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A opção "nuclear" da Europa contra os EUA: o que é a nova "bazuca" e o que acontece se for usada

21 jan, 22:00
Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, intervém no Parlamento Europeu (EPA)

Maior arma no arsenal da União Europeia ainda aguarda consenso, mas se for ativada poderá alavancar uma guerra comercial entre o bloco europeu e a superpotência do outro lado do Atlântico.

À medida que cresce a tensão entre os EUA e a Europa, cresce também a expectativa de se ver materializada a “bazuca” comercial anunciada esta segunda-feira pela União Europeia (UE).

Muito se fala de uma autêntica “bazuca”, mas afinal no que é que consiste o instrumento anti-coerção (ACI, na sigla em inglês) que pode vir a ser utilizado para pôr um travão às ameaças de Donald Trump?

O mecanismo, criado em 2023, permite à União Europeia cortar o acesso ao mercado único europeu, que representa aproximadamente 500 milhões de consumidores. O bloco pode fazê-lo limitando licenças comerciais e o acesso a concursos públicos, de acordo com a Euronews.

A criação do instrumento insere-se numa lógica mundial maior que é agora liderada pelas duas maiores economias do mundo: os Estados Unidos e a China. Ambas as potências têm feito dos seus interesses nacionais uma prioridade, mesmo que isso implique, no caso dos EUA, desfazer-se de uma relação pacífica com os seus aliados europeus.

Ao abrigo da legislação em vigor, a UE pode agir quando um país terceiro “aplica ou ameaça aplicar medidas que afetam o comércio ou o investimento europeu”, com o objetivo de impedir ou obter uma determinada decisão do bloco ou de um Estado-Membro.

A ameaça do presidente Donald Trump de impor tarifas a vários países europeus - que podem disparar de 10% para 25% no espaço de quatro meses -, se a Dinamarca não concordar em vender a Gronelândia até junho, parece cumprir os requisitos de um cenário de coerção.

A maior arma do arsenal europeu começou a ser ponderada quando, em abril, os EUA ameaçaram atingir Bruxelas com tarifas no chamado “Dia da Libertação”. Nessa altura, o bloco elaborou uma lista que elencava todos os produtos norte-americanos que seriam visados pela retaliação europeia, sendo que os estados governados por republicanos seriam os mais afetados.

Num dos momentos que já adivinhava o agravar das tensões transatlânticas, a UE declarou que iria atingir 93 mil milhões de euros em bens, entre eles o whiskey, componentes de aeronaves, cereais e aves de capoeira.

Nesse período a ideia de ativar o instrumento anti-coerção foi mencionada, mas nunca chegou a ser realmente considerada, por ser vista como uma opção “nuclear” que traria desarmonia às relações internacionais.

Com a estabilidade das empresas e do cenário geopolítico em mente, a União Europeia decidiu não retaliar, aceitando um acordo norte-americano que mereceu duras críticas por ser desequilibrado e inclinado a favor de Washington. O pacto em causa triplicou as tarifas sobre o bloco para 15% e reduziu para zero os direitos sobre bens industriais norte-americanos.

Nunca foi utilizada e esse é o maior perigo

A ativação da mais poderosa arma comercial europeia está dependente da aprovação da maioria dos Estados-membros e, enquanto tem sido firmemente incentivada por alguns chefes de Estado, como Emmanuel Macron, também tem desencadeado pedidos de cautela de países como a Alemanha e a Itália, sendo o Estado alemão um dos alvos das tarifas de Trump. 

O facto de nunca ter sido utilizada acarreta alguma incerteza, nomeadamente a nível das consequências políticas e geoeconómicas que poderia desencadear. Há quem diga mesmo que o verdadeiro poder da “bazuca” comercial está no seu efeito dissuasor, mostrando que a Europa está disposta a confrontar a superpotência norte-americana, sem entrar realmente em ação.

Ainda segundo a lei europeia, os efeitos são de tal forma determinantes que qualquer retaliação incluída no ACI deve ser “proporcional e não deve exceder o nível de prejuízo causado à União Europeia”.

Anteriormente, a UE também deu um passo atrás por recear que a aplicação de medidas tão fortes contra os EUA pudesse ter o efeito contrário e prejudicar ainda mais a relação transatlântica.

E se o mecanismo for ativado?

Apesar de não ser um recurso de primeira linha, pode estar perto de ser ativado caso o líder norte-americano não desista dos seus objetivos relacionados com a compra da ilha no Ártico. Se Bruxelas decidir a favor da utilização do mecanismo, a Comissão Europeia tem quatro meses para avaliar o caso e as ameaças em causa. Só depois disso é que os Estados-Membros devem decidir, por maioria qualificada, se ativam ou não o ACI.

Perante uma decisão favorável, inicia-se uma fase de negociações com o país em questão, neste caso os EUA. Num cenário em que o processo negocial não produza resultados, a UE pode somar às tarifas um outro leque de medidas.

O instrumento anti-coerção permite excluir empresas estrangeiras de concursos da União Europeia e suspender parcialmente a proteção dos direitos de propriedade intelectual.

O que pode significar o recurso à "bazuca"

A líder europeia, Ursula von der Leyen, já deixou claro que “a soberania e a integridade” dos territórios da Gronelândia e da Dinamarca “não são negociáveis”, uma ideia que tem sido corroborada pelos aliados europeus que, sublinham, não serão “chantageados”.

Uma aprovação da arma comercial europeia significaria o início de uma nova guerra comercial, que poderá começar já a 1 de fevereiro, caso Donald Trump não desista das tarifas.

Ao contrário do acordo UE-EUA assinado no ano passado, em que se considerou possível um compromisso, Copenhaga afirmou repetidamente que não há margem para negociação no que toca à soberania da Gronelândia, rejeitando qualquer hipótese de o território dinamarquês ser vendido aos EUA. 

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