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Petróleo primeiro, Venezuela depois

30 jan, 15:00

A Venezuela está no centro de uma dependência energética que não desapareceu, mudou de forma. Embora os EUA sejam hoje um grande produtor e exportador líquido de energia, continuam estruturalmente dependentes de tipos específicos de crude e de cadeias logísticas críticas. Essa vulnerabilidade cria incentivos a intervenções externas, como a captura de Nicolás Maduro. Mais do que um regime hostil, a Venezuela é, para Washington, uma fonte de matéria-prima crucial num sistema de refinarias sedento de petróleo pesado.

Num mundo intensamente consumidor de energia, petróleo é poder. Essa relação é antiga e bem compreendida pelas grandes potências. Por isso, a intervenção na Venezuela não surge como uma anomalia histórica. Não é a primeira vez que Washington, bem como outras potências, atua militarmente ou politicamente em contextos onde o petróleo está em causa, pelo que o caso venezuelano evidencia o contínuo peso da segurança energética na política externa.

Ainda assim, seria expectável que a expansão da extração de petróleo e gás a partir de rochas de xisto nos EUA (o chamado fracking), que transformou o país de importador em exportador de petróleo, tivesse garantido uma verdadeira independência face ao ouro negro externo. Se os EUA são hoje um dos maiores exportadores de petróleo, que interesse justifica uma intervenção polémica que os expõe ao escrutínio internacional?

A resposta assenta, em grande parte, no sistema de refinarias americano. Apesar de grande exportador, os EUA continuam dependentes de volumes significativos de petróleo pesado, precisamente do tipo produzido pela Venezuela. Segundo a AFPM (American Fuel & Petrochemical Manufacturers), cerca de 40% do petróleo refinado no país é importado para garantir a mistura adequada de crude necessária à produção de gasolina, gasóleo, combustível de aviação e asfalto. Isto acontece porque 70% da capacidade de refinação norte-americana, concentrada nas grandes refinarias da Costa do Golfo, foi concebida para funcionar de forma mais eficiente com petróleo pesado. Com a quebra dos fornecimentos do México e da Venezuela, os EUA passaram a importar sobretudo do Canadá.

Reconfigurar o sistema de refinação teria custos de milhares de milhões de dólares. A proximidade geográfica da Venezuela reduz riscos logísticos, diversifica fornecedores e limita vulnerabilidades numa cadeia de abastecimento cada vez mais exposta a choques e rivalidades geopolíticas.

Há, ainda, um segundo eixo estratégico incontornável: a disputa por influência na América do Sul. Ao reforçar a sua posição, os EUA reduzem a margem de manobra de outros atores externos que operam na região, nomeadamente a China, cuja economia altamente industrializada e consumidora de energia se tornou, nos últimos anos, um dos principais destinos do crude venezuelano. Ainda que esse petróleo represente apenas uma fração das importações chinesas, a Venezuela detém das maiores reservas de petróleo do mundo (apesar da atual produção reduzida). Assim, Washington enviou uma mensagem tanto a esses atores externos como à própria América Latina: a região continua a ter linhas vermelhas.

Esse potencial torna-se particularmente relevante num contexto em que o papel do dólar no comércio global de petróleo tem vindo a ser gradualmente enfraquecido, à medida que partes do mercado passam a recorrer a outras moedas, incluindo o yuan. Garantir influência sobre as reservas venezuelanas e, com isso, conter o peso de atores como a China ou a Rússia pode assim contribuir para reforçar o dólar como moeda de referência nos mercados energéticos.

Assim, a operação contra Maduro não visou “trazer democracia”, mas tomar controlo de um recurso essencial.

A energia continua a moldar o comportamento das grandes potências. Num sistema internacional com instituições fragilizadas, os Estados mais fortes tendem a agir não apenas para garantir recursos, mas para influenciar as condições de acesso e as regras do jogo. A Venezuela insere-se nessa lógica, evidenciando que não é apenas petróleo, é poder (sobre quem entra, em que termos e com que custos). É por isto, que Washington procura o petróleo certo, no sítio certo, para o sistema certo.

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