Uma mudança há de certeza, a outra é Ronaldo que decide (não é Martínez que manda): o 11 de Portugal para o Mundial de 2026

10 jul, 07:00
Cristiano Ronaldo (AP Photo/Ebrahim Noroozi)

ANÁLISE || O Euro 2024 já é passado para a seleção, o futuro é amanhã - 2026 chega num instante. Há poucos pontos de interrogação quanto a quem deve ser titular no caso de apuramento de Portugal para o Mundial que aí vem. Mas por vezes não é preciso haver muitas dúvidas para haver muitos problemas associados - neste caso basta uma só dúvida

Estamos a adiantar-nos um pouco. Afinal de contas, Portugal ainda não se qualificou para o Mundial 2026, nem a qualificação para esta prova começou. Mas não sejamos modestos: Portugal vai a todas as competições internacionais desde 2000 e tem uma das melhores seleções do mundo. É quase obrigação estar presente no Mundial norte-americano daqui a dois anos, daí escrevermos este texto. Olhando para o panorama geral, será difícil haver grandes alterações no 11 base que a seleção apresentou durante a maioria dos jogos do Europeu que ainda decorre na Alemanha. No entanto, há algumas mudanças que vão certamente acontecer. Para este texto, assumimos que a seleção jogaria num 4-3-3.

 

GUARDA-REDES: DIOGO COSTA INTOCÁVEL
Esta é uma das posições que já estão atribuídas dois anos antes. Será preciso dar frango atrás de frango ou uma lesão para que Diogo Costa não retenha a titularidade que ganhou há um par de anos. É, de longe, o melhor guarda-redes português da atualidade - e se as prestações no Mundial do Catar fizeram alguns questionar as suas capacidades, as performances neste Europeu, em que foi um dos melhores da seleção, dissiparam qualquer dúvida sobre quem é que deve ser o titular.

Os dois restantes lugares é que estão em disputa. Para já, a titularidade e exibições consistentes no Wolverhampton garantem firmemente a José Sá o estatuto de número 2 da baliza portuguesa. O terceiro guarda-redes neste Europeu e herói do Euro 2016, Rui Patrício, vai quase garantidamente sair das opções da seleção: chegará ao Mundial 2026 com 38 anos e não se avizinha um regresso à titularidade num clube grande, depois de perder esse estatuto esta época para Mile Svilar na Roma.

Para esse terceiro guara-redes há vários candidatos possíveis. Rui Silva, já convocado no Euro 2020, e Luís Maximiano, que fez uma boa época no Almería apesar da descida de divisão, são, para já, os mais fortes candidatos. No entanto, há mais opções. Com 25 anos, tanto Ricardo Velho, do Farense, e Dani Figueira, do Estoril, destacaram-se este ano pelas suas exibições na Liga e uma transferência para um clube ou liga mais importante pode conferir-lhes um novo estatuto. Há também a possibilidade de um jovem guarda-redes dar o salto entretanto. André Gomes, do Benfica, e Diogo Pinto, guarda-redes que foi titular do Sporting na final da Taça de Portugal, são os nomes que vêm à cabeça. Também Gonçalo Ribeiro, do FC Porto, pode vir a destacar-se num futuro próximo, mas, com Diogo Costa naquela baliza, terá necessariamente de ser emprestado para ganhar mais minutos.

LATERAL DIREITO: CANCELO OU DALOT
O talento não escasseia para esta posição. João Cancelo e Diogo Dalot foram dividindo a titularidade nos últimos anos e Nélson Semedo, convocado para Euro 2024, continua a ser escolha regular para a seleção. No entanto, há alternativas válidas caso um ou vários destes jogadores não possam ser convocados ou baixem de rendimento. Tiago Santos, do Lille, e João Mário, do FC Porto, estão prontos a reclamar o seu lugar numa convocatória. Não se pode também descartar o regresso de Ricardo Pereira. Após um período de muitas lesões, o lateral voltou a ter uma época consistente no Leicester e competirá este ano na Premier League.

DEFESA CENTRAL: RÚBEN + INÁCIO (QUE TOMA O LUGAR DE PEPE)
É aqui que está uma das duas grandes dúvidas. Um dos lugares será obrigatoriamente ocupado por Rúben Dias, mas, com a saída de Pepe, abre-se uma vaga e há vários candidatos disponíveis. Para já, Gonçalo Inácio e António Silva são os principais nomes falados. Sofia Oliveira, comentadora de desporto da CNN Portugal, afirma que o central do Sporting está mais “confortável” para assumir esse lugar e explica porquê.

“O Gonçalo Inácio está inserido num ótimo coletivo. Está inserido, inclusive, num coletivo que o protege, porque o facto de [o Sporting] jogar com três centrais pode proteger algumas lacunas que ele tem no que diz respeito ao seu foco e à sua velocidade”, afirma. “O Gonçalo Inácio está muito bem protegido e é bem treinado”. Ainda assim, afirma que o jogador do Sporting “requer mais especificidades” que António Silva, um jogador “mais agressivo e que vai mais ao duelo”.

Sobre o central do Benfica, Sofia Oliveira afirma que o jogador “não está com o melhor treinador para evoluir” e veio de um contexto “muito adverso” no Benfica de 2023/24, uma equipa “com pouco sentido coletivo” e “sempre à procura de rasgos individuais”. “Jogadores como o António Silva ou como o João Neves não estão a crescer o que podiam se estivessem integrados num contexto mais favorável”, concluiu.

Quanto às restantes alternativas, Roberto Martínez já convocou Toti Gomes, do Wolverhampton, por várias vezes e é apreciador das suas características. Caso subam de rendimento, também Diogo Leite, do Union Berlin, e Eduardo Quaresma, que finalmente teve um tempo de jogo razoável no Sporting, podem aparecer no radar do selecionador.

LATERAL ESQUERDO: ISTO É DO MENDES
As exibições de Nuno Mendes cimentaram o seu estatuto de indiscutível do lado esquerdo da defesa portuguesa. O seu substituto, Raphael Guerreiro, também parece continuar a ter o seu lugar assegurado numa convocatória. Porém, dada a propensão de ambos para os problemas físicos, é necessário ter sempre em conta uma alternativa. Neste caso, Nuno Santos, indiscutível no Sporting de Rúben Amorim, surge como a principal alternativa.

MÉDIO DEFENSIVO: ATENÇÃO A RENATO VEIGA (MAS O TITULAR NÃO É ELE)
Se tudo correr como o esperado, ninguém afastará João Palhinha da titularidade, uma vez que não tem um substituto possível capaz de fazer o que ele faz. João Neves aparece como o segundo convocável, pelo que fez e continua a fazer no Benfica. É necessário perceber se Danilo Pereira, que terá 34 anos em 2026, e Rúben Neves, que não deu bons sinais no pouco tempo que jogou no Europeu, vão continuar a ser opções. Não sendo, há alguns jogadores que, evoluindo, podem conquistar um lugar, como Florentino Luís, do Benfica, Renato Veiga, ainda do Basileia mas a caminho do Chelsea.

MÉDIO CENTRO: O MELHOR PORTUGUÊS DA ATUALIDADE + BRUNO

Um dos melhores da seleção no Euro 2024 e, quanto a mim, o melhor jogador português da atualidade, Vitinha conquistou lugar cativo no meio-campo da seleção. Até 2026 também será muito difícil desalojar Bruno Fernandes desta posição. Há que perceber se Roberto Martínez também tem planos para começar a utilizar Bernardo Silva no miolo do terreno, onde se sente mais confortável. Fora deste lote, destacamos Matheus Nunes, André Almeida, do Valência, e também Renato Sanches. Não tiramos este último de fora do nosso radar pois o talento está lá e ainda só tem 26 anos. Será preciso, porém, que não esteja sempre lesionado.

EXTREMO DIREITO: BERNARDO PELA TEIMOSIA, NETO OU XICO PELA LÓGICA
Bernardo Silva é a opção de Martínez para esta posição dado que o espanhol não quer prescindir das qualidades do jogador do Manchester City, mas Bernardo, encostado à direita, parece não render aquilo que rende em Inglaterra e no centro do terreno. Caso decida colocar o médio numa zona mais central, não há grandes preocupações com um possível substituto. Pedro Neto e Francisco Conceição já deram provas ao mais alto nível, e Francisco Trincão, acreditamos, não teria dificuldades em assumir um lugar na seleção.

EXTREMO ESQUERDO: É DO LEÃO
Rafael Leão é dono e senhor da posição, mas, tal como em muitas outras zonas do campo, opções não faltam. Diogo Jota é o outro nome mais sonante e também pode jogar no centro do ataque, embora não seja o seu local preferido. Ricardo Horta e um renovado Gonçalo Guedes também podem pensar em ser convocados, embora achemos mais difícil, especialmente no caso deste último.

PONTA DE LANÇA: POIS

É uma questão que provoca sempre desconforto. Já aqui escrevi sobre como foi penoso e aflitivo ver Cristiano Ronaldo neste Euro 2024, tal como o tinha sido, embora mais discretamente, no Mundial 2022. Porém, aqui não temos de perguntar a Roberto Martínez aquilo que vai decidir quanto ao avançado - pois não é Martínez quem manda. Cristiano Ronaldo só não será titular no Mundial 2026 se não quiser, independentemente da qualidade que oferece ao jogo ou da forma. Terá de ser o capitão da seleção nacional a dar o primeiro passo para abdicar do seu estatuto e perceber que, sim, até pode ter lugar na seleção, mas não no atual papel de titular indiscutível. As indicações deste Europeu não são, no entanto, as melhores, olhando para a forma como canibalizou a marcação de livres diretos, parecendo não ter qualquer noção de que já não estamos em 2006 ou 2007.

“Faz-me um bocadinho de confusão que as pessoas que gostam de Cristiano Ronaldo prefiram que a sua carreira esteja a terminar desta forma e que ele mantenha a titularidade. Acho que gostar de um jogador é também querer a protegê-lo, querer que ele termine bem”, diz Sofia Oliveira. “Ronaldo deveria, obviamente, ajustar o seu estatuto à sua condição atual. Beneficiaria até, na minha opinião, de ser muitas vezes utilizado a partir do banco, porque entraria numa fase de encontro em que provavelmente os próprios adversários estão mais desgastados e a seleção está a arriscar mais”.

“É bizarro pensar, e com o Europeu torna-se ainda mais estranho, que poderemos encarar o Mundial com o Cristiano Ronaldo a titular e a disputar todos os minutos”, conclui a comentadora, que também sublinha que a decisão de Ronaldo ser ou não titular não está nas mãos de Roberto Martínez.

A alternativa mais bem posicionada para uma eventual sucessão ao jogador de 39 anos é Gonçalo Ramos, mas este Europeu demonstrou que o selecionador não tem muita confiança no ponta-de-lança: jogou apenas 25 minutos. A situação torna-se mais preocupante a partir daí. Para haver outra opção válida seria necessário, por exemplo, que Beto e Fábio Silva se afirmassem na Premier League, que Vitinha (o outro Vitinha, o Vitinha avançado) regressasse à forma apresentada em Braga e que André Silva reencontrasse a sua melhor versão.

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