Três Leões e um pacto com a felicidade
Parece um antídoto para o bom futebol, aquele que a Inglaterra tem aplicado neste Euro 2024, e que afeta até os adversários.
Esta tarde, esse antídoto voltou a espalhar-se pela Arena de Düsseldorf: a Suíça lutou, conseguiu mostrar a espaços porque é que foi uma das melhores equipas deste Campeonato da Europa, mas caiu nos penáltis, qual sorte madrasta.
A Inglaterra, qual Portugal em 2016, vai jogando pouco, mas com o talento que tem, arrisca-se sempre a ir em frente. Neste momento, já está nas meias-finais.
Southgate: os mesmos intervenientes, uma ideia diferente
Gareth Southgate cumpriu as expectativas da imprensa inglesa e alterou o esquema tático dos Três Leões para esta partida: os intervenientes foram quase os mesmos – exceção da ausência do castigado Guéhi por troca com Konsa –, mas Kyle Walker desdobrou-se entre a posição de central pela direita e lateral-direito, o que permitiu que Saka jogasse mais como um ala e que Phil Foden pisasse terrenos mais interiores, ao lado de Jude Bellingham.
Na Suíça, Murat Yakin não fez quaisquer alterações face ao onze titular que tinha amassado a Itália, ainda campeã da Europa em título, na ronda anterior.
E certo é que a Inglaterra viu-se confortável no jogo como há muito não se via no torneio. A pressão alta da Suíça não funcionou tão bem, dada a forma como John Stones e Declan Rice conseguiram dar critério na primeira fase de construção, e na frente, Foden sentiu-se mais confortável nas zonas interiores e Saka, na ala, fez miséria dos adversários.
Não nos enganemos, esta seleção inglesa não é brilhante, está longe de o ser, e consegue até que os adversários também baixem o nível – o tal antídoto.
A primeira parte foi morna, mas isso, lá está, já se esperava com a formação de Gareth Southgate. Maior surpresa foi o nível abaixo com que os suíços se apresentaram.
Uma Suíça diferente no regresso, antes da resposta de Saka
Mas nem o melhor dos antídotos dura para sempre e a Suíça, depois de ter ido às cabines, voltou com outra cara. E com outra presença na área.
Os suíços subiram linhas, ofereceram um maior desconforto à turma britânica e aproximaram-se da baliza de Pickford. Sem grande brilhantismo, é certo, mas aproximaram.
E numa dessas aproximações, após uma jogada exemplarmente desenhada pelo ataque helvético, Embolo desviou à boca da baliza para o 1-0, aos 15 minutos.
O mais difícil estava feito, e agora restavam 15 minutos de resistência frente a uma seleção carregada de talento, como poucas têm, mas com um coletivo inversamente proporcional a essa qualidade individual.
Southgate foi ao banco assim que se viu em desvantagem, arriscou em nomes criativos como Cole Palmer ou Eberechi Eze, e foi recompensado pouco depois. Injustamente recompensado, mas ainda assim, recompensado.
Porque lá está, quem tem mais talento arrisca-se sempre a ganhar, ou está sempre perto de marcar. Bukayo Saka, claro, resgatou a Inglaterra da derrota cinco minutos depois do golo de Embolo, com um remate em jeito que deixou Sommer sem reação.
Estava reposto algum do conforto que a Inglaterra queria no jogo, só ameaçada nos descontos, quando Embolo quis ser herói e acabou por tirar o pão da boca a Ndoye.
Um tutorial de como não arriscar, só quebrado nos últimos minutos
Prolongamento.
Nos 30 minutos extra, fez-se uma espécie de pacto de não agressão, ou melhor, um pacto de não arriscar. O medo de perder sobrepôs-se à vontade de ganhar, e só nos últimos minutos, galvanizados pela entrada do experiente Xherdan Shaqiri – acertou no ferro aos 117 minutos, os futebolistas suíços tomaram a iniciativa para tentarem evitar os penáltis. Sem sucesso.
Na marca dos onze metros, a sorte, tantas vezes madrasta para os Três Leões, sorriu-lhes desta vez. Manuel Akanji falhou logo o primeiro remate suíço, defendido por Pickford, e Trent-Alexander Arnold, uma das maiores vítimas do conservadorismo de Southgate, finalizou o remate decisivo.
Cai a Suíça, uma das grandes equipas que passou pelos relvados da Alemanha neste verão, avança a Inglaterra: o antídoto de Gareth Southgate parece afetar tudo e todos, mas as meias-finais já ninguém lhe tira, ou frente aos Países Baixos ou diante da Turquia.
Se em 2016 os adeptos portugueses cantavam «pouco importa, pouco importa», talvez os ingleses cantem agora «doesn't matter, doesn't matter». Veremos se o destino será tão amigo dos Três Leões como foi da equipa das quinas.
A FIGURA: Saka
Aos 117 minutos, num contra-ataque suíço, um rapaz franzino vestido de branco com o número sete nas costas correu desenfreado para a defesa e afastou o perigo. Se dúvidas houvesse de quanto Saka queria ganhar este jogo, estavam dissipadas. A jogar na direita, o extremo do Arsenal foi um autêntico quebra-cabeças para a defesa da Suíça. Na primeira parte, todos os lances de perigo passaram pelo seu pé esquerdo. Baixou o nível no segundo tempo, vítima do coletivo, mas nunca baixou os braços e lutou até ao fim. Nos penáltis, apesar de ter sido réu na final do Euro 2020 frente à Itália, assumiu a responsabilidade e marcou. Uma grande exibição.
O MOMENTO: Embolo quis demasiado
Ndoye estava sozinho ao segundo poste aos 90+2 minutos, pronto para fazer o golo e enviar a Suíça para as meias-finais, mas Embolo, com pouca noção do espaço, acabou por desviar a bola e tirar a bola do caminho do colega de equipa. Uma oportunidade de ouro que se desperdiçou para evitar o prolongamento e depois os penáltis, que acabaram por ser tão madrastos para os helvéticos.