Portugal foi mais forte contra quem teve medinho: o melhor do Turquia 0-3 Portugal

23 jun, 03:24
Vitinha

E é muito importante ser mais forte contra quem teve medinho de nós (Turquia) porque fomos mais fracos contra quem teve medo a sério (Chéquia). Agora é trabalhar para sermos fortes contra quem não tem medo de todo (Itália?)

Há que assumi-lo, nós metemos medo: a Chéquia passou de um jogo em que fez cinco remates, contra nós, para um jogo em que bateu o recorde de remates no Euro, 26 contra a Geórgia; a Turquia passa de um jogo em que fez 22 remates, contra a Geórgia, para um em que fez 10, contra nós, e deixou Arda Güler no banco, que é o primeiro ato de submissão da Turquia a Portugal - Vincenzo Montella preferiu ter Arda Güler fresco para o jogo da terceira jornada em vez de desperdiçá-lo numa derrota que deu como inevitável ainda antes de o jogo com Portugal ter começado. E quando começou, a Turquia tentou lutar contra o medo durante oito minutos, tinha 60% de posse nessa altura, aos seis minutos criou uma oportunidade de golo assim-assim pelo lado que mais explorou, aquele onde estava Nuno Mendes, mas em dois minutos e meio Portugal inverteu definitivamente o jogo: aos 10 minutos e 30 segundos a seleção portuguesa passa a ter 52% de posse e nunca mais deixou de ser dominante - e mesmo quando Portugal se deixou dominar nos últimos 15 a 20 minutos fê-lo à sua maneira, com as suas regras e a gerir as condições que determinou. Isso é poder e Portugal exerceu-o em cima do medo turco.

Mas agora analise-se a dimensão do medo e a maneira como cada um o gere à sua maneira: a Chéquia jogou recuada, esperou, fechou-se, deixou que Portugal viesse bater, a Chéquia preparou-se para sofrer, quis sofrer e sofreu, o futebol masoquista é bastante feio mas por vezes funciona e a Chéquia esteve mais perto de vencer Portugal e depois de empatar com Portugal do que a Turquia alguma vez esteve; a Turquia quis ter bola, lutou por ela e a que teve foi mérito seu e a que não teve foi porque Portugal não quis ou não deixou porque Portugal é melhor e quem é melhor gosta de usar a sua superioridade quando lhe convém. Mais: a Turquia quis empurrar Portugal e quis ir ver de que é feito Diogo Costa, a Turquia chega ao fim do jogo com mais ataques, 43 para 39 de Portugal, o Diogo teve de provar no pouco mas muito bem que fez que é dos melhores a fazer o que faz e Pepe saiu sob aplausos porque limpou o que pôde e que foi tudo o que lhe atiraram; a Chéquia nunca quis atacar como a Turquia e deixou que Portugal atacasse 75 vezes (a única seleção a ter mais de 75 ataques num jogo foi a Alemanha contra a Hungria) e foi preciso um autogolo checo e tropeções checos no segundo golo para Portugal vencer - e, nesse mesmo jogo com Portugal, a Chéquia atacou 19 vezes, que é o segundo pior registo da competição, e ainda assim fez o golo que a Turquia nunca teve. 

Portanto: todas as famílias felizes parecem-se umas com as outras mas cada família com medo tem medo à sua maneira e Portugal dá-se melhor com quem tem medinho, a Turquia, do que com quem tem medo a sério, a Chéquia. Mas tanto Chéquia como Turquia são equipas de segunda linha enquanto Portugal, Alemanha e Espanha, as únicas com seis pontos no Euro, são de primeira e candidatas à vitória no torneio - e nós ainda não sabemos bem quem somos quando a nossa primeira linha tiver outra linha do mesmo tamanho pela frente: de Espanha sabemos que a Croácia levou três num jogo em que a Croácia teve mais bola e mais remates e de Espanha sabemos ainda que massacrou Itália num jogo decidido por um autogolo, ou seja - Espanha sabe vencer de maneiras diferentes adversários do seu tamanho, cuidado com isso; a Alemanha humilhou uma equipa banal, a Escócia, e dominou como quis uma equipa de nível médio, a Hungria, ou seja - a Alemanha impressiona mas nenhum dos seus adversários é impressionante; Portugal esteve mais confortável com o melhor dos dois adversários que derrotou mas precisou mais da sorte do que Espanha e Alemanha, ainda assim é melhor ter sorte do que não a ter.

A desconfiança maior que Portugal provoca não é sequer pelo tamanho da sorte que teve nem é por Turquia e Chéquia serem bem piores que Croácia e Itália e até piores que Hungria, Portugal provoca desconfiança porque o outrora hiperestável Roberto Martínez mexeu na equipa de uma maneira nova, experimentou com o Euro em curso e isso faz de Portugal a mais imprevisível das três seleções que têm seis pontos - sabemos que Portugal é forte mas não sabemos quão forte é nem se Portugal se vai sabotar com as suas experimentações táticas (passámos de três centrais para dois, de Cancelo-médio para Cancelo no seu habitat, de Palhinha no banco para Palhinha titular para Palhinha substituído ao intervalo, de Nuno Mendes central-lateralizado para lateral-lateral, de Vitinha a fazer de 6 e 10 contra a Chéquia para Vitinha entalado entre Bruno e Palhinha e a seguir entre Bruno e Rúben Neves).

O jogo da Geórgia tornou-se irrelevante para perceber de que é que a seleção nacional é mesmo feita: os seis pontos permitem rodar entre quem precisa de descansar e entre quem merece ser titular pelo que tem feito nos poucos minutos de jogo ou em todos os minutos de treino - pelo menos isso permite que a seleção chegue mais fresca mas também mais rodada a uns oitavos que podem trazer uma Itália, a uns quartos com Países Baixos e a umas meias com Alemanha. Aí saberemos tudo sobre Portugal mas o que sabemos agora depois da Turquia é que já não precisamos de ter medo de dizer que Portugal mete medo à sua maneira.

SAIBA MAIS
VEJA AQUI AQUI AS NOTAS AOS JOGADORES NO TURQUIA 0-3 PORTUGAL, O PIOR DO JOGO, O MOMENTO DO JOGO, A SUPRESA DO JOGO 

Euro 2024

Mais Euro 2024

Patrocinados