Donald Trump quis usar o poder económico dos Estados Unidos para fazer do Canadá um Estado-vassalo, mas está a conseguir precisamente o contrário. Sob a liderança de Mark Carney, a guerra comercial provocada pela Casa Branca está a servir para afirmar a autonomia, recusar exigências incompatíveis com a soberania de uma nação e reforçar a união de um país caracterizado por divisões. Num conflito desigual, o “grande norte branco” tem a estratégia certa para enfrentar o bully em Washington
Observadores atentos de sondagens sobre intenções de voto repararam que aconteceu, em 2025, o que pode ser considerado uma das maiores e mais rápidas inversões de probabilidade de vitória na corrida a um cargo de primeiro-ministro. Em janeiro desse ano, Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá na altura, anunciou a demissão após um longo período de desgaste político. Ao mesmo tempo, o Partido Conservador, liderado por Pierre Poilievre, dominava as sondagens com margens confortáveis de dois dígitos (entre 15% e 20% de vantagem). Tudo levava a crer que, após anos de domínio do Partido Liberal, o país iria mudar de governação.
No entanto, de fevereiro a março, Trump ameaçou aplicar tarifas de 25% e sugeriu, repetidamente, a anexação do vizinho a norte para este ser o "51.º estado". Durante o mesmo período, os Liberais elegeram Mark Carney, que assumiu o cargo de primeiro-ministro a 14 de março, convocando eleições antecipadas para 28 de abril. Carney, ex-governador do Banco do Canadá e do Banco de Inglaterra, apresentou-se aos canadianos como alguém capaz de enfrentar o Presidente dos Estados Unidos (EUA).
Entrando no mês de abril, a retórica vinda da Casa Branca desviou completamente o tema do debate político sobre problemas internos para a defesa da soberania e da estabilidade económica. As sondagens registam uma viragem acentuada na intenção de voto. O Partido Liberal venceu a eleição, conquistando uma maioria relativa de 169 lugares na Câmara dos Comuns e, num desfecho emblemático do terramoto político, Poilievre perdeu o seu lugar como membro do Parlamento.
O trajeto de Carney como primeiro-ministro fica desde então particularmente marcado pelo discurso no Fórum Económico de Davos sobre as “potências médias”. A base do que pode ser descrito como a Doutrina Carney: uma “rutura” estrutural na ordem internacional, marcada pelo fim da previsibilidade de uma ordem global assente em regras e pela necessidade de as potências médias reforçarem a sua autonomia. Estas potências podem alcançar a sua soberania económica, um dos pilares centrais da segurança nacional, através de alianças pragmáticas e horizontais com países que têm valores e interesses comuns.
Esse apelo ganha agora ainda mais força à luz do que aconteceu na semana passada. Questionado sobre a cessação das negociações sobre tarifas com a Administração Trump: “Por que razão parece que hoje o Mark Carney vai para a guerra?”, a resposta do primeiro-ministro foi: “Porque fomos atacados. Está-se em guerra quando se é atacado, e nós fomos atacados.”
Quando Trump ganhou em 2016, entrou na função presidencial com a intenção de destruir tudo o que Obama fizera, com a justificação egocêntrica de que era o “negociador exímio” e de que faria a América voltar a ser “respeitada” na cena mundial. Criou um novo acordo comercial com os vizinhos a norte e a sul, o USMCA / CUSMA (o Acordo Estados Unidos-México-Canadá), que foi assinado em 2018, mantendo o comércio livre de tarifas para a grande maioria dos bens comercializados na região.
Porém, o “grande negociador”, no seu segundo mandato, veio dizer que o primeiro acordo, de relembrar, assinado por ele, era mau e precisava de ser revisto, recorrendo, mais uma vez, ao argumento da “segurança nacional” para aplicar tarifas sobre o aço, o alumínio e os automóveis provenientes do Canadá.
Em julho deste ano, Trump determinou a aplicação de tarifas de 50% sobre cerca de 28 mil milhões de dólares canadianos em exportações, ao abrigo da Section 338 do Tariff Act de 1930, com a entrada em vigor agendada para meados de agosto. Porém, abriu-se uma janela de negociação de “última hora” para um novo acordo. Na véspera do prazo-limite, e quando esse acordo parecia iminente, as negociações colapsaram abruptamente, com o Canadá a acusar os EUA de imporem exigências “injustas e antieconómicas”.
Se a resposta canadiana pode parecer exagerada perante aquilo que, à partida, serão negociações tecnocráticas, veio entretanto a público um conjunto de exigências absolutamente inacreditáveis e inaceitáveis para qualquer país que não se queira tornar um “estado vassalo” da América Trumpista. Vale a pena enumerar algumas delas, por serem tão atrozes e abusivas:
- Poder de veto para impedir o Canadá, uma nação soberana(!), de desenvolver acordos comerciais com outras nações;
- alterações às regras linguísticas no Québec, uma região bilingue de francês e inglês;
- eliminação de quotas para o investimento em conteúdo cultural canadiano e para a sua disseminação;
- exigência de que o Canadá alinhe as suas tarifas com as políticas comerciais americanas;
- controlo conjunto da exploração de minerais críticos, desde a extração até à exportação;
A parte da alteração de regras linguísticas é particularmente perniciosa, uma vez que estas poderiam criar tensões na Província do Québec, que tem um passado de separatismo baseado na identidade. E isto acontece num momento em que surgem sinais claros de apoio, por parte de figuras próximas da Administração Trump, aos secessionistas da Província de Alberta.
Curiosamente, e tal como vimos nas eleições de 2025, o efeito acaba por ser o contrário do esperado por Trump e seus lacaios, com o fervor independentista a arrefecer no Québec, pelo menos até ao final do mandato do Presidente americano, e vozes influentes em Alberta a fazer-se ouvir para cancelar ou adiar o referendo sobre uma eventual saída da província do país.
O vosso cronista precisa de fazer um disclaimer ao encerrar esta crónica: eu sou um admirador do Canadá. Como nação que é um conjunto de províncias díspares; como comunidade cosmopolita, progressista, inclusiva e tolerante; como aliado construtivo e produtivo, particularmente e cada vez mais, com a União Europeia.
A título pessoal, a outra área de interesse é o hóquei no gelo. Um desporto menos conhecido e apreciado em Portugal, mas que é tecnicamente virtuoso e com uma acentuada componente física. Os canadianos adoram-no como o seu desporto-rei, demonstrando-o através de uma grande dedicação e animação, exatamente por ser um reflexo das raízes e cultura da nação: intensidade, perícia, resiliência e capacidade de luta. Um dos gestos defensivos recorrentes é “levantar os cotovelos”, de maneira a estorvar a ação do adversário direto.
Portanto, elbows-up, Canadá. A contenda é desigual, injusta e absurda. Porém, o “grande norte branco” tem de impor a sua força e vontade, mostrando ao bully na Casa Branca que escolheu novamente uma guerra que irá perder de forma decisiva e humilhante.
