Se achas que és melhor que o teu adversário, não confies nisso. Se precisas da aflição para reagir, deixa-te disso

22 jun, 03:46
Portugal vs. Chéquia - Grupo F, Euro2024 (EPA/LUSA)

O treinador de bancada deve ser das profissões em que há mais oferta até 14 de julho, dia da final do Euro, é uma profissão que nem sequer paga salário mas que provoca discussões mais ou menos bonitas sobre os treinadores a sério, nomeadamente o de Portugal, mais criticado do que defendido pelas opções que tomou diante da Chéquia. Há desconfiança e tem sentido que haja, diz Inácio à CNN e diz Manuel Cajuda também. Mas há também solidariedade, ser treinador a sério não é para todos: "Cheguei a fazer onzes titulares e a 10 minutos do início do jogo arrependia-me". Hoje há Turquia-Portugal às 17:00

Portugal teve mais bola, mais remates, mais ataques, mais cantos, mais cruzamentos, mais tudo contra a Chéquia, até mais sorte. Sobretudo sorte, foi decisiva - e isso deixou adeptos e comentadores e analistas e quem percebe muito ou pouco de futebol desconfiados sobre a força da seleção. "Confiámos na ideia de que somos melhores", diz à CNN o mítico Manuel Cajuda, antigo treinador Vitória SC, Belenenses, SC Braga, Marítimo e atual presidente do Olhanense. E isso faz mal, avisa Cajuda. É preciso provar que somos melhores.

O mister, como pede para ser tratado, teoriza: explica que esta confiança a que se refere é um problema que provavelmente já vem de de trás, da fase de preparação: "Não nos preparámos para as dificuldades que vão existir a cada jogo e que serão sempre diferentes" e argumenta que Portugal "sempre foi e continua a ser uma equipa reativa e não proativa - precisa da aflição para reagir".

Augusto Inácio, treinador que acabou com o jejum de 18 anos em Alvalade na temporada 1999/00, encontra uma outra deficiência na seleção - e que, por sinal, não parece complicada de resolver: "Colocar os jogadores nos lugares em que costumam jogar". Nuno Mendes jogou contra a Chéquia numa posição que não lhe é estranha no PSG mas que não lhe é assim tão comum nos jogos da seleção, Cancelo foi uma espécie de médio, Vitinha foi 6-10, Bernardo Silva foi tudo o que quis do meio-campo para a frente e foi o jogador que correu mais em campo, Bruno Fernandes foi o segundo jogador português que mais correu mas pareceu acusar tanta mexida no 11 e na estratégia, Dalot parece um pouco fatigado e a conjuntura tática não pareceu protegê-lo, foram várias mudanças mais ou menos subtis.

“O sistema é o treinador que sabe, se quer jogar com três ou com dois centrais, mas não colocaria um defesa direito no meio-campo, não faz sentido nenhum”, diz Inácio, numa referência ao caso de Cancelo, uma das alterações mais substanciais na estratégia de Roberto Martínez no jogo com a Chéquia. 

Inácio não gostou de ver jogadores fora de posição mas gostou da atitude de Portugal na reação à perda de bola: foi "muito bem" e "isso é um bom sinal para o jogo contra a Turquia, que não vai pensar só em defender, vai também atacar".

Sobre a Turquia, Manuel Cajuda considera errado olhar-se para este jogo como preto ou branco e critica a ideia de que "quando se ganha correu sempre tudo bem e de quando se perde correu sempre tudo mal". "Não é bem assim". Mas admite que, do que foi feito frente à Chéquia, "há muito pouca coisa para manter" frente à Turquia. 

"Não vejo que tivessem ocorrido coisas contra a Chéquia que merecessem continuar a ser feitas. Depois, cada jogo é uma arte nova, um quadro novo que pintamos." E Manuel Cajuda encontra um erro basilar no raciocínio de Martínez e que podem provocar dano a Portugal: "Formou-se a equipa a pensar no que somos e sem se pensar no que vamos encontrar. Assim é difícil".

Manuel Cajuda defende Martínez no tabu Nuno Mendes, que foi utilizado como central no jogo com a Chéquia para surpresa quase geral quando o 11 foi anunciado. "O erro foi dos jornalistas, analistas e comentadores", considera Manuel Cajuda. "Nós jogámos sempre com três defesas centrais, não me parece que seja uma invenção do treinador."

Ainda assim, Manuel Cajuda tem mais críticas a fazer: "Não entendi porque jogou com o Dalot, Nuno Mendes e Cancelo, três defesas centrais e três laterais é difícil de explicar. Depois meter dois jogadores aos 90’ e estes fazerem o golo... Uns vão dizer que foi sorte, outros vão estar do lado do selecionador."

Augusto Inácio defende que, face ao jogo com a Chéquia, uma das novidades deve ser a entrada de João Palhinha como médio mais recuado e a saída de Diogo Dalot do onze inicial. A defesa deixaria de ser com três centrais para passar a dois e João Cancelo sairia do meio-campo para a lateral direita, zona que conhece melhor.

“Eu optaria por um 4-3-3 com Diogo Costa na baliza, Cancelo, Pepe, Rúben Dias e Nuno Mendes na defesa, João Palhinha a 6, Vitinha, Bruno Fernandes e uma frente de ataque com Bernardo Silva, Cristiano Ronaldo e Rafael Leão”, defende Inácio. E manifesta algumas dúvidas sobre duas das estrelas lusas: Rafael Leão e Bernardo Silva, sobretudo este último. “O Bernardo Silva tem de aumentar os seus níveis. Da maneira como está, não está muito bem, sinceramente. Nem dá velocidade, nem dá passe, nem marca a diferença”, diz Inácio, que aponta também uma solução: “Se o Bernardo continuar assim, temos o agitador, que é o Francisco Conceição, que agita e de que maneira - e é rápido também”.

Manuel Cajuda prefere não arriscar no 11 e garante que só tem uma certeza: "Diogo Costa e mais dez jogadores à frente". Na conferência de antevisão do jogo com a Chéquia, Martínez também só anunciou apenas um titular, precisamente Diogo Costa. Manuel Cajuda explica o porquê de recusar palpites: "Portugal tem um lote de 20 jogadores que podem jogar em qualquer jogo" e "a vida de treinador" é fazer escolhas. "Também cheguei a fazer onzes titulares e a 10 minutos do início do jogo arrependia-me", conclui Manuel Cajuda. E sorri.

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