Não precisamos de ter medo de dizer que metemos medo

23 jun, 01:34
Bernardo Cancelo

nota do editor este artigo começa com notas aos jogadores e a seguir contém análise ao Turquia-Portugal

 

AS NOTAS DOS JOGADORES
 

DIOGO COSTA

(Germano Oliveira) 7  Chegámos a temer que Roberto Martínez colocasse o Diogo a jogar como terceiro central mas o selecionador decidiu arriscar contra a Turquia e colocou todos os jogadores nas suas posições habituais. Apesar dessa decisão perigosa de Roberto Martínez,  Diogo Costa provou aos 30 minutos (que defesa), aos 40 e aos 52 que deve continuar a guardar a baliza em vez de jogar ao lado de João Neves e de Jota como um dos três centrais.

(Pedro Santos Guerreiro) 7   Personagem mimética, futuro modelo para a revista New Yorker do ano 2000 Já explico isto melhor, mas além da nota também vou dar a cada jogador o título tirado de uma coleção de obras de Salvador Dalí, é esta frase aqui em cima a bold, palavra que prefiro à tradução “negrito” porque “bold” também quer dizer arrojado, destemido e corajoso, coisas que enluvam bem no guardião das nossas desejadas virgindades. Estou certo de que Martínez achou o jogo incrível mas na verdade tivemos um grande piço, correu-nos tudo bem, e quando não correu estava lá o Pepe ou estava lá o Diogo Costa com os braços abertos como um louva-a-deus e as pernas atiradas como um hoquista de cócoras à baliza. Nada parece desfeitear este homem do século passado (enfim, por menos de quatro meses), mimético de si mesmo, e que há de ser capa de muitas revistas. 


JOÃO CANCELO

(Germano Oliveira) 7  Roberto Martínez colocou Cancelo a lateral direito para enganar os turcos e funcionou plenamente: como todos sabem, Cancelo é médio e foi quando Cancelo pisou a zona central aos 28 minutos que fizemos o segundo golo - Cancelo fez tudo mal, podia ter-se isolado a si próprio ou a Ronaldo mas optou por fazer um passe tão medonho que o realizador fixou a imagem em Ronaldo a discutir com Cancelo e em Cancelo a discutir com Ronaldo. Entretanto o próximo plano já só mostrou a bola a entrar na baliza turca, 0-2, e nós tapámos a cara de vergonha por não entendermos nem o génio tático de Roberto Martínez nem o talento centrocampista de Cancelo, que afinal sai deste jogo com uma assistência lindíssima para autogolo. No demais: boa primeira parte no plano ofensivo, no defensivo tem um erro aos 37 minutos (a par de Palhinha), valeu que Pepe interveio para resolver - mas afinal Cancelo é médio, não podemos pedir-lhe para fazer tudo bem quando Roberto Martínez o adapta a lateral.

(Pedro Santos Guerreiro) 7   Traje de camareiro, de cerimónia, para a peregrinação dos ex-hippies a Santiago de Compostela Como o Palhinha, eu hoje também saí do banco para vir aqui falardar notas e mandeirar frases, mas ao contrário do Cancelo vou para o banco já no próximo jogo. E hoje digo que a nossa seleção não tem hippies nem hipsters nem punks nem indies e tem um único rapper, que hoje desalegrou tanto que merecia ir ele em peregrinação com o Cancelo ao lado para o por na ordem: regular como uma hélice, Cancelo fez uma belíssima primeira parte a recuperar bolas e a lançar ataques e só saiu quando já não precisávamos de mais do que empatar a bola para segurar a vitória. 


RÚBEN DIAS

(Germano Oliveira) 7  Corte no limite aos 68 minutos que podia ter dado penálti para a Turquia, não deu mas temos dúvidas; escorregou aos 75 minutos na marcação de um livre. São as únicas notas que tenho dele, pareceu-me pouco e fui ver as estatísticas: é o jogador que fez mais passes durante o jogo e teve 96% de eficácia a fazê-los, só Pepe e Palhinha é que tiveram eficácia maior. Foi assim que Rúben Dias evitou a substituição, tanto Pepe como Palhinha foram substituídos.

(Pedro Santos Guerreiro) 6  O lacaio elegante ao serviço do vagabundo Não comprometeu, mas esteve abaixo do nível habitual mas quem tem este Pepe ao lado pode brilhar um pouco menos. Desculpa lá, Rúben, mas não vou escrever muitas frases sobre quem escreveu poucas linhas na história desta vitória. Próximo.


PEPE

(Germano Oliveira) 9  Caiu aos 15 minutos, sempre que Pepe cai ficamos nervosos - levantou-se segundos depois, estava a mancar, acalmámos, Pepe a mancar é melhor que todos os centrais em jogo. Fez cortes importantes e/ou determinantes aos 20 minutos, aos 37, aos 65, aos 66, aos 79 (duas vezes), apareceu a fazer de defesa esquerdo aos 77 minutos, deu então a bola para Pedro Neto e Pedro Neto desperdiçou o esforço de Pepe. Saiu aos 82 sob aplausos, Martínez foi o primeiro a abraçá-lo, pareciam a Scarlett Johansson e o Bill Murray no Lost in Translation - mas, ao contrário do filme, aqui sabemos o que é que o Roberto Martínez disse ao Pepe: "No próximo jogo descansas mas nos oitavos jogas a defesa-esquerdo".

(Pedro Santos Guerreiro) 10  Aleijado sustentado pela sua alma “Seja como for e onde estivermos, temos de viver como se nunca fôssemos morrer”, escreveu o poeta turco Nâzim Hikmet num poema sobre viver, e Pepe está a mostrar ao mundo inteiro que a idade não aleija e a comover-nos com a alma-maior-que-a-vida com que está a jogar neste europeu. A frase aqui em cima a bold, recordo, é do Salvador Dalí mas o Pepe é que é o salvador daqui, ele cortou tudo o que havia para cortar, ele correu, estirou-se, saltou, passou, cobriu, primeiro inventaram a palavra “imperial” para os centrais e um dia criarão o “Pepe” para os imperadores. "Aquele que ri de um juiz em traje civil, treme diante de um procurador com toga", disse o Dalí (sim, já vou explicar isto melhor), e quem se rir do Pepe fora de campo tremerá lá dentro ao ver o nosso centralão. Obrigado, Pepe, obrigado por esta lição de vida e toma lá mais um bocadinho do poema do Nâzim Hikmet: “Tens de sentir esta dor agora / Porque o mundo deve ser amado assim / Se vais dizer ‘eu vivi’...”


NUNO MENDES

(Germano Oliveira) 7  Tal como o Cancelo, é um dos nossos especialistas em provocar autogolos alheios mas hoje esteve abaixo das expectativas nesse departamento, compensou de outra maneira: entrou na área aos 21 minutos e, em vez de passar a bola diretamente a Bernardo Silva, atirou-a contra Kokçu e só depois é que a bola foi parar ao Bernardo, golo, 0-1. Mas assim Nuno Mendes manteve a tradição de humilharmos um adversário antes de fazermos golo, Kokçu foi substituído ao intervalo. 

(Pedro Santos Guerreiro) 6  Homem do ano 2000 que será gastronomicamente estereoscópico e estereoquímico Começou o jogo a dormir, talvez se tenha deitado tarde na festa desta semana dos seus 22 anos, demorou a concentrar-se, perdeu bolas e viu o seu corredor conquistado pelos turcos, também porque tinha lá à frente o tal rapper desalegrado que em nada o ajudou. Mas depois recuperou relevo e perspetiva e trouxe alguma da alegria que mostrou no primeiro jogo.  


PALHINHA

(Germano Oliveira) 6  Eu pedi Palhinha a titular, o Rui Santos pediu Palhinha a titular, ouvi hoje o Diogo Luís da CNN Portugal a pedir Palhinha a titular, acho que o Inácio também pediu Palhinha a titular: Roberto Martínez não resistiu à insuportável pressão destes ilustres e lançou Palhinha só para fazer a vontade aos quatro reclamantes - e Palhinha teve estes números na primeira parte: 22 passes feitos e todos bem-sucedidos, 100% de eficácia (o Nuno Mendes, por exemplo tinha 89% de eficácia em quase tantos passes, 25, mas na segunda parte melhorou para 94%); dos 22 passes que Palhinha fez, 10 foram passes curtos, 10 passes de média distância, um foi um passe longo, só dois dos 22 passes foram para trás; Palhinha foi o terceiro jogador português que mais correu na primeira parte, mais que o Cancelo e o Bruno e só superado pelo Vitinha e pelo Bernardo. Num ato de pouca humildade perante a evidência de que os quatro reclamantes é que estavam certos e o selecionador nem por isso, Roberto Martínez tirou Palhinha só para irritar o Rui Santos, o Diogo Luís, o Inácio e a mim próprio. Foi isso ou foi o amarelo que Palhinha tinha.

(Pedro Santos Guerreiro) 7  Um máximo de quatro gravatas usadas pelos alunos ninfáticos do futuro OK, Roberto Martínez, já podes fazer as pazes com o país agora que puseste o Palhinha a jogar, depois daquele outro jogo que ganhámos no finzinho nem sabemos bem como, se dúvidas houvesse elas ficaram hoje esclarecidas para aí aos cinco minutos de jogo, esta equipa com Palhinha é como corrente com cadeado, não vale a pena inventar, Roberto, não vale mesmo a pena inventar, e se o substituíste ao intervalo vamos acreditar que foi porque ele já estava amarelado e não vale a pena correr riscos quando se está a ganhar 2-0 e se tem a sorte do lado. 


VITINHA

(Germano Oliveira) 6  Aos 20 minutos, a Turquia tem um lance perigoso e Vitinha falha o corte - isto foi o que nós pensámos que aconteceu, na verdade aconteceu desta maneira: 20 minutos de jogo, a Turquia constrói um lance perigoso, o Vitinha falha o corte deliberadamente porque sabia que o Pepe ia aparecer a cortar no limite aquele lance que deixaria um turco isolado - o Pepe fez mesmo tudo isso e a Turquia acabou a fazer nada. Vitinha joga como um vidente além de jogar muito mas sai deste jogo com sensações menos boas que no anterior, no qual foi eleito o melhor campo: o craque do PSG teve 88% de eficácia de passe contra a Turquia - abaixo da média de 90% da equipa -, complicou mais na distribuição de jogo quando contra a Chéquia foi um simplificador, ainda assim correu muito (foi o terceiro que mais correu na seleção portuguesa) e correu acima da média da equipa. Mas sinto que depois deste jogo o Cancelo está a ameaçar o lugar do Vitinha, mas também sinto que o Cancelo está a ameaçar o Diogo Costa, sinto até que o Cancelo está a ameaçar o meu lugar nesta crónica com o Pedro Santos Guerreiro, por isso: Vitinha, tem calma, estamos todos a passar pelo mesmo.

(Pedro Santos Guerreiro) 6  Um chapéu de plástico e mica cheio de hélio, para fazer felizes os mendigos deprimidos e maníacos Os turcos são um povo “cujos bigodes pendentes escondem os seus sorrisos até deles próprios”, escreveu Nâzim Hikmet décadas antes de nascer Vitinha, cujo bigode-e-pera emoldura um sorriso de menino que se transforma num grande distribuidor de jogo de Portugal e num médio destruidor de jogo da equipa adversária. Não teve o brilho do primeiro jogo, mas já é indispensável nesta equipa, fazendo felizes “os deprimidos e maníacos” entrevistos por Salvador Dalí na tal exposição de que já vos vou falar.


BRUNO FERNANDES

(Germano Oliveira) 6  É o jogador de que mais gosto mesmo que eu ainda não tenha tido o gosto de ver o melhor Bruno neste Euro -  o Bruno tem a atitude, o empenho, o talento, o Bruno tem a energia e o comando, o Bruno tem os adjetivos todos naqueles dois pezinhos luxuosos dele, mas o Bruno precisa de descansar contra a Geórgia para termos o Bruno fresco para os oitavos. Posto isto: o Bruno é o segundo jogador de Portugal que mais correu no Euro, é o segundo com mais remates, é o segundo que mais cruzou, é o quarto que mais passes fez, o sétimo com mais dribles, mas é o primeiro a quem o Ronaldo passou uma bola. 

(Pedro Santos Guerreiro) 6  Sistema de presilhas e gravatas pelo sucesso financeiro do próximo Richelieau Marcou um golo, uma abébia do Ronaldo à boca da baliza, mas não fez grande jogo nem foi convincente. O desempenho não foi grave nem foi agudo, Bruno Fernandes foi um boss ausente e deles estamos sempre à espera de muito e por vezes – estas vezes – ficamos à espera de mais. O melhor Bruno há de aparecer, mas ainda não o vimos


RAFAEL LEÃO

(Germano Oliveira) 5  É o jogador de quem mais queria gostar, há seis anos vi-o no Dragão a marcar um golo ao Casillas e depois a falhar outro relativamente fácil quase no fim desse mesmo jogo, fiquei encantado com o bom e o mau do Rafael porque o bom parecia-me ter potencial para ser ótimo e o mau para ser resolvido com trabalho. Naquela altura o Rafael ainda não tinha o cabelo como o Sansão e entretanto tornou-se mesmo um craque, passou a desenvolver aquela maneira muito dele de sorrir enquanto progride com bola e isso traz tanta felicidade a quem torce por ele, mas alguém tem de falar com o Rafael: viu um amarelo contra a Chéquia por simular uma falta, viu um amarelo contra a Turquia por simular uma falta, foi substituído ao intervalo mas Portugal precisa dele - é o jogador com mais dribles mesmo tendo muito menos tempo de jogo que outros, o segundo jogador com mais dribles é o Cancelo e tem metade dos do Rafael. O Rafael é o nosso único jogador capaz de explodir uma defesa inteira desde que o Rafael não queira implodir com o seu jogo por falta de concentração e até seriedade, o Rafael tem um talento tão bonito cuja força não está certamente no cabelo dele mas a quem tem falhado infelizmente a força do empenho, o que não traz qualquer felicidade a quem gosta tanto dele. É que o Rafael é tão bom que nem o Roberto Martínez o põe a jogar fora de posição, prefere substituí-lo - mas na verdade nem sei o que é mais sensato.

(Pedro Santos Guerreiro) 4  Um dandy com apêndices líricos que não servem absolutamente para nada Estes títulos do Salvador Dalí são todos retirados de uma coleção privada que está neste momento em exposição no Museu Grão-Vasco, em Viseu, e decidi usá-los quando vi a aguarela com colagem com este título e pensei em Rafael Leão. É o jogador mais caro da nossa Seleção mas não é neste momento o mais valioso, hoje esteve completamente desinspirado no ataque e omisso na compensação na defesa, levou o segundo cartão amarelo em dois jogos por simulações de faltas, sim, o rapper nas horas vagas joga como um dandy e tem muitos apêndices líricos no sua cartucheira que hoje não serviram absolutamente para nada. Vá lá, miúdo, és muito melhor do que isto, estamos à espera que a pele volte a crescer com as tuas impressões digitais. 


BERNARDO SILVA

(Germano Oliveira) 8  É sempre muito difícil escrever sobre o Bernardo porque parece que ele está sempre em todo o sítio mas que não está a fazer nada além de ter a bola colada a ele, o que já é muito por si só mas simultaneamente sabe a pouco - o Guardiola diz que gosta do Bernardo porque aprecia gente inteligente e eu percebo isso, estou sempre a ouvir que o Bernardo é baixinho mas joga como um grande - vejam que nem a altura dele é um problema, até é virtude para fazer trocadilhos -, estou sempre a ouvir que o Bernardo faz tudo bem, que tudo nele é elogiável e admirável, que é mesmo como o Guardiola diz, que o Bernardo é de uma inteligência monumental, mas entre ter um jogador que compreende o Crime e Castigo quando o lê ou um que marque golos além de jogar muito, a escolha é-me óbvia. E hoje o Bernardo foi tudo, foi Dostoiévski, foi colado à bola, foi autor de golo, soube muito bem. Ah, por falar em Crime e Castigo, olhem isto que está lá: "Ela sorria e respondia-lhes fazendo vénias, e todos gostavam de a ver sorrir. Gostavam até da sua maneira de andar, voltavam-se para trás para a verem e elogiavam-na; elogiavam-na até por ser tão pequena, nem sabiam que mais haviam de elogiar nela". Curioso.

(Pedro Santos Guerreiro) 8  Sapato mercurial, fornecido de molas com alavancas, para dar a aparência de um andar angelical Num dos seus contos, o escritor turco Aziz Nesin relata que “nenhum cirurgião no mundo teve alguma vez sucesso em mudar as impressões digitais de um indivíduo. Mesmo se a pele original do dedo de uma pessoa for removida, a pele nova que crescerá vai ter exatamente as mesmas impressões digitais.” As pessoas não mudam no que define a sua identidade e Bernardo Silva tem a vantagem de saber bem quem é e nós hoje vimo-lo em campo com todas as suas impressões digitais na ponta dos dedos das mãos e dos pés. Levou o troféu de melhor em campo, coisa de que respeitosamente discordamos, sobre isso já escrevemos sobre o Pepe, mas quem tem um Bernardo Silva ali à frente pode sempre ver um repente inesperado.


RONALDO

(Germano Oliveira) 7  Vejam bem Ronaldo no lance do primeiro golo de Portugal, é importante que vejam bem o que lhe acontece antes de continuarem a ler:

a maneira como o Ronaldo se atira para o chão sem ninguém estar sequer perto dele é de uma abnegação espantosa em nome da equipa, Ronaldo atira-se para o chão para atrair os defesas adversários e assim deixar Bernardo à vontade para marcar, e agora vejam o lance do segundo golo:

Ronaldo faz uma movimentação errada que não engana Cancelo, aquilo estava tudo encenado, Ronaldo começa a fingir que está irritado com Cancelo e Cancelo que está indignado com a movimentação de Ronaldo, enquanto isso os turcos distraem-se com tudo o que os portugueses fizeram de aparentemente mal num lance em que tinham tudo para fazer objetivamente bem e é assim que acontece o autogolo mais criativo da história deste Euro - provavelmente de todos os euros -, um autogolo que resulta de um grande trabalho de encenação de atores, parabéns aos professores. 

E agora o terceiro golo:

no terceiro golo temi que Ronaldo se atirasse novamente para o chão, é sabido que as sequelas costumam ser piores que os originais, temi ainda que o Ronaldo se irritasse com o papel que cada um estava a protagonizar naquela cena - achei que o Ronaldo queria ser o assistido pelo passe em vez de ser o assistente e que começasse a esbracejar com o Bruno por causa disso -, receei ainda que Ronaldo estivesse a desempenhar mais um filme de CR7 Licença Para Chutar mas afinal era O Belo Que Assiste e O Bruno Que Marca, tem um argumento bem conseguido e foi realizado por um passe longo do Rúben Neves com um turco pelo meio como mau cortador executivo.

Portanto: faltou o golo para o Ronaldo ter o Óscar mas merece o Bafta pela intervenção nos três.

(Pedro Santos Guerreiro) 8  Lady Godiva completamente vestida pode participar na peregrinação a Santiago de Compostela Quando estive na Turquia, os taxistas não diziam como em toda a parte “Ah, Portugal: Ronaldo!”, na Turquia os taxistas diziam “Ah, Portugal: Quaresma!”, eles têm muitas saudades dele no Besiktas e nós temos saudades dele na seleção ou em qualquer lado, é uma joia este moço que começou no Sporting mais ou menos ao lado do Ronaldo, que ainda aqui anda a irritar adversários e a saltar, a correr, a driblar, a chutar, a assistir… a assistir?!, sim, a assistir, quando o homem mais obcecado de sempre com golos ofereceu a bola quase à boca da baliza ao Bruno Fernandes ficámos de cara à banda, Ronaldo mereceu marcar um golo hoje nem que fosse por isso, mas o Bruno Fernandes não conseguiu devolver a gentileza. O Salvador Dalí, que imaginou que no ano 2000 Lady Godiva cobriria a nudez sobre o dorso do seu cavalo, disse naquela ocasião que “por mais incómodos que fossem estes modos de vestir, ainda assim, envolto nas suas vestes de peles, pedras preciosas e tecidos de ouro, o Rei nunca podia esquecer que era Rei”. Ele não esquece e nós também não. Segue daqui um abraço para ele e outro para o Quaresma. 


RÚBEN NEVES

(Germano Oliveira) 6  Começa nele o terceiro golo e foi brilhante: em vez de dar logo para Ronaldo, acertou primeiro num defesa turco, que por sua vez tocou inadvertidamente a bola na direção de Ronaldo. Portugal tem tido este gostinho de humilhar sempre um defesa adversário no lance dos seus golos - dois checos tropeçaram no golo do Francisco, Kokçu cortou mal no golo de Bernardo e foi substituído, sobre o autogolo turco já explicámos a cinematografia e neste terceiro golo Rúben Neves provou que é um institucionalista ao seguir os procedimentos de humilhação do jogador adversário. Aos 95 minutos rematou por cima e Ronaldo não resistiu: gesticulou, queixou-se, queria a bola. Rúben Neves não volta a jogar neste Euro depois disto (just kidding).

(Pedro Santos Guerreiro) 5  O jogador que ganhou o Euromilhões nas arábias hoje não tirou a terminação, mesmo se o selecionador mostra que conta com o jogador português que mais nos custou ver deixar os campeonatos europeus, por fazê-lo tão novo. Foi competente a segurar, mas o melhor é lerem o Germano, que o conhece de ginjeira.


PEDRO NETO

(Germano Oliveira) 5  É um jogador inquietante: o primeiro movimento do Neto é sempre tendencialmente certo, o segundo também, depois tem o vício de baixar a cabeça e a partir dali costuma sair-lhe mal - o Neto é tão bom, tem futebol tão criativo, tão desavergonhado até, que deve jogar sempre de cabeça levantada, tem de ter orgulho na velocidade e na imprevisibilidade que tem - jogar de cabeça baixa tira pressão ao adversário, alivia-o em vez de o assustar. Gosto muito do Neto, entrou bem e depois dissipou-se, as pessoas de cabeça baixa também tendem a dar menos nas vistas e não ajudou Portugal ter recuado para gerir o jogo. Às vezes Neto parece desenquadrado, ora é mais rápido que toda a equipa, ora é mais complicado que toda ela - e por isso não consigo fazer nenhuma graçola sobre o Neto e deixa-me de cabeça baixa não o ter conseguido fazer.

(Pedro Santos Guerreiro) 5  Todos os suplentes entraram quando Portugal já estava a ganhar folgadamente, segurando o jogo, o que prejudicou a possibilidade de qualquer deles fazer uma grande exibição. Pedro Neto ainda foi lá frente semear umas flores na zona que Rafael Leão tinha deixado em pousio, mas não sem grande consequência. 


NÉLSON SEMEDO

(Germano Oliveira) 84  Entrou para o lugar de Cancelo, foi importante aos 84 minutos a bloquear um lance turco na nossa área, é a única nota que tenho sobre ele, daí levar nota 84. Sendo lateral direito, continua a lutar pelo lugar de Palhinha e de Vitinha, não é por acaso que entrou primeiro que João Neves.

(Pedro Santos Guerreiro) 5  Talvez seja embirração minha, mas não percebo o que faz nesta seleção nem o que fez neste jogo.


ANTÓNIO SILVA

(Germano Oliveira) sem nota mas com elogio  Como foi para central em vez de Nuno Mendes é porque é mesmo bom. Parabéns, António.

(Pedro Santos Guerreiro) sem nota  Entrou perto do fim e só para rodar: rodar equipa, rodar as pernas e rodar o relógio, não dá para pontuar. 


JOÃO NEVES

(Germano Oliveira) 89  Os jogadores do Benfica estão habituados a substituições ao minuto 90 mas Roberto Martínez quis provar que é melhor que Schmidt e premiou João Neves - lançou-o no jogo aos 89. Se Roberto Martínez fosse o treinador do Benfica, João Neves renovava já.

(Pedro Santos Guerreiro) sem nota  ler a avaliação ao António Silva ali em cima.

Não precisamos de ter medo de dizer que metemos medo: o melhor do jogo

por Germano Oliveira

Há que assumi-lo, nós metemos medo: a Chéquia passou de um jogo em que fez cinco remates, contra nós, para um jogo em que bateu o recorde de remates no Euro, 26 contra a Geórgia; a Turquia passa de um jogo em que fez 22 remates, contra a Geórgia, para um em que fez 10, contra nós, e deixou Arda Güler no banco, que é o primeiro ato de submissão da Turquia a Portugal - Vincenzo Montella preferiu ter Arda Güler fresco para o jogo da terceira jornada em vez de desperdiçá-lo numa derrota que deu como inevitável ainda antes de o jogo com Portugal ter começado. E quando começou, a Turquia tentou lutar contra o medo durante oito minutos, tinha 60% de posse nessa altura, aos seis minutos criou uma oportunidade de golo assim-assim pelo lado que mais explorou, aquele onde estava Nuno Mendes, mas em dois minutos e meio Portugal inverteu definitivamente o jogo: aos 10 minutos e 30 segundos a seleção portuguesa passa a ter 52% de posse e nunca mais deixou de ser dominante - e mesmo quando Portugal se deixou dominar nos últimos 15 a 20 minutos fê-lo à sua maneira, com as suas regras e a gerir as condições que determinou. Isso é poder e Portugal exerceu-o em cima do medo turco.

Mas agora analise-se a dimensão do medo e a maneira como cada um o gere à sua maneira: a Chéquia atuou recuada, esperou, fechou-se, deixou que Portugal viesse bater, a Chéquia preparou-se para sofrer, quis sofrer e sofreu, o futebol masoquista é bastante feio mas por vezes funciona e a Chéquia esteve mais perto de vencer Portugal e depois de empatar com Portugal do que a Turquia alguma vez esteve; a Turquia quis ter bola, lutou por ela e a que teve foi mérito seu e a que não teve foi porque Portugal não quis ou não deixou porque Portugal é melhor e quem é melhor gosta de usar a sua superioridade quando lhe convém. Mais: a Turquia quis empurrar Portugal e quis ir ver de que é feito Diogo Costa, chega ao fim do jogo com mais ataques, 43 para 39 de Portugal, o Diogo teve de provar no pouco mas muito bem que fez que é dos melhores a fazer o que faz e Pepe saiu sob aplausos porque limpou o que pôde e que foi tudo o que lhe atiraram; a Chéquia nunca quis fazer nada disso, deixou que Portugal atacasse 75 vezes (a única seleção a ter mais ataques num jogo foi a Alemanha contra a Hungria) e foi preciso um autogolo e tropeções checos no segundo golo para Portugal vencer - e, nesse mesmo jogo com Portugal, a Chéquia atacou 19 vezes, que é o segundo pior registo da competição, e ainda assim fez o golo que a Turquia nunca teve. 

Portanto: isto diz-nos que todas as famílias felizes parecem-se umas com as outras mas que cada família com medo tem medo à sua maneira; e diz-nos que Portugal dá-se melhor com quem tem medinho, a Turquia, do que com quem tem mais medo, a Chéquia. Mas tanto Chéquia como Turquia são equipas de segunda linha enquanto Portugal, Alemanha e Espanha, as únicas com seis pontos, são de primeira e candidatas à vitória no torneio - e nós ainda não sabemos bem quem somos quando a nossa primeira linha tiver outra linha do mesmo tamanho pela frente: de Espanha sabemos que a Croácia levou três num jogo em que a Croácia teve mais bola e mais remates e que a Itália sofreu um massacre num jogo decidido por um autogolo, ou seja - a Espanha sabe vencer de maneiras diferentes adversários do seu tamanho, cuidado com isso; a Alemanha humilhou uma equipa banal, a Escócia, e dominou como quis uma equipa de nível médio, a Hungria, ou seja - a Alemanha impressiona mas nenhum dos seus adversários é impressionante; Portugal esteve mais confortável com o melhor dos dois adversários que derrotou mas precisou mais da sorte do que Espanha e Alemanha, ainda assim é melhor ter sorte do que não a ter.

A desconfiança maior que Portugal provoca não é sequer pelo tamanho da sorte que teve nem é por Turquia e Chéquia serem bem piores que Croácia e Itália mas também que Hungria, Portugal provoca desconfiança porque o outrora hiperestável Roberto Martínez mexeu na equipa de uma maneira nova, experimentou com o Euro em curso e isso faz de Portugal a mais imprevisível das três seleções que têm seis pontos - sabemos que Portugal é forte mas não sabemos quão forte é nem se Portugal se vai sabotar com as suas experimentações táticas (passámos de três centrais para dois, de Cancelo-médio para Cancelo no seu habitat, de Palhinha no banco para Palhinha titular para Palhinha substituído ao intervalo, de Nuno Mendes central-lateralizado para lateral-lateral, de Vitinha a fazer de 6 e 10 contra a Chéquia para Vitinha entalado entre Bruno e Palhinha e a seguir entre Bruno e Rúben Neves).

O jogo da Geórgia tornou-se irrelevante para perceber de que é que a seleção nacional é mesmo feita: os seis pontos permitem rodar entre quem precisa de descansar e entre quem merece ser titular pelo que tem feito nos poucos minutos de jogo ou em todos os minutos de treino - e isso permite que a seleção chegue mais fresca mas também mais rodada a uns oitavos que podem trazer uma Itália, a uns quartos com Países Baixos e a umas meias com Alemanha. Aí saberemos tudo sobre Portugal mas o que sabemos agora depois da Turquia é que já não precisamos de ter medo de dizer que Portugal mete medo à sua maneira.
 

As simulações de Rafael Leão: o pior do jogo

por Pedro Santos Guerreiro

Há um grupo na nossa playlist do Euro que se chama “We Were Promised Jetpacks”, prometeram-nos mochilas a jato, o nome significa que falhamos quase sempre naquilo que prevemos que seja o futuro, não temos as mochilas a jato que há 50 anos diziam que teríamos, somos maus em futurismos, mais depressa veem o futuro os artistas do que os cientistas, foi por isso que a empresa belga Scabal, que fabrica fatos de luxo em Mangualde, em 1971 pediu a Salvador Dali que imaginasse a roupa que esta nossa espécie haveria de usar no ano 2000 – são essas aguarelas que estão na exposição no Museu Grão Vasco com os títulos que citei abundantemente nas notas aos jogadores. Pois bem, prometeram-nos que Rafael Leão seria a nossa mochila a jato do futuro, prometeram-nos que ele estaria presente na seleção nacional na Alemanha, mas ainda não o vimos por lá, o seu paradeiro é desconhecido e é preciso salvá-lo para recambiar esta sombra que hoje voltou a tentar fazer natação artística e se atirou para o chão como se tivesse cinco anos ou estivéssemos em 1987, os árbitros vissem mal, não houvesse um milhão de câmaras e as regras fossem complacentes. Imagino que Martínez tenha franzido os olhos no balneário e se tenha mesmo transformado no Krillin, imagino que ele tenha dado um grito gutural de fazer abalar sismógrafos, imagino que tenha inventado o vocabulário que lhe falta em português para dizer coisas que não se podem escrever, imagino que as orelhas do Rafael Leão esteja vermelhas dos insultos e esticadas dos puxões, imagino que lhe tenham dito que apanhar um cartão amarelo num jogo por simulação de falta é parvo mas apanhar dois cartões amarelos em dois jogos por simulação de faltas é imbecil, o que eu não imagino, mas não imagino mesmo, é onde está o Rafael Leão, esse trovão lancinante que rasga defesas com a alegria dos benditos parece agora a personagem de  “A Mulher de Cabelo Ruivo” de Orhman Pamuk que, empoleirado “numa laranja colossal suspensa no espaço” do brilho das estrelas se pergunta por que razão em vez de alcançar o brilho das estrelas resolveu cavar no chão em que dorme. Pá, Leão, assim não vai dar, gostamos muito de ti mas não sabemos onde andas, vê lá se apareces, também há futuros sem ti a jogar mas não são tão bonitos.

Aquele autogolo: o momento do jogo

por Pedro Santos Guerreiro

“Insólito” é ver tanta gente invadir o campo, “caricato” é ver tantos jogadores escorregarem como se tivessem sebo nos pitons, mas este autogolo foi muito mais do que isso, foi de um ridículo de fazer troar os risos mais zombeteiros. Pobre Samet Akaydin, deve ter viajado por um instante para um universo paralelo de borboletas cintilando e perdeu a noção do espaço e do tempo, ainda estava Ronaldo furioso com o mau passe e já esbugalhávamos os olhos para ver se era mesmo verdade que aquilo estava a acontecer, o central turco confundiu-se como um turista pouco informado confunde a capital da Turquia e vai parar a Istambul em vez de Ancara. Se rirmos de nós próprios é sinal de inteligência, Akaydin deve estar a perguntar-se para que servirá chorarmos de nós próprios. Sucede que o infortúnio condenou o jogo: Portugal estava mijado de sorte, passava a ganhar por 2-0 antes da meia-hora e a Turquia desmoralizava e não recuperaria a força que viramos no seu primeiro jogo. Pior: a defesa turca meteu água suficiente para submergir por completo as 336 colunas romanas da Yerebatan Saray, a grande cisterna da Basílica de Istambul. Portugal teve mesmo muita sorte, mas se a sorte dá muito trabalho, o azar também dá muita aselhice, aquela defesa tem o desenho do arame farpado mas hoje foi feita de farelo

Estarmos surpreendidos com Pepe não devia ser a surpresa do jogo

por Germano Oliveira

Daquele dia em que o Éder nos deu a maior alegria futebolística das nossas vidas hei de lembrar-me sempre do Pepe a vomitar no fim do jogo, escrevi na altura um breve texto sobre isso, o título era "E agora vamos falar de Pepe, que vomitou (grande Pepe, incrível Pepe)", na entrada do texto dizia-se que "isto que há de ler não é voyeurismo, é heroísmo - do Pepe" e a meio do texto eu justificava o porquê de escrever um texto desses, "não se escreve deliberadamente sobre alguém a vomitar", pois não, nunca o tinha feito antes disso e nunca o fiz depois, nem sequer vomitei mais, prefiro mandar o vómito para dentro do que deixá-lo sair para o mundo (não me peçam para elaborar sobre isso, por favor), só aceito vomitar nas condições do Pepe, se for um ato pós-heroico, que são atos que eu não tenho mas o Pepe sim - o Pepe vomitou no fim do jogo com a França toda a dor que aguentou para vencermos naqueles 120 minutos e a seguir fomos nós todos a deitar fora uma alegria que nem sabíamos ter, isso sim, a alegria, a alegria é de se deitar cá para fora sempre que a houver, vomitar alegria até soa bem (soa?), a alegria eu não a mando para dentro e não a mande você também. Posto isto: tudo o que hoje ouvi de espanto sobre o Pepe só me espanta por ainda causar espanto, o Pepe não é imaculado, não é sua santidade O Pepe, já se comportou muito mal demasiadas vezes dentro de um relvado, já agrediu de uma maneira inaceitável um companheiro de profissão, o Pepe por vezes manifesta instintos violentos, sabemos todos disso e nada desculpa comportamentos desses, o Pepe que viva com isso e que responda por isso sempre que passar dos limites que não devia, mas depois o Pepe é aquele homem sacrificial e tentacular dentro de campo, quando perdeu velocidade para cobrir o terreno compensou com inteligência para cobrir os espaços, correr bem é sempre melhor que correr muito, e depois o Pepe dá-se sempre ao jogo, não se esconde dele, não é cobarde, não se amedronta, é duro e manhoso, às vezes projeto no Pepe a ideia de que não há gente que é só boa ou má, há é gente que é capaz de ser boa e que o é quando quer e gente que é capaz de ser má e que o é quando o pretende e essas duas gentes são por vezes a mesma única gente - o Pepe é um futebolista que nos haverá de fazer falta mesmo que não tenhamos falta de todas as coisas que ele faz. Melhor em campo.

TURQUIA 0-3 PORTUGAL || Só há três equipas neste Euro com seis pontos. Uma delas tem um grupo muito difícil (não somos nós), a outra tornou muito fácil um grupo que era acessível (também não somos nós) e a terceira, que somos nós, está no grupo mais fácil das três. Isso quer dizer o quê, que somos a menos forte das três mais fortes?

nota do editor este artigo começa com notas aos jogadores e a seguir contém análise ao Turquia-Portugal

 

AS NOTAS DOS JOGADORES
 

DIOGO COSTA

(Germano Oliveira) 7  Chegámos a temer que Roberto Martínez colocasse o Diogo a jogar como terceiro central mas o selecionador decidiu arriscar contra a Turquia e colocou todos os jogadores nas suas posições habituais. Apesar dessa decisão perigosa de Roberto Martínez,  Diogo Costa provou aos 30 minutos (que defesa), aos 40 e aos 52 que deve continuar a guardar a baliza em vez de jogar ao lado de João Neves e de Jota como um dos três centrais.

(Pedro Santos Guerreiro) 7   Personagem mimética, futuro modelo para a revista New Yorker do ano 2000 Já explico isto melhor, mas além da nota também vou dar a cada jogador o título tirado de uma coleção de obras de Salvador Dalí, é esta frase aqui em cima a bold, palavra que prefiro à tradução “negrito” porque “bold” também quer dizer arrojado, destemido e corajoso, coisas que enluvam bem no guardião das nossas desejadas virgindades. Estou certo de que Martínez achou o jogo incrível mas na verdade tivemos um grande piço, correu-nos tudo bem, e quando não correu estava lá o Pepe ou estava lá o Diogo Costa com os braços abertos como um louva-a-deus e as pernas atiradas como um hoquista de cócoras à baliza. Nada parece desfeitear este homem do século passado (enfim, por menos de quatro meses), mimético de si mesmo, e que há de ser capa de muitas revistas. 


JOÃO CANCELO

(Germano Oliveira) 7  Roberto Martínez colocou Cancelo a lateral direito para enganar os turcos e funcionou plenamente: como todos sabem, Cancelo é médio e foi quando Cancelo pisou a zona central aos 28 minutos que fizemos o segundo golo - Cancelo fez tudo mal, podia ter-se isolado a si próprio ou a Ronaldo mas optou por fazer um passe tão medonho que o realizador fixou a imagem em Ronaldo a discutir com Cancelo e em Cancelo a discutir com Ronaldo. Entretanto o próximo plano já só mostrou a bola a entrar na baliza turca, 0-2, e nós tapámos a cara de vergonha por não entendermos nem o génio tático de Roberto Martínez nem o talento centrocampista de Cancelo, que afinal sai deste jogo com uma assistência lindíssima para autogolo. No demais: boa primeira parte no plano ofensivo, no defensivo tem um erro aos 37 minutos (a par de Palhinha), valeu que Pepe interveio para resolver - mas afinal Cancelo é médio, não podemos pedir-lhe para fazer tudo bem quando Roberto Martínez o adapta a lateral.

(Pedro Santos Guerreiro) 7   Traje de camareiro, de cerimónia, para a peregrinação dos ex-hippies a Santiago de Compostela Como o Palhinha, eu hoje também saí do banco para vir aqui falardar notas e mandeirar frases, mas ao contrário do Cancelo vou para o banco já no próximo jogo. E hoje digo que a nossa seleção não tem hippies nem hipsters nem punks nem indies e tem um único rapper, que hoje desalegrou tanto que merecia ir ele em peregrinação com o Cancelo ao lado para o por na ordem: regular como uma hélice, Cancelo fez uma belíssima primeira parte a recuperar bolas e a lançar ataques e só saiu quando já não precisávamos de mais do que empatar a bola para segurar a vitória. 


RÚBEN DIAS

(Germano Oliveira) 7  Corte no limite aos 68 minutos que podia ter dado penálti para a Turquia, não deu mas temos dúvidas; escorregou aos 75 minutos na marcação de um livre. São as únicas notas que tenho dele, pareceu-me pouco e fui ver as estatísticas: é o jogador que fez mais passes durante o jogo e teve 96% de eficácia a fazê-los, só Pepe e Palhinha é que tiveram eficácia maior. Foi assim que Rúben Dias evitou a substituição, tanto Pepe como Palhinha foram substituídos.

(Pedro Santos Guerreiro) 6  O lacaio elegante ao serviço do vagabundo Não comprometeu, mas esteve abaixo do nível habitual mas quem tem este Pepe ao lado pode brilhar um pouco menos. Desculpa lá, Rúben, mas não vou escrever muitas frases sobre quem escreveu poucas linhas na história desta vitória. Próximo.


PEPE

(Germano Oliveira) 9  Caiu aos 15 minutos, sempre que Pepe cai ficamos nervosos - levantou-se segundos depois, estava a mancar, acalmámos, Pepe a mancar é melhor que todos os centrais em jogo. Fez cortes importantes e/ou determinantes aos 20 minutos, aos 37, aos 65, aos 66, aos 79 (duas vezes), apareceu a fazer de defesa esquerdo aos 77 minutos, deu então a bola para Pedro Neto e Pedro Neto desperdiçou o esforço de Pepe. Saiu aos 82 sob aplausos, Martínez foi o primeiro a abraçá-lo, pareciam a Scarlett Johansson e o Bill Murray no Lost in Translation - mas, ao contrário do filme, aqui sabemos o que é que o Roberto Martínez disse ao Pepe: "No próximo jogo descansas mas nos oitavos jogas a defesa-esquerdo".

(Pedro Santos Guerreiro) 10  Aleijado sustentado pela sua alma “Seja como for e onde estivermos, temos de viver como se nunca fôssemos morrer”, escreveu o poeta turco Nâzim Hikmet num poema sobre viver, e Pepe está a mostrar ao mundo inteiro que a idade não aleija e a comover-nos com a alma-maior-que-a-vida com que está a jogar neste europeu. A frase aqui em cima a bold, recordo, é do Salvador Dalí mas o Pepe é que é o salvador daqui, ele cortou tudo o que havia para cortar, ele correu, estirou-se, saltou, passou, cobriu, primeiro inventaram a palavra “imperial” para os centrais e um dia criarão o “Pepe” para os imperadores. "Aquele que ri de um juiz em traje civil, treme diante de um procurador com toga", disse o Dalí (sim, já vou explicar isto melhor), e quem se rir do Pepe fora de campo tremerá lá dentro ao ver o nosso centralão. Obrigado, Pepe, obrigado por esta lição de vida e toma lá mais um bocadinho do poema do Nâzim Hikmet: “Tens de sentir esta dor agora / Porque o mundo deve ser amado assim / Se vais dizer ‘eu vivi’...”


NUNO MENDES

(Germano Oliveira) 7  Tal como o Cancelo, é um dos nossos especialistas em provocar autogolos alheios mas hoje esteve abaixo das expectativas nesse departamento, compensou de outra maneira: entrou na área aos 21 minutos e, em vez de passar a bola diretamente a Bernardo Silva, atirou-a contra Kokçu e só depois é que a bola foi parar ao Bernardo, golo, 0-1. Mas assim Nuno Mendes manteve a tradição de humilharmos um adversário antes de fazermos golo, Kokçu foi substituído ao intervalo. 

(Pedro Santos Guerreiro) 6  Homem do ano 2000 que será gastronomicamente estereoscópico e estereoquímico Começou o jogo a dormir, talvez se tenha deitado tarde na festa desta semana dos seus 22 anos, demorou a concentrar-se, perdeu bolas e viu o seu corredor conquistado pelos turcos, também porque tinha lá à frente o tal rapper desalegrado que em nada o ajudou. Mas depois recuperou relevo e perspetiva e trouxe alguma da alegria que mostrou no primeiro jogo.  


PALHINHA

(Germano Oliveira) 6  Eu pedi Palhinha a titular, o Rui Santos pediu Palhinha a titular, ouvi hoje o Diogo Luís da CNN Portugal a pedir Palhinha a titular, acho que o Inácio também pediu Palhinha a titular: Roberto Martínez não resistiu à insuportável pressão destes ilustres e lançou Palhinha só para fazer a vontade aos quatro reclamantes - e Palhinha teve estes números na primeira parte: 22 passes feitos e todos bem-sucedidos, 100% de eficácia (o Nuno Mendes, por exemplo tinha 89% de eficácia em quase tantos passes, 25, mas na segunda parte melhorou para 94%); dos 22 passes que Palhinha fez, 10 foram passes curtos, 10 passes de média distância, um foi um passe longo, só dois dos 22 passes foram para trás; Palhinha foi o terceiro jogador português que mais correu na primeira parte, mais que o Cancelo e o Bruno e só superado pelo Vitinha e pelo Bernardo. Num ato de pouca humildade perante a evidência de que os quatro reclamantes é que estavam certos e o selecionador nem por isso, Roberto Martínez tirou Palhinha só para irritar o Rui Santos, o Diogo Luís, o Inácio e a mim próprio. Foi isso ou foi o amarelo que Palhinha tinha.

(Pedro Santos Guerreiro) 7  Um máximo de quatro gravatas usadas pelos alunos ninfáticos do futuro OK, Roberto Martínez, já podes fazer as pazes com o país agora que puseste o Palhinha a jogar, depois daquele outro jogo que ganhámos no finzinho nem sabemos bem como, se dúvidas houvesse elas ficaram hoje esclarecidas para aí aos cinco minutos de jogo, esta equipa com Palhinha é como corrente com cadeado, não vale a pena inventar, Roberto, não vale mesmo a pena inventar, e se o substituíste ao intervalo vamos acreditar que foi porque ele já estava amarelado e não vale a pena correr riscos quando se está a ganhar 2-0 e se tem a sorte do lado. 


VITINHA

(Germano Oliveira) 6  Aos 20 minutos, a Turquia tem um lance perigoso e Vitinha falha o corte - isto foi o que nós pensámos que aconteceu, na verdade aconteceu desta maneira: 20 minutos de jogo, a Turquia constrói um lance perigoso, o Vitinha falha o corte deliberadamente porque sabia que o Pepe ia aparecer a cortar no limite aquele lance que deixaria um turco isolado - o Pepe fez mesmo tudo isso e a Turquia acabou a fazer nada. Vitinha joga como um vidente além de jogar muito mas sai deste jogo com sensações menos boas que no anterior, no qual foi eleito o melhor campo: o craque do PSG teve 88% de eficácia de passe contra a Turquia - abaixo da média de 90% da equipa -, complicou mais na distribuição de jogo quando contra a Chéquia foi um simplificador, ainda assim correu muito (foi o terceiro que mais correu na seleção portuguesa) e correu acima da média da equipa. Mas sinto que depois deste jogo o Cancelo está a ameaçar o lugar do Vitinha, mas também sinto que o Cancelo está a ameaçar o Diogo Costa, sinto até que o Cancelo está a ameaçar o meu lugar nesta crónica com o Pedro Santos Guerreiro, por isso: Vitinha, tem calma, estamos todos a passar pelo mesmo.

(Pedro Santos Guerreiro) 6  Um chapéu de plástico e mica cheio de hélio, para fazer felizes os mendigos deprimidos e maníacos Os turcos são um povo “cujos bigodes pendentes escondem os seus sorrisos até deles próprios”, escreveu Nâzim Hikmet décadas antes de nascer Vitinha, cujo bigode-e-pera emoldura um sorriso de menino que se transforma num grande distribuidor de jogo de Portugal e num médio destruidor de jogo da equipa adversária. Não teve o brilho do primeiro jogo, mas já é indispensável nesta equipa, fazendo felizes “os deprimidos e maníacos” entrevistos por Salvador Dalí na tal exposição de que já vos vou falar.


BRUNO FERNANDES

(Germano Oliveira) 6  É o jogador de que mais gosto mesmo que eu ainda não tenha tido o gosto de ver o melhor Bruno neste Euro -  o Bruno tem a atitude, o empenho, o talento, o Bruno tem a energia e o comando, o Bruno tem os adjetivos todos naqueles dois pezinhos luxuosos dele, mas o Bruno precisa de descansar contra a Geórgia para termos o Bruno fresco para os oitavos. Posto isto: o Bruno é o segundo jogador de Portugal que mais correu no Euro, é o segundo com mais remates, é o segundo que mais cruzou, é o quarto que mais passes fez, o sétimo com mais dribles, mas é o primeiro a quem o Ronaldo passou uma bola. 

(Pedro Santos Guerreiro) 6  Sistema de presilhas e gravatas pelo sucesso financeiro do próximo Richelieau Marcou um golo, uma abébia do Ronaldo à boca da baliza, mas não fez grande jogo nem foi convincente. O desempenho não foi grave nem foi agudo, Bruno Fernandes foi um boss ausente e deles estamos sempre à espera de muito e por vezes – estas vezes – ficamos à espera de mais. O melhor Bruno há de aparecer, mas ainda não o vimos


RAFAEL LEÃO

(Germano Oliveira) 5  É o jogador de quem mais queria gostar, há seis anos vi-o no Dragão a marcar um golo ao Casillas e depois a falhar outro relativamente fácil quase no fim desse mesmo jogo, fiquei encantado com o bom e o mau do Rafael porque o bom parecia-me ter potencial para ser ótimo e o mau para ser resolvido com trabalho. Naquela altura o Rafael ainda não tinha o cabelo como o Sansão e entretanto tornou-se mesmo um craque, passou a desenvolver aquela maneira muito dele de sorrir enquanto progride com bola e isso traz tanta felicidade a quem torce por ele, mas alguém tem de falar com o Rafael: viu um amarelo contra a Chéquia por simular uma falta, viu um amarelo contra a Turquia por simular uma falta, foi substituído ao intervalo mas Portugal precisa dele - é o jogador com mais dribles mesmo tendo muito menos tempo de jogo que outros, o segundo jogador com mais dribles é o Cancelo e tem metade dos do Rafael. O Rafael é o nosso único jogador capaz de explodir uma defesa inteira desde que o Rafael não queira implodir com o seu jogo por falta de concentração e até seriedade, o Rafael tem um talento tão bonito cuja força não está certamente no cabelo dele mas a quem tem falhado infelizmente a força do empenho, o que não traz qualquer felicidade a quem gosta tanto dele. É que o Rafael é tão bom que nem o Roberto Martínez o põe a jogar fora de posição, prefere substituí-lo - mas na verdade nem sei o que é mais sensato.

(Pedro Santos Guerreiro) 4  Um dandy com apêndices líricos que não servem absolutamente para nada Estes títulos do Salvador Dalí são todos retirados de uma coleção privada que está neste momento em exposição no Museu Grão-Vasco, em Viseu, e decidi usá-los quando vi a aguarela com colagem com este título e pensei em Rafael Leão. É o jogador mais caro da nossa Seleção mas não é neste momento o mais valioso, hoje esteve completamente desinspirado no ataque e omisso na compensação na defesa, levou o segundo cartão amarelo em dois jogos por simulações de faltas, sim, o rapper nas horas vagas joga como um dandy e tem muitos apêndices líricos no sua cartucheira que hoje não serviram absolutamente para nada. Vá lá, miúdo, és muito melhor do que isto, estamos à espera que a pele volte a crescer com as tuas impressões digitais. 


BERNARDO SILVA

(Germano Oliveira) 8  É sempre muito difícil escrever sobre o Bernardo porque parece que ele está sempre em todo o sítio mas que não está a fazer nada além de ter a bola colada a ele, o que já é muito por si só mas simultaneamente sabe a pouco - o Guardiola diz que gosta do Bernardo porque aprecia gente inteligente e eu percebo isso, estou sempre a ouvir que o Bernardo é baixinho mas joga como um grande - vejam que nem a altura dele é um problema, até é virtude para fazer trocadilhos -, estou sempre a ouvir que o Bernardo faz tudo bem, que tudo nele é elogiável e admirável, que é mesmo como o Guardiola diz, que o Bernardo é de uma inteligência monumental, mas entre ter um jogador que compreende o Crime e Castigo quando o lê ou um que marque golos além de jogar muito, a escolha é-me óbvia. E hoje o Bernardo foi tudo, foi Dostoiévski, foi colado à bola, foi autor de golo, soube muito bem. Ah, por falar em Crime e Castigo, olhem isto que está lá: "Ela sorria e respondia-lhes fazendo vénias, e todos gostavam de a ver sorrir. Gostavam até da sua maneira de andar, voltavam-se para trás para a verem e elogiavam-na; elogiavam-na até por ser tão pequena, nem sabiam que mais haviam de elogiar nela". Curioso.

(Pedro Santos Guerreiro) 8  Sapato mercurial, fornecido de molas com alavancas, para dar a aparência de um andar angelical Num dos seus contos, o escritor turco Aziz Nesin relata que “nenhum cirurgião no mundo teve alguma vez sucesso em mudar as impressões digitais de um indivíduo. Mesmo se a pele original do dedo de uma pessoa for removida, a pele nova que crescerá vai ter exatamente as mesmas impressões digitais.” As pessoas não mudam no que define a sua identidade e Bernardo Silva tem a vantagem de saber bem quem é e nós hoje vimo-lo em campo com todas as suas impressões digitais na ponta dos dedos das mãos e dos pés. Levou o troféu de melhor em campo, coisa de que respeitosamente discordamos, sobre isso já escrevemos sobre o Pepe, mas quem tem um Bernardo Silva ali à frente pode sempre ver um repente inesperado.


RONALDO

(Germano Oliveira) 7  Façam play no vídeo em baixo e olhem só para o Ronaldo no lance do primeiro golo de Portugal, é importante que vejam bem o que lhe acontece antes de continuarem a ler:

a maneira como o Ronaldo se atira para o chão no lance do primeiro golo sem ninguém estar sequer perto dele é de uma abnegação espantosa em nome da equipa, Ronaldo atira-se para o chão para atrair os defesas adversários e assim deixar Bernardo à vontade para marcar, e agora vejam o lance do segundo golo antes de continuarem a ler:

neste lance do segundo golo Ronaldo faz uma movimentação errada que não engana Cancelo, aquilo estava tudo encenado, e a seguir Ronaldo começa a fingir que está irritado com Cancelo e Cancelo que está indignado com a movimentação de Ronaldo, enquanto isso os turcos distraem-se com tudo o que os portugueses fizeram de aparentemente mal num lance em que tinham tudo para fazer objetivamente bem e é assim que acontece o autogolo mais criativo da história deste Euro - provavelmente de todos os euros -, um autogolo que resulta de um grande trabalho de encenação de atores, parabéns aos professores. 

E agora o terceiro golo:

no terceiro golo temi que Ronaldo se atirasse novamente para o chão, é sabido que as sequelas costumam ser piores que os originais, temi ainda que o Ronaldo se irritasse com o papel que cada um estava a protagonizar naquela cena - achei que o Ronaldo queria ser o assistido pelo passe em vez de ser o assistente e que começasse a esbracejar com o Bruno por causa disso -, receei ainda que Ronaldo estivesse a desempenhar mais um filme de CR7 Licença Para Chutar mas afinal era O Belo Que Assiste e O Bruno Que Marca, tem um argumento bem conseguido e foi realizado por um passe longo do Rúben Neves com um turco pelo meio como mau cortador executivo.

Portanto: faltou o golo para o Ronaldo ter o Óscar mas merece o Bafta pela intervenção nos três.

(Pedro Santos Guerreiro) 8  Lady Godiva completamente vestida pode participar na peregrinação a Santiago de Compostela Quando estive na Turquia, os taxistas não diziam como em toda a parte “Ah, Portugal: Ronaldo!”, na Turquia os taxistas diziam “Ah, Portugal: Quaresma!”, eles têm muitas saudades dele no Besiktas e nós temos saudades dele na seleção ou em qualquer lado, é uma joia este moço que começou no Sporting mais ou menos ao lado do Ronaldo, que ainda aqui anda a irritar adversários e a saltar, a correr, a driblar, a chutar, a assistir… a assistir?!, sim, a assistir, quando o homem mais obcecado de sempre com golos ofereceu a bola quase à boca da baliza ao Bruno Fernandes ficámos de cara à banda, Ronaldo mereceu marcar um golo hoje nem que fosse por isso, mas o Bruno Fernandes não conseguiu devolver a gentileza. O Salvador Dalí, que imaginou que no ano 2000 Lady Godiva cobriria a nudez sobre o dorso do seu cavalo, disse naquela ocasião que “por mais incómodos que fossem estes modos de vestir, ainda assim, envolto nas suas vestes de peles, pedras preciosas e tecidos de ouro, o Rei nunca podia esquecer que era Rei”. Ele não esquece e nós também não. Segue daqui um abraço para ele e outro para o Quaresma. 


RÚBEN NEVES

(Germano Oliveira) 6  Começa nele o terceiro golo e foi brilhante: em vez de dar logo para Ronaldo, acertou primeiro num defesa turco, que por sua vez tocou inadvertidamente a bola na direção de Ronaldo. Portugal tem tido este gostinho de humilhar sempre um defesa adversário no lance dos seus golos - dois checos tropeçaram no golo do Francisco, Kokçu cortou mal no golo de Bernardo e foi substituído, sobre o autogolo turco já explicámos a cinematografia e neste terceiro golo Rúben Neves provou que é um institucionalista ao seguir os procedimentos de humilhação do jogador adversário. Aos 95 minutos rematou por cima e Ronaldo não resistiu: gesticulou, queixou-se, queria a bola. Rúben Neves não volta a jogar neste Euro depois disto (just kidding).

(Pedro Santos Guerreiro) 5  O jogador que ganhou o Euromilhões nas arábias hoje não tirou a terminação, mesmo se o selecionador mostra que conta com o jogador português que mais nos custou ver deixar os campeonatos europeus, por fazê-lo tão novo. Foi competente a segurar, mas o melhor é lerem o Germano, que o conhece de ginjeira.


PEDRO NETO

(Germano Oliveira) 5  É um jogador inquietante: o primeiro movimento do Neto é sempre tendencialmente certo, o segundo também, depois tem o vício de baixar a cabeça e a partir dali costuma sair-lhe mal - o Neto é tão bom, tem futebol tão criativo, tão desavergonhado até, que deve jogar sempre de cabeça levantada, tem de ter orgulho na velocidade e na imprevisibilidade que tem - jogar de cabeça baixa tira pressão ao adversário, alivia-o em vez de o assustar. Gosto muito do Neto, entrou bem e depois dissipou-se, as pessoas de cabeça baixa também tendem a dar menos nas vistas e não ajudou Portugal ter recuado para gerir o jogo. Às vezes Neto parece desenquadrado, ora é mais rápido que toda a equipa, ora é mais complicado que toda ela - e por isso não consigo fazer nenhuma graçola sobre o Neto e deixa-me de cabeça baixa não o ter conseguido fazer.

(Pedro Santos Guerreiro) 5  Todos os suplentes entraram quando Portugal já estava a ganhar folgadamente, segurando o jogo, o que prejudicou a possibilidade de qualquer deles fazer uma grande exibição. Pedro Neto ainda foi lá frente semear umas flores na zona que Rafael Leão tinha deixado em pousio, mas não sem grande consequência. 


NÉLSON SEMEDO

(Germano Oliveira) 84  Entrou para o lugar de Cancelo, foi importante aos 84 minutos a bloquear um lance turco na nossa área, é a única nota que tenho sobre ele, daí levar nota 84. Sendo lateral direito, continua a lutar pelo lugar de Palhinha e de Vitinha, não é por acaso que entrou primeiro que João Neves.

(Pedro Santos Guerreiro) 5  Talvez seja embirração minha, mas não percebo o que faz nesta seleção nem o que fez neste jogo.


ANTÓNIO SILVA

(Germano Oliveira) sem nota mas com elogio  Como foi para central em vez de Nuno Mendes é porque é mesmo bom. Parabéns, António.

(Pedro Santos Guerreiro) sem nota  Entrou perto do fim e só para rodar: rodar equipa, rodar as pernas e rodar o relógio, não dá para pontuar. 


JOÃO NEVES

(Germano Oliveira) 89  Os jogadores do Benfica estão habituados a substituições ao minuto 90 mas Roberto Martínez quis provar que é melhor que Schmidt e premiou João Neves - lançou-o no jogo aos 89. Se Roberto Martínez fosse o treinador do Benfica, João Neves renovava já.

(Pedro Santos Guerreiro) sem nota  ler a avaliação ao António Silva ali em cima.

Não precisamos de ter medo de dizer que metemos medo: o melhor do jogo

por Germano Oliveira

Há que assumi-lo, nós metemos medo: a Chéquia passou de um jogo em que fez cinco remates, contra nós, para um jogo em que bateu o recorde de remates no Euro, 26 contra a Geórgia; a Turquia passa de um jogo em que fez 22 remates, contra a Geórgia, para um em que fez 10, contra nós, e deixou Arda Güler no banco, que é o primeiro ato de submissão da Turquia a Portugal - Vincenzo Montella preferiu ter Arda Güler fresco para o jogo da terceira jornada em vez de desperdiçá-lo numa derrota que deu como inevitável ainda antes de o jogo com Portugal ter começado. E quando começou, a Turquia tentou lutar contra o medo durante oito minutos, tinha 60% de posse nessa altura, aos seis minutos criou uma oportunidade de golo assim-assim pelo lado que mais explorou, aquele onde estava Nuno Mendes, mas em dois minutos e meio Portugal inverteu definitivamente o jogo: aos 10 minutos e 30 segundos a seleção portuguesa passa a ter 52% de posse e nunca mais deixou de ser dominante - e mesmo quando Portugal se deixou dominar nos últimos 15 a 20 minutos fê-lo à sua maneira, com as suas regras e a gerir as condições que determinou. Isso é poder e Portugal exerceu-o em cima do medo turco.

Mas agora analise-se a dimensão do medo e a maneira como cada um o gere à sua maneira: a Chéquia jogou recuada, esperou, fechou-se, deixou que Portugal viesse bater, a Chéquia preparou-se para sofrer, quis sofrer e sofreu, o futebol masoquista é bastante feio mas por vezes funciona e a Chéquia esteve mais perto de vencer Portugal e depois de empatar com Portugal do que a Turquia alguma vez esteve; a Turquia quis ter bola, lutou por ela e a que teve foi mérito seu e a que não teve foi porque Portugal não quis ou não deixou porque Portugal é melhor e quem é melhor gosta de usar a sua superioridade quando lhe convém. Mais: a Turquia quis empurrar Portugal e quis ir ver de que é feito Diogo Costa, a Turquia chega ao fim do jogo com mais ataques, 43 para 39 de Portugal, o Diogo teve de provar no pouco mas muito bem que fez que é dos melhores a fazer o que faz e Pepe saiu sob aplausos porque limpou o que pôde e que foi tudo o que lhe atiraram; a Chéquia nunca quis atacar como a Turquia e deixou que Portugal atacasse 75 vezes (a única seleção a ter mais de 75 ataques num jogo foi a Alemanha contra a Hungria) e foi preciso um autogolo checo e tropeções checos no segundo golo para Portugal vencer - e, nesse mesmo jogo com Portugal, a Chéquia atacou 19 vezes, que é o segundo pior registo da competição, e ainda assim fez o golo que a Turquia nunca teve. 

Portanto: todas as famílias felizes parecem-se umas com as outras mas cada família com medo tem medo à sua maneira e Portugal dá-se melhor com quem tem medinho, a Turquia, do que com quem tem muito medo, a Chéquia. Mas tanto Chéquia como Turquia são equipas de segunda linha enquanto Portugal, Alemanha e Espanha, as únicas com seis pontos no Euro, são de primeira e candidatas à vitória no torneio - e nós ainda não sabemos bem quem somos quando a nossa primeira linha tiver outra linha do mesmo tamanho pela frente: de Espanha sabemos que a Croácia levou três num jogo em que a Croácia teve mais bola e mais remates e de Espanha sabemos ainda que massacrou Itália num jogo decidido por um autogolo, ou seja - Espanha sabe vencer de maneiras diferentes adversários do seu tamanho, cuidado com isso; a Alemanha humilhou uma equipa banal, a Escócia, e dominou como quis uma equipa de nível médio, a Hungria, ou seja - a Alemanha impressiona mas nenhum dos seus adversários é impressionante; Portugal esteve mais confortável com o melhor dos dois adversários que derrotou mas precisou mais da sorte do que Espanha e Alemanha, ainda assim é melhor ter sorte do que não a ter.

A desconfiança maior que Portugal provoca não é sequer pelo tamanho da sorte que teve nem é por Turquia e Chéquia serem bem piores que Croácia e Itália mas também que Hungria, Portugal provoca desconfiança porque o outrora hiperestável Roberto Martínez mexeu na equipa de uma maneira nova, experimentou com o Euro em curso e isso faz de Portugal a mais imprevisível das três seleções que têm seis pontos - sabemos que Portugal é forte mas não sabemos quão forte é nem se Portugal se vai sabotar com as suas experimentações táticas (passámos de três centrais para dois, de Cancelo-médio para Cancelo no seu habitat, de Palhinha no banco para Palhinha titular para Palhinha substituído ao intervalo, de Nuno Mendes central-lateralizado para lateral-lateral, de Vitinha a fazer de 6 e 10 contra a Chéquia para Vitinha entalado entre Bruno e Palhinha e a seguir entre Bruno e Rúben Neves).

O jogo da Geórgia tornou-se irrelevante para perceber de que é que a seleção nacional é mesmo feita: os seis pontos permitem rodar entre quem precisa de descansar e entre quem merece ser titular pelo que tem feito nos poucos minutos de jogo ou em todos os minutos de treino - pelo menos isso permite que a seleção chegue mais fresca mas também mais rodada a uns oitavos que podem trazer uma Itália, a uns quartos com Países Baixos e a umas meias com Alemanha. Aí saberemos tudo sobre Portugal mas o que sabemos agora depois da Turquia é que já não precisamos de ter medo de dizer que Portugal mete medo à sua maneira.

As simulações de Rafael Leão: o pior do jogo

por Pedro Santos Guerreiro

Há um grupo na nossa playlist do Euro que se chama “We Were Promised Jetpacks”, prometeram-nos mochilas a jato, o nome significa que falhamos quase sempre naquilo que prevemos que seja o futuro, não temos as mochilas a jato que há 50 anos diziam que teríamos, somos maus em futurismos, mais depressa veem o futuro os artistas do que os cientistas, foi por isso que a empresa belga Scabal, que fabrica fatos de luxo em Mangualde, em 1971 pediu a Salvador Dali que imaginasse a roupa que esta nossa espécie haveria de usar no ano 2000 – são essas aguarelas que estão na exposição no Museu Grão Vasco com os títulos que citei abundantemente nas notas aos jogadores. Pois bem, prometeram-nos que Rafael Leão seria a nossa mochila a jato do futuro, prometeram-nos que ele estaria presente na seleção nacional na Alemanha, mas ainda não o vimos por lá, o seu paradeiro é desconhecido e é preciso salvá-lo para recambiar esta sombra que hoje voltou a tentar fazer natação artística e se atirou para o chão como se tivesse cinco anos ou estivéssemos em 1987, os árbitros vissem mal, não houvesse um milhão de câmaras e as regras fossem complacentes. Quando o sol lhe bate nos olhos e ele os franze, Roberto Martínez ajaponesa o olhar e fica igualzinho ao Krillin, a personagem do Dragon Ball que dava um grito imenso, e imagino que Martínez tenha franzido os olhos no balneário e se tenha mesmo transformado no Krillin, imagino que ele tenha dado um grito gutural de fazer abalar sismógrafos, imagino que tenha inventado o vocabulário que lhe falta em português para dizer coisas que não se podem escrever, imagino que as orelhas do Rafael Leão estejam vermelhas dos insultos e esticadas dos puxões, imagino que lhe tenham dito que apanhar um cartão amarelo num jogo por simulação de falta é parvo mas apanhar dois cartões amarelos em dois jogos por simulação de faltas é imbecil, o que eu não imagino, mas não imagino mesmo, é onde está o Rafael Leão, esse trovão lancinante que rasga defesas com a alegria dos benditos parece agora a personagem de  “A Mulher de Cabelo Ruivo” de Orhman Pamuk que, empoleirado “numa laranja colossal suspensa no espaço” do brilho das estrelas se pergunta por que razão em vez de alcançar o brilho das estrelas resolveu cavar no chão em que dorme. Não precisamos de heróis, não é isso, herói foi o Aristides Sousa Mendes que aliás foi quem deu visto ao Salvador Dalí para ir para os Estados Unidos com a mulher, Gala era russa e precisava de sair da Europa, heróis são esses, mas pá, Leão, assim não vai dar, gostamos muito de ti mas não sabemos onde andas, vê lá se apareces, também há futuros sem ti mas não são tão bonitos.

Aquele autogolo: o momento do jogo

por Pedro Santos Guerreiro

“Insólito” é ver tanta gente invadir o campo, “caricato” é ver tantos jogadores escorregarem como se tivessem sebo nos pitons, mas este autogolo foi muito mais do que isso, foi de um ridículo de fazer troar os risos mais zombeteiros. Pobre Samet Akaydin, deve ter viajado por um instante para um universo paralelo de borboletas cintilando e perdeu a noção do espaço e do tempo, ainda estava Ronaldo furioso com o mau passe e já esbugalhávamos os olhos para ver se era mesmo verdade que aquilo estava a acontecer, o central turco confundiu-se como um turista pouco informado confunde a capital da Turquia e vai parar a Istambul em vez de Ancara. Se rirmos de nós próprios é sinal de inteligência, Akaydin deve estar a perguntar-se para que servirá chorarmos de nós próprios. Sucede que o infortúnio condenou o jogo: Portugal estava mijado de sorte, passava a ganhar por 2-0 antes da meia-hora e a Turquia desmoralizava e não recuperaria a força que viramos no seu primeiro jogo. Pior: a defesa turca meteu água suficiente para submergir por completo as 336 colunas romanas da Yerebatan Saray, a grande cisterna da Basílica de Istambul. Portugal teve mesmo muita sorte, mas se a sorte dá muito trabalho, o azar também dá muita aselhice, aquela defesa tem o desenho do arame farpado mas hoje foi feita de farelo

Estarmos surpreendidos com Pepe não devia ser a surpresa do jogo

por Germano Oliveira

Daquele dia em que o Éder nos deu a maior alegria futebolística das nossas vidas hei de lembrar-me sempre do Pepe a vomitar no fim do jogo com a França, escrevi na altura um breve texto sobre isso, o título era "E agora vamos falar de Pepe, que vomitou (grande Pepe, incrível Pepe)", na entrada desse texto eu dizia que "isto que hão de ler não é voyeurismo, é heroísmo - do Pepe" e a meio do texto eu justificava o porquê de escrever um texto desses, "não se escreve deliberadamente sobre alguém a vomitar", pois não, nunca o tinha feito antes disso e nunca o fiz depois, nem sequer vomitei mais, prefiro mandar o vómito para dentro do que deixá-lo sair para o mundo (não me peçam para elaborar sobre isso, por favor), só aceito vomitar nas condições do Pepe, se for num ato pós-heroico, que são atos que eu não tenho mas o Pepe sim - o Pepe vomitou no fim daquele jogo toda a dor que aguentou para ajudar a vencer, enquanto os outros jogadores corriam de felicidade o Pepe vomitava de alívio, deitou fora o sacrifício e a seguir fomos nós todos a deitar fora uma alegria que nem sabíamos ter, foram dias de festa, isso sim, a alegria, a alegria é de se deitar cá para fora sempre que a houver, vomitar alegria até soa bem (soa?), a alegria eu não a mando para dentro e não a mande você também.

Posto isto: tudo o que ouvi de espanto sobre o jogaço do Pepe contra a Turquia só me espanta por ainda causar espanto, o Pepe não é imaculado, não é sua santidade O Pepe, já se comportou mal demasiadas vezes dentro de um relvado, já agrediu de maneira inaceitável um companheiro de profissão, o Pepe por vezes manifesta instintos violentos, sabemos todos disso e nada desculpa comportamentos desses, o Pepe que viva com isso e que responda por isso sempre que passar dos limites que não devia, mas depois o Pepe é aquele homem sacrificial e tentacular dentro de campo, quando perdeu velocidade para cobrir o terreno todo compensou com inteligência para cobrir os espaços, correr bem é sempre melhor que correr muito, e depois o Pepe dá-se sempre ao jogo, não se esconde dele, não é cobarde, não se amedronta, é duro e manhoso, às vezes projeto no Pepe a ideia de que não há gente que é só boa ou má, há é gente que é capaz de ser boa e que o é quando quer e gente que é capaz de ser má e que o é quando o pretende e essas duas gentes são por vezes a mesma única gente - o Pepe é um futebolista que nos haverá de fazer falta mesmo que não tenhamos falta de todas as coisas que ele faz. Melhor em campo.

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