Acaba de aparecer informação nova sobre os jogadores de Portugal

5 jul, 07:00
Portugal

O país dividiu-se alegadamente entre os bons que defendem Ronaldo e os maus que o criticam. Outra parte do país, mais pequena, debate os privilégios de Bruno e Bernardo, que supostamente - ou objetivamente - estão abaixo do esperado mas depois jogam sempre. Só que acaba de aparecer informação nova sobre os três jogadores da seleção com maior estatuto - e sobre os outros também. Vem aí o Portugal-França, é para ver às 20:00 na TVI

Fazer considerações sobre o Ronaldo tornou-se um ato de consequências imprevisíveis, "vê se lavas essa boca porca antes sequer de tocares no nome do Rei", escreveu-me um anónimo via Facebook Messenger que não apreciou um texto que eu fiz sobre o monarca dele: fiquei imediatamente impressionado com o R maiúsculo no "Rei", mesmo no insulto temos de manter o respeito pelas instituições, e o resto da mensagem anónima provou-se muito bem escrita e devidamente pontuada, daqui em diante só admito ofensas com esta generosidade gramatical; "comuna imundo", acrescentava o monárquico autor da mensagem-ameaça, aí fiquei ideologicamente intrigado por haver esse pressuposto implícito de que chamar comunista a alguém é uma injúria e por se achar ainda que os comunistas têm hábitos frágeis de higiene; a pessoa que enviou esta mensagem insultou depois a minha progenitora, aí supus que ele já só estava cansado e que consequentemente não podia recorrer à imaginação com o mesmo vigor, mas chamou-me entretanto "porco" e aí agradeci que ele tivesse arrebitado de novo, é que Porco é precisamente uma personagem do "2666", livro bíblico do Roberto Bolaño que ando a ler entre os jogos do Euro 2024 - fiquei fascinado com a coincidência, afinal o Porco do "2666" ajuda um grupo de intelectuais a encontrar o seu caminho e pareceu-me que o meu homem do Facebook tinha acabado de me ajudar a encontrar o meu rumo: decidi devido àquela mensagem no Messenger que tinha de esventrar estatisticamente a seleção de Portugal e que precisava de ter números e percentagens para usar nesta minha boca cuja saúde oral o meu anónimo não estima. Estar a favor ou contra Ronaldo tornou-se uma luta de bons contra os maus (cada bom que decida quem é o mau e vice-versa) e os factos estatísticos são uma boa arma para juntar a toda esta emoção de quem menospreza ou enaltece o Rei - e precisamos também de proceder estatisticamente da mesma maneira para os demais 25 que constituem a corte dos eleitos de Roberto Martínez, afinal também existe essa discussão paralela sobre os privilégios do Bruno Fernandes e do Bernardo Silva.

Um dia depois da mensagem do anónimo do Facebook recebo outro contacto, mas desta vez de um republicano identificado que não me considera sujo - e que não manifestou interesse na minha orientação política: "Caso não saiba, o Ronaldo, se tivesse marcado em vez de passar a bola ao Bruno Fernandes contra a Turquia, seria o jogador mais velho de sempre a marcar num Euro - parece que afinal ele pensa mais na equipa que nos seus recordes pessoais". O republicano assume depois que as pessoas ficaram "admiradas", é o termo dele, ficaram admiradas porque o Ronaldo podia ter feito golo mas mesmo assim decidiu passar a bola - contrapus que eu ficaria admirado era se o Ronaldo não passasse a bola, a probabilidade de ele falhar era maior que a do Bruno, mas a discussão sobre este passe abre o debate para um plano mais amplo: afinal Ronaldo passa muito, passa pouco, passa nada, passa o quê?, passa-se que Ronaldo, como se pode ver no gráfico ali em cima, é o jogador da seleção que faz menos passes a cada 10 minutos de jogo neste Euro - João Félix, por exemplo, fez mais passes em 90 minutos que Ronaldo em 366; Rafael Leão, que tem metade do tempo de jogo de Ronaldo, também tem mais passes que o Rei; Mbappé, o rei francês - mas sem R maiúsculo, porque caso contrário o anónimo do Facebook ainda manda seus cavaleiros fazerem-me mal -, dizia eu que Mbappé faz cinco passes a cada 10 minutos de jogo, mais do dobro dos de Ronaldo (2), há reis que dão mais e outros que dão menos a seus súditos.

Gonçalo Inácio, que já tem mais tempo de jogo que Jota e Félix e Nélson Semedo e Rúben Neves e Gonçalo Ramos e outros, é o príncipe da distribuição de bola, 12 passes a cada dez minutos, ligeiramente acima do titularíssimo Rúben Dias e do titularinho Vitinha. Bernardo Silva e João Palhinha têm números semelhantes nos passes feitos a cada 10 minutos mas Bernardo falha menos, Bruno passa mais do que Bernardo mas também falha mais, Vitinha é o médio com mais eficácia no passe, Nélson Semedo não falhou nenhum dos passes que fez nos 50 minutos que jogou. E depois Diogo Costa já fez quase tantos passes quanto Palhinha e tem mais passes feitos que Ronaldo e Rafael Leão, o que diz muito sobre a maneira como Portugal tem posse - bem longe da baliza adversária, não fazemos golos há mais de 200 minutos e dos cinco golos que temos dois são autogolos (a França é muito semelhante nisto, o Rei português e o rei francês já não vivem no absolutismo). E esse argumento de que jogamos longe da baliza adversária pode servir para justificar que é por isso mesmo que Ronaldo passa tão pouco, afinal a bola não lhe chega, mas já dissemos que Rafael Leão, que joga no mesmo terço de relvado de Ronaldo, tem mais passes que o Rei tendo menos tempo em campo - Danilo tem também mais passes em 90 minutos que Ronaldo em 366. Além disso: Ronaldo vagueia bastante naquele último terço, o que muitas vezes deixa a equipa sem referências na área - o nosso Rei gosta de descer do castelo e isso nem sempre favorece a corte. Por outro lado: quando a bola chega a Ronaldo não há mesmo distribuição para ninguém, se a bola vai ao Rei é para ficar à mercê do Rei, o Rei existe para governar os remates, ninguém no Euro rematou tanto como Ronaldo.

A maioria dos remates de Ronaldo não sai enquadrada com a baliza, dois em cada três vão por cima ou ao lado ou lá para ondes eles vão, nisso o capitão é o terceiro pior da seleção, João Félix é o segundo pior (mas jogou muito menos) e o pior é mesmo Bruno Fernandes. Mas ter 20 remates numa seleção que tem pavor de rematar de longe distância, que esteve sem rematar entre o minuto 70 e o minuto 89 no jogo contra a Eslovénia, que entre rematar ou fazer mais um passe cai na tentação errada, que não marca nos 90 minutos com a Geórgia nem nos 120 com a Eslovénia e que precisou de um autogolo para vencer a Chéquia, nestas condições faz bem ter alguém que remata 20 vezes porque é alguém que puxa a seleção para o sítio certo, que é para junto do golo, e nisso Ronaldo não tem semelhante nem na seleção nem no Euro inteiro, os dois mais próximos são o soberano Mbappé e o visconde Havertz, ambos com 15 remates - um deles joga contra Portugal já esta sexta, o outro pode jogar para a semana se o Rei superar o rei.

E depois há o marquês de Palhinha, que tem tantos remates como Bernardo Silva - os do médio defensivo saem mais vezes enquadrados que os do avançado mas Bernardo tem um golo, compensa simpaticamente com isso -, mas o marquês é dono de outras posses valiosas: tem mais remates que Rafael Leão e que Diogo Jota e que João Félix, só menos um que Vitinha e menos dois que Bruno, tem tantos quantos os de Francisco Conceição. Palhinha é o cérebro silencioso da seleção mas também o intelectual sagaz que sabe sujar as mãos nas obras ofensivas e esfarrapar os calções nas manobras defensivas, é o jogador com mais tackles da seleção e o segundo que recuperou mais bolas - e convém lembrar que o marquês tem estes números sem ter jogado contra a Chéquia e depois de ter sido substituído ao intervalo contra a Turquia e contra a Geórgia. Respeitem o marquês de Palhão mas também o príncipe Pepe, superlíder da recuperação de bola e tutor de Francisco Conceição - que tem quatro recuperações em 135 minutos de jogo, Ronaldo tem 0 em 366.

Onde o Marquês de Palhão é menos vibrante é ao nível do drible, pior do que ele nisso só Pepe e Rúben Dias, mas do marquês não se espera esses artifícios porque a única obrigação que tem é a do ordenamento do território defensivo; o marquês já foi bem além dos seus deveres ao mostrar que sabe ir lá à frente rematar - e, mais do que isso, rematar enquadrado, que é um talento escasso no reino português, um reino de caçadores desacertados. Portanto: é ao barão Rafael Leão, o mais alegre em progressão com bola no Palácio Martínez, que se pede o desequilíbrio do drible, é dele que se espera a finta fulminante, é com ele que queremos ir ao baile dos cruzamentos e das acelerações selvagens e nisso o barão tem estado à altura das suas responsabilidades: 22 dribles neste Euro, tantos quantos os do rei Mbappé - só Yamal, Kvaratskhelia (eliminado), Musiala e Doku (eliminado) têm mais. 

Lorde Cancelo é o segundo melhor da seleção no drible e o oitavo do Euro, a segunda parte de Cancelo contra a Eslovénia foi do mais luminoso que Portugal fez: às vezes falta-nos mais Cancelo-bom porque há algo que se partiu em Cancelo-jogador desde a saída do City, mas este Cancelo da segunda parte da Eslovénia é Cancelo-do-melhor. Outro ponto mas este além-Cancelo: quando se faz a relação entre o tempo de jogo e os dribles, sir Francisco Conceição sai-se bastante bem, faz quatro a cada 45 minutos, quase nos 5 do barão Leão; Ronaldo está na cauda, tal como Bruno e Bernardo - Dalot, Gonçalo Inácio, Danilo, Nuno Mendes, Jota, Neto e João Félix, por exemplo, têm mais dribles do que os três jogadores da seleção com mais estatuto. Mas conde Bruno compensa de outra maneira - se Ronaldo não tem medo de rematar, Bruno não tem medo de cruzar.

O reino de Portugal é bastante peculiar: conde Bruno e conde Vitinha, dois médios, cruzam mais que os laterais e os extremos Francisco, Neto, Rafael, Cancelo e Nuno Mendes - e Bruno cruza mesmo muito, 21 cruzamentos para oito de Nuno Mendes ou nove de Cancelo. Contra a Eslovénia viu-se muito deste conde Bruno, sobretudo nos primeiros 20 minutos, com cruzamentos picantes para o coração da área, que é um atrevimento que nem sempre acontece no caso da seleção portuguesa: por norma, dois em cada cruzamentos não vão ter nem à cabeça nem aos pés nem a qualquer parte do corpo dos nobres portugueses e há essa curiosidade de ser um central, Rubén Dias, a liderar a eficácia nos cruzamentos (mas também só fez três, que são poucos em abstrato mas são muitos para um central); entre os que cruzaram mais, Cancelo e Neto são os mais eficazes, os piores são dois jogadores com tempo de jogo muito diferente: Bernardo, Nuno Mendes e Rúben Neves fizeram oito cruzamentos cada um e só acertaram uma vez num fidalgo português, parece que esta nossa nobreza não gosta de cruzar linhagens - mas alguma dela adora correr.

Em termos absolutos, Bernardo, Bruno e Ronaldo são os três que acumulam mais quilómetros, o que não causa espanto na corte porque são também cinco dos que dançaram em mais bailes neste Euro (Diogo Costa é o único totalista, Rúben Dias jogou menos do que Diogo e Ronaldo e mais do que Bruno e Bernardo). Quando avaliamos os metros percorridos por cada minuto jogado, aí há matéria para alvoroço nos salões: Matheus Nunes, Nélson Semedo, Diogo Jota, Rúben Neves, João Neves e Francisco Conceição são os que percorrem mais metros por cada minuto de jogo, o que diz bastante sobre o tamanho da motivação que levam para dentro de campo sempre que a oportunidade surge, mas também diz bastante sobre como o imperador Martínez desaproveitou essa atitude de seus súditos quando só fez duas substituições até ao minuto 115 do jogo com a Eslovénia - a questão é saber se o imperador tem fé no seu banco, é sabido que portugueses que tiveram fé em determinados bancos deram-se mal, mas um banco com João Félix, Gonçalo Ramos, Matheus Nunes e João Neves, por exemplo, parece bastante sólido. 

Um ponto a favor da gestão do reino: o descanso que o imperador Roberto Martínez deu a Bruno e Bernardo compensa e bem a meia hora de desgaste adicional frente à Eslovénia: Bernardo é o 54.º jogador com mais quilómetros no Euro, Bruno o 66.º; Kroos, por exemplo, não tem nenhum prolongamento nas pernas mas tem mais 50 minutos de jogo do que Bernardo e fez mais 3,5 quilómetros (42,8 no total).  Bernardo tem à sua frente quatro franceses com mais quilómetros (Koundé, Kanté, Upamecano e T. Hernández, todos também com mais minutos de jogo do que Bernardo sem terem feito qualquer prolongamento), Bruno tem seis  franceses à frente - os quatro de Bernardo e ainda Rabiot (suspenso contra Portugal) e Saliba.

Mais informação sobre os nossos condes e viscondes maratonistas: entre os que têm um tempo de jogo superior, Bernardo Silva, Vitinha e Bruno Fernandes são dos que fazem mais metros por minuto, bem acima de Rafael Leão - o jogador de campo que percorre menos distância a cada 60 segundos -, de Ronaldo - o segundo com menos distância - e de Nuno Mendes, o terceiro. Mas quando se trata de correr atrás dos inimigos do reino ou sobretudo de pôr os inimigos do reino a correr atrás de nós, é Rafael Leão e ainda Nuno Mendes que o imperador chama para tratar desse assunto rapidamente.

Rafael Leão, Dalot e Nuno Mendes são os nobres portugueses mais rápidos, com Rafael Leão a ser o oitavo mais veloz do Euro e Dalot e Nuno Mendes os décimos, sendo que Ronaldo está na posição 141 - e este dado, somado ao facto de Ronaldo ser dos jogadores que fazem menos metros por minuto, sendo dos que passam menos e sendo dos que recuperam menos a bola, explica a necessidade de um reajuste no posicionamento e nas movimentações do Rei: é mais valioso para a equipa tê-lo mais próximo da área como referência para receber jogo ofensivo mas também para abrir espaços - os dados mostram factualmente que a disponibilidade física coloca Ronaldo a jogar a um ritmo inferior ao de grande parte da equipa, o que o desliga dela. O rei mexe-se menos, corre mais devagar, retém muita bola, dá pouco ao jogo coletivo mas é o único sem medo de rematar: 20 vezes neste Euro, número 1 de Portugal e de todas as seleções, ninguém remata tanto, agora é só estar mais próximo da baliza para rematar mais perto dela - dentro da área não é preciso ser veloz, é preciso é ser inteligente e sacana com os adversários, há que comê-los ali dentro agora que eles pensem que o Rei está frágil. Mas o nosso Rei está como os céus da cidade do Porco no "2666" do Bolaño - está uma flor carnívora.

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