fizemo-lo durante dias seguidos, mas sem sucesso. A Fanladen, organização de adeptos independente ao clube, St. Pauli, também não é solução: está fechada até agosto.
A única referência ao FC Lampedusa que encontramos é um autocolante num pilar junto ao estádio.
De lá à rua Reeperbahn, red-light district de Hamburgo, são cerca de 15 minutos a pé. Percorremos o trajeto e nessa avenida, famosa pela diversão noturna, visitamos outra loja do St. Pauli. Explicamos o propóstio da visita e com alguma dificuldade (a credencial à vista não ajuda), a funcionária, simpática, dá-nos mais algumas pistas.
Descobrimos que o clube tem cinco treinadoras (algumas das quais foram as fundadoras) e que apesar de não ser profissional nem competir, tem treinos regularmente e de quando em vez participa em torneios. O único intuito do FC Lampedusa é receber as pessoas através do futebol, lembrar-nos que nenhum ser humano é ilegal e alertar a população da cidade, da Alemanha e do resto da Europa para crise migratória.
«O FC Lampedusa St. Pauli é para refugiados e migrantes independentemente da nacionalidade, etnia, religião, orientação sexual ou habilidade. Não são necessários documentos», lê-se na página oficial do clube que nos é gentilmente indicada pela funcionária.
A loja apresenta um movimento incaracterístico para uma manhã de quinta-feira e acabamos por sair. Descemos a avenida e interrompemos o passo num café que tem a esplanada bem-composta. «Uma das treinadoras tinha por aqui uma loja e vendia artigos do clube, mas já não sei se ainda existe», alerta-nos um sujeito com cerca de 50 anos.
Continuamos a descer a avenida. Há luzes neón, sítios com aspeto pouco recomendável, anúncios de prostituição, e nenhum sinal a tal loja. Fazemos o percurso do lado oposto da rua e não encontramos a tal loja. Ainda damos uma caminhada em várias das ruas perpendiculares, mas o resultado é o mesmo.
Conformados, sentamo-nos depois de mais de uma hora a andar, a espreitar para cada estabelecimento comercial. Desistimos de procurar, mas não de contar a história deste clube ímpar.
Os migrantes que chegam a Hamburgo, com mais de 16 anos, podem ser membros do FC Lampedusa. Não precisam de documentos muito menos de saber quanto tempo vão ficar - muitos acabam por ser deportados.
Através do futebol, o clube pretende tornar o futebol aberto a quem quer que seja porque todos têm o direito de jogar onde quer que entendam. Este é, ao mesmo tempo, um espaço de partilha, no qual cada um pode partilhar a sua história e saber quais os direitos que têm como refugiados.
O FC Lampedusa é um clube de resistência como o seu próprio símbolo ilustra. Formado por âncora, em referência ao porto da cidade, por um braço com punho fechado (sinal de luta), uma seta a apontar para a esquerda (posição política) e uma bola com o lema «aqui para jogar».
Para jogar e para ficar, acrescentamos.