Nos EUA, queimar a bandeira é, constitucionalmente, uma forma de expressão política protegida pela Primeira Emenda. O Presidente discorda. E recusa ser um ato ditatorial: “Sou um homem com bom senso, uma pessoa inteligente, não gosto de ditador, são sou ditador”
Donald Trump voltou a falar da palavra que o persegue: “ditador”. Numa conferência improvisada na Sala Oval, o Presidente norte-americano garantiu não ser um — “sou um homem com bom senso, uma pessoa inteligente” — mas confessou que há quem lhe diga que talvez “até preferisse viver sob esse regime”.
Ao mesmo tempo, assinou uma ordem executiva que visa perseguir criminalmente quem queime a bandeira americana durante protestos.
Trump lembrou as críticas às suas ameaças de enviar tropas para Chicago ou da mobilização da Guarda Nacional em Washington DC. “Dizem: liberdade, liberdade, ele é um ditador. Mas muitas pessoas estão a dizer: ‘Talvez gostássemos de um ditador’. Eu não gosto de ditador. Não sou ditador”, reforçou. E acusou os seus críticos de estarem “doentes” por o atacarem quando, segundo ele, apenas defende “as cidades mergulhadas na violência”.
Já sobre a intervenção em Los Angeles, no verão, deixou a ideia de que os militares devem ser chamados, mas não descartou avançar mesmo sem convite — a referência é clara a Gavin Newsom, Governador da Califórnia, que é um seu crítico. “Devem querer que lá estejamos, caso contrário vão só queixar-se de nós fazermos o nosso trabalho. Vamos ter de pensar nisso [avançar sem aval do Governador]”, afirmou.
Pouco depois, Trump mudou de tema, mas não de tom. Assinou uma ordem executiva que instrui procuradores federais a acusar quem queime a bandeira norte-americana, recorrendo a outros enquadramentos legais — desde perturbação da ordem pública até crimes ambientais. A decisão procura contornar o acórdão histórico de 1989, Texas v. Johnson, em que o Supremo Tribunal garantiu, por 5-4, que queimar a bandeira é uma forma de expressão política protegida pela Primeira Emenda.
Trump nunca escondeu a sua vontade de criminalizar o gesto. Em 2016 chegou a sugerir que os infratores perdessem a cidadania ou passassem um ano na prisão.
Hoje Trump sente que a opinião pública está consigo: uma sondagem da YouGov mostrou que 59% dos americanos consideram que queimar a bandeira durante protestos nunca é aceitável.