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Do escarro de Nixon ao enxofre de Bush, de aliado a ameaça: como a Venezuela perdeu os Estados Unidos e chegou ao ponto de ruptura

21 dez 2025, 13:35
Protestos após as eleições na Venezuela (EPA)
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Durante quase 40 anos, a Venezuela foi para Washington uma peça rara no mapa da Guerra Fria, uma democracia estável no hemisfério, anti-comunista, com petróleo suficiente para justificar atenção e tolerância. A proximidade começou a rachar no fim dos anos 90, com Hugo Chávez, partiu com o golpe falhado de 2002 e endureceu com a viragem autoritária e a guerra do crude, até desembocar no presente, em que Donald Trump volta a tratar Caracas como ameaça de segurança nacional e empurra a relação para a linguagem militar

nota do editor: este artigo foi publicado originalmente a 21 de dezembro de 2025


Na manhã de Maio de 1958, em Caracas, a visita do vice-presidente norte-americano Richard Nixon deixou de ser protocolo e passou a ser instinto.

Uma multidão cercou a comitiva, entalou os carros, bateu nos vidros com punhos e pedras, cuspindo tanto que o motorista ligou as escovas do pára-brisas para conseguir ver a rua. “Por um instante, ocorreu-me que podíamos ser mortos”, escreveria Nixon mais tarde, numa lembrança que ficou como fotografia de uma relação antiga entre Washington e a Venezuela. Os carros conseguiram escapar ao fim de minutos tensos, Nixon prosseguiu a viagem e saiu do país no dia seguinte. Em Washington, porém, a Casa Branca não quis arriscar e pôs um grupo de porta-aviões a caminho, pronto para uma eventual operação de resgate que nunca chegou a ser necessária. Em Caracas, as autoridades venezuelanas, horrorizadas com o motim, pediram ao vice-presidente que não encurtasse a visita, colocaram tropas ao longo do percurso de saída e tentaram fechar, à pressa, a ferida antes de ela se tornar símbolo.

O paradoxo é que a crise de 1958, em vez de quebrar a ligação, acabou por reforçá-la. A Venezuela iniciava então uma transição democrática e Nixon atribuiu a emboscada a “agitadores comunistas” e à fragilidade do novo poder, descrevendo o episódio como um “choque necessário” que despertou Washington de uma “perigosa complacência”. Seguiram-se décadas de aproximação, até que uma mudança política profunda em Caracas, há aproximadamente 25 anos, travou essa proximidade de forma abrupta.

A ligação, anterior à mudança política profunda, e viragem à esquerda, assentou em duas colunas simples e pesadas: a Guerra Fria, a competição com a União Soviética, e o petróleo, a importância das reservas petrolíferas da venezuelanas. A Venezuela democrática, no período pós-ditadura militar de Marcos Pérez Jiménez, derrubado em Janeiro de 1958, com crude abundante, parecia a Washington um aliado quase feito por medida e, depois de 1959 e da revolução de Fidel Castro em Cuba, a palavra “anti-comunista” passou a separar amigos de problemas — e o Presidente Rómulo Betancourt era um amigo da América.

Em 1963, no rescaldo da crise dos mísseis e do confronto com Havana, John F. Kennedy ofereceu um jantar de Estado ao Presidente venezuelano (Betancourt foi Presidente de 1959 a 1964) e chamou-lhe “o melhor amigo da América” na América do Sul. Depois de Rómulo Betancourt, com Raúl Leoni ou Rafael Caldera, vieram anos de vendas de armamento e de presença forte de empresas energéticas norte-americanas no crude venezuelano, com política e negócio a tocar-se sem pudor. Em 1971, era Caldera o Presidente, Nixon (aqui já era o Presidente e não um vice) ponderava vender caças F-4 Phantom II à Venezuela. Um assessor da Casa Branca alertou-o para o impacto que a decisão poderia ter num debate legislativo em Caracas “que pode afectar negativamente os interesses petrolíferos dos EUA”. Nixon decidiu fazer ouvidos moucos — e a venda avançou, com aeronaves ainda mais modernas.

Henry Kissinger, Conselheiro de Segurança Nacional, e Richard Nixon, Presidente, em 1972

Mas a história do petróleo tinha a sua própria cadência. Poucos anos depois, em 1976, no mandato do Presidente Carlos Andrés Pérez, Caracas nacionalizou a indústria petrolífera. Washington, com Gerald Ford na Presidência, reagiu com contenção, numa altura em que vários países em desenvolvimento faziam o mesmo com os seus recursos, e a Venezuela pagou às petrolíferas norte-americanas mais de mil milhões de dólares em compensações. Havia um cálculo por baixo da diplomacia: interessava aos Estados Unidos manter boas relações com um membro central da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP, criada em 1960)  e, com os soviéticos como pano de fundo, ainda, Caracas continuava a contar.

Nos anos 80, Ronald Reagan apresentou publicamente a Venezuela como “inspiração democrática para o hemisfério” enquanto enfrentava movimentos comunistas na América Latina, causa que o governo venezuelano (com Luis Herrera Campins, primeiro, e Jaime Lusinchi depois) apoiava, em particular em El Salvador. A luta continuava. E, claro, os negócios. Em 1981, os EUA venderam 24 caças F-16 à Venezuela, um dos negócios militares mais significativos dos americanos na região em mais de uma década, avaliado hoje em cerca de 1,75 mil milhões de dólares.

Esta narrativa da “democracia modelo” convivia com falhas políticas e económicas na Venezuela que a retórica americana preferia empurrar para fora de plano. Depois, com o fim da União Soviética, a atenção de Washington afastou-se da América Latina. Mas o crude manteve a Venezuela no mapa. O país abriu espaço a acordos de exploração e partilha de lucros com empresas privadas, incluindo grandes grupos norte-americanos. E no final dos anos 90, Caracas já tinha ultrapassado a Arábia Saudita como principal fornecedor de petróleo aos Estados Unidos.

O chavismo, de mansinho

Enquanto o petróleo segurava a relação, a política mudava o chão. Em Washington, poucos acompanharam de perto a ascensão de Hugo Chávez, vencedor das presidenciais de Dezembro de 1998. Com discurso inflamado e inspiração castrista-cubana, Chávez canalizou a raiva popular perante a corrupção e a pobreza persistentes num país rico em petróleo, prometendo reformas constitucionais e económicas profundas.

Hugo Chávez morreu a 5 de março de 2013

A reacção norte-americana foi prudente. A administração Clinton apostou na hipótese de moderação e recebeu Chávez na Casa Branca no início de 1999. Chávez garantiu que queria manter boas relações e deixou sinais de não pretender um corte brusco. Só que o choque chegou em Abril de 2002, com uma tentativa de derrube do Presidente venezuelano. Uma aliança de políticos, militares e líderes empresariais deteve Chávez num contexto de protestos de rua, mas o golpe falhou quando multidões ainda maiores exigiram o seu regresso. Chávez voltou ao poder em dois dias e voltou diferente, mais desconfiado, mais duro, com a máquina do Estado virada contra adversários e com o país a deslizar para um autoritarismo cada vez mais assumido.

Instalou-se um ciclo de acusações e suspeita com os Estados Unidos. Chávez culpou a administração de George W. Bush por tentar derrubá-lo. A Casa Branca negou, mas documentos desclassificados em 2004 mostraram que autoridades norte-americanas tinham conhecimento prévio do plano e que, ao mesmo tempo, alertaram líderes da oposição contra a remoção de Chávez por vias inconstitucionais.

Bush tornou-se o alvo perfeito de Chávez, sobretudo depois da invasão do Iraque em 2003 e da política antiterrorista que gerou críticas globais. Em 2006, na Assembleia-Geral das Nações Unidas, Chávez fez o seu discurso mais citado, no dia seguinte a Bush ter falado no mesmo púlpito: “O diabo esteve aqui ontem e ainda cheira a enxofre”. A frase correu o mundo e ajudou a fixar uma narrativa de confronto, dentro e fora do país, com um inimigo externo útil e fácil de nomear, a América.

Petróleo, petróleo e mais petróleo

Em 2007, o governo venezuelano reforçou o controlo estatal sobre o petróleo, revertendo passos anteriores em direcção à privatização e obrigando empresas estrangeiras a aceitar participações minoritárias em novas joint ventures dominadas pela petrolífera estatal. Quando as gigantes Exxon Mobil e ConocoPhillips recusaram, Chávez confiscou activos das duas empresas. A decisão foi popular internamente e fortaleceu a mão do Presidente.

Após a morte de Chávez, em Março de 2013, Nicolás Maduro, apresentado como seu protegido, prosseguiu a mesma linha, com o país a entrar em anos de isolamento crescente e de punição por parte dos Estados Unidos. As sanções dos Estados Unidos à Venezuela foram-se adensando ao longo da última década, atingindo responsáveis do regime e sectores-chave como o petróleo, com Washington a justificar a medida com a erosão democrática e violações de direitos humanos — e Caracas a descrevê-la como um cerco económico. Nesse caminho, a Venezuela passou a depender cada vez mais de rivais de Washington, incluindo Rússia e China, além de Cuba e sempre Cuba.

Nicolás Maduro denuncia “pirataria” dos EUA e diz que não vai parar o comércio de petróleo

A tensão voltou a subir com Donald Trump, mais até neste mandato que no seu primeiro, que aponta a Venezuela como ameaça à segurança nacional, ligada à migração e ao tráfico de droga, e admite o recurso à força militar. Alguns dos seus conselheiros, incluindo o secretário de Estado Marco Rubio, defendem a remoção de Maduro como forma de aumentar a pressão sobre o governo cubano — também aqui, sempre Cuba. E essa pressão, agora, já não vive apenas de discursos e sanções no papel. Traduz-se em músculo no Caribe, numa presença naval e operacional reforçada, e numa linha de actuação que mistura “guerra às drogas” com estrangulamento financeiro do regime, sobretudo pelo lado onde mais dói, o petróleo que sustenta o Estado e compra lealdades.
 

Nas últimas semanas, a administração norte-americana apertou o cerco à chamada frota sombra venezuelana e a intermediários que levam crude venezuelano para fora do país, enquanto, no mar, as abordagens e apreensões de navios passaram a funcionar como aviso prático, e não apenas como ameaça abstracta. Do lado de Caracas, a resposta tem sido a previsível mistura de denúncia e desafio, com Maduro a falar em “pirataria” e a prometer proteger carregamentos, sabendo ele que cada barril que sai é receita e cada barreira que se levanta é também mensagem política para dentro: para as chefias militares, para a oposição, para o país inteiro.

 

Donald Trump fala em “bloqueio” ao petróleo e não afasta uma escalada militar contra a Venezuela 

No início deste ano, Trump colocou um porta-aviões em águas perto da Venezuela, posicionando-o para uma eventual ofensiva. O gesto lembrava o movimento feito há cerca de meio século, quando Dwight D. Eisenhower mobilizou um grupo de porta-aviões para um possível resgate de Nixon que nunca aconteceu. A diferença é que, desta vez, o porta-aviões não está ali para salvaguardar um vice-presidente encurralado, está ali para pressionar e encurralar um Presidente. A diferença é que, desta vez, a frota não é um plano de emergência, é um sinal político. Em 1958 e agora, o porta-aviões aparece quando Washington quer lembrar que aquele petróleo e aquela geografia não são um assunto interno de Caracas; são um problema estratégico. E quando o problema é estratégico os Estados Unidos preferem ser compreendidos à primeira.

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