Bem-vindos, bem-vindas e bem-vindes à maionese cósmica de Trump. Podem ir parar à prisão, mas também podem ganhar os 50 milhões da recompensa oferecida pela cabeça de Maduro. Quase tudo é possível no universo das realidades alternativas, as conferências de imprensa com o mitómano Hegseth e a frota mais poderosa do planeta a brincar a uma mistura de batalha naval com 'Grand Theft Auto' e 'Squid Game' nas mesmas águas onde, em tempos, reinaram os piratas das Caraíbas.
Silêncio na Venezuela. Mas também no resto do mundo, do Canadá à China, da Gronelândia à Africa do Sul: ninguém sabe como reagir (e o que fazer a seguir) ao sequestro de Maduro. No tabuleiro do jogo mundial, o xerife é também a maior estrela do póquer online, numa partida onde todos perdemos — exceto o xerife e os seus aliados e colaboradores (enquanto forem úteis, depois não: Roma não pagava a traidores e Donald Trump não paga a não ser que o obriguem).
A distopia trumpiana deu um murro na mesa em Caracas, onde ninguém sabe o que fazer neste momento. Resistir até à morte é uma opção para a cúpula bolivariana descabeçada a 3 de janeiro — sim, mas resistir contra quem? Não há soldados estrangeiros no terreno, e os 150 aviões envolvidos na extirpação cirúrgica voltaram às 20 misteriosas bases de onde partiram. Não há exército invasor, apenas uma frota temível em águas internacionais, e também ninguém sabe por mais quanto tempo. E, já agora, ninguém consegue, nem sequer nos Estados Unidos de Trump, manter por tempo indefinido a despesa milionária diária de um contingente com milhares de soldados nas Caraíbas.
São muitas as perguntas sem respostas, mas a lógica perdeu relevância na Nova Desordem Mundial. É difícil imaginar, depois do inverosímil truque de realpolitik perpetrado pela Delta Force, as caras e as inúmeras interrogações que rondam as cabeças dos quase 30 milhões de venezuelanos, incluindo os oito milhões na diáspora. Em particular, deve ser complicado estar na pele de María Corina Machado, líder da oposição a Maduro desde há mais de uma década e que ontem se mostrou disponível, e pronta, para assumir o poder. O balde de água gelada chegou pouco depois, com as declarações de Marco Rubio, secretário de Estado norteamericano, e do seu padrinho, ou Poderoso Chefão (O Padrinho na versão brasileira).
A encenação de Rubio e de Trump, onde desempenharam papéis menores Pete Hegseth (secretário da Defesa) e o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior e responsável operacional pelo sequestro, incluiu mensagens de intimidação para outros países do Hemisfério Ocidental (em particular Colômbia e Cuba) e de outras partes do mundo. O novo tabuleiro mundial não tem regras, não é como o Risco (ou Risk, na versão moderna em Portugal). O jogo é mais parecido com o 'Squid Game' da Netflix (milhões ou morte). As únicas regras que contam e devemos considerar são as ditadas pelo imprevisível, contraditório e delinquente convicto Donald Trump, que deveria estar na prisão, mas dá-se ao luxo de humilhar outros criminosos onde quer que se encontrem, mesmo durante o sono.
A NDM
A Nova Desordem Mundial (NDM) é um mundo caótico, sem Nações Unidas nem direito internacional, mas com vilões, heróis, e uma nova categoria ambígua adaptada aos tempos da pós-verdade e dos factos alternativos — o herói que também é vilão, e vice-versa: o 'herão' ou 'vilói'. Nesta partida de póquer global, Trump e os seus sequazes acabam de ganhar uma mão cheia de fichas e anunciam que vai ser assim a noite toda, uma noite sem fim à vista.
O que faz de um jogador de cartas um grande contendente é a capacidade de usar a força (cartas altas), a intimidação (apostas altas) e a velocidade mental (mesmo quando as cartas não são boas). Ao extirpar Maduro num abrir e fechar de olhos, Trump e companhia (ou Trump e a CIA) lançam um aviso à cúpula chavista ("pode acontecer-vos o mesmo se desobedecerem") e, de rajada, a todos os que achavam que o Poderoso Chefão fazia bluff. É bluff e não é bluff. Os melhores jogadores brincam com a geometria variável das probabilidades, e os verdadeiros campeões metem a Força Aérea e a Marinha a defender a jogada se for preciso, não tanto pelo botim em si (o ditador Maduro e a primeira-dama Flores), mas como aviso à navegação: a partir de agora, vai ser assim, e quem não cumprir as ordens arrisca-se a ser detido(a) e julgado(a) numa qualquer instância do casino, aberto até de madrugada.
É tão difícil imaginar a cara com que ficou María Corina Machado como a cara, neste momento, de Delcy Rodríguez, que ontem apelou à ativação de todos os venezuelanos contra a agressão "para defender a Venezuela e os seus recursos naturais". A irmã do intelectual chavista Jorge Rodríguez, atual ministra do petróleo e presidente interina na ausência de Nicolás Maduro Moros, deverá gerir a fase mais difícil do chavismo até agora. Tem de coordenar a relação da cúpula chavista com Trump e, ao mesmo tempo, a resistência de uma população fortemente dividida entre partidários de Maduro e opositores.
Um país dividido e empobrecido
De acordo com as atas das últimas eleições fraudulentas na Venezuela, pelo menos dois terços do país votaram contra o chavismo. É um país em crise há décadas, com taxas de pobreza elevadíssimas (apenas ultrapassadas pelo Haiti na América Latina), com fronteiras porosas por onde passa cerca de 40% da cocaína mundial (mas apenas uma pequena parte chega aos EUA).
Neste cenário, onde Maduro, supostamente, liderava o alegado 'Cartel de los Soles' (os sóis são as insígnias das fardas bolivarianas), é lógico pensar que a vice-presidente de Maduro ocupa ou ocupava um lugar na hierarquia do grupo narcotraficante, mas pelos vistos é uma interlocutora válida para o trumpismo — ou, pelo menos, mais válida e credível do que a prémio Nobel da Paz (ou se calhar por isso mesmo: é uma vingança por Machado ter desprovido o Poderoso Chefão do almejado troféu).
Não tentem encontrar sentido ou justiça na NDM. Se quiserem interpretar os factos, é melhor pensar em termos de birras infantis, desforras, intimidações e palpites. A NDM é o mais parecido que existe ao que as incessantes publicidades de apostas online oferecem nos intervalos dos telejornais, um desfile de personagens incongruentes que nem sequer jogam a sério, simplesmente dão "um play na vida": cozinheiros tatuados em salões do faroeste, apresentadoras loiras com dinossauros e duendes da sorte, touros que piscam o olho e prometem 'jackpots' e 'freespins'. É um mundo hiperbólico de esteroides e néons, onde a justiça é para os perdedores e o pote, cada vez mais, para os vencedores.
O petróleo mal tirado e pior refinado da Venezuela passará a ser dos EUA? É o que vamos ver. Até antes de ontem, a maior parte ia parar à China, mas também vão sentir o golpe outros atores — nomeadamente a Rússia, principal cliente da chamada 'frota fantasma' de petroleiros opacos que circulam pelas águas do mundo, e que agora ficam sem saber o que fazer em relação ao crude (quem recebe o dinheiro e quem abre a torneira?) do país com as maiores reservas do mundo. Em Pequim e Moscovo devem estar preocupados, mas não mais do que na Gronelândia. Se eu vivesse no Canadá ou no Panamá, também começaria a fazer contas à vida. Como vivo na União Europeia, o que espero é que os governantes do meu continente acordem de uma vez por todas e deixem de estender o tapete vermelho ao Poderoso Chefão.
Por mais promissora que seja, a publicidade do casino é enganadora. Não nãos deixemos seduzir pelos cantos de sereia, o que temos de fazer é pôr mãos à obra e desenvolver uma Estratégia de Segurança Europeia, ou mesmo um exército europeu com unidades de elite e de intervenção rápida. Uma força adequada para os desafios da NDM e pronta para decifrar os bluffs e as jogadas com as cartas marcadas da Administração Trump, mas também para viajar no tempo e no espaço e sermos capazes de enfrentar o imperialismo russo, o nacionalismo autoritário de Narendra Modi, o 'milagre económico' do comunismo chinês, o delírio totalitário da Coreia do Norte... sem esquecer os demónios internos, como Orbán, e figuras como Erdogan, Khamenei ou Milei.
Nota: o 'narcoterrorismo' é um conceito criado em laboratório, tão útil para explicar o mundo quanto as explicações de Peter Brian Hegseth no Senado dos EUA sobre as acusações de agressão sexual, infidelidade conjugal e embriaguez em público que teve de enfrentar faz agora um ano.