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Economista; Professor Associado e Coordenador na Universidade Europeia; Investigador Integrado no CETRAD

Powell é um travão que Trump não consegue contornar

6 ago 2025, 09:57

No turbilhão económico que os Estados Unidos estão a enfrentar desde a tomada de posse de Donald Trump, Jerome Powell destaca-se como símbolo de resistência racional. O presidente da Reserva Federal norte-americana não só manteve a política monetária inalterada na semana passada, como tem vindo a representar, de forma crescente, uma barreira institucional ao impulso errático de Donald Trump. Em tempos de tensão tarifária global, esta contenção é mais do que relevante. É essencial.

Trump exige cortes “drásticos” nas taxas de juro, convencido de que estimular o consumo resolverá o mal-estar económico que ele próprio alimentou com políticas comerciais imprevisíveis. Mas Powell resiste. E bem. Os indicadores são claros. O consumo interno está a abrandar, a inflação começa a subir, o emprego está a enfraquecer, e as vendas a retalho, apesar de um alívio pontual em junho, estão em queda. A confiança dos consumidores recua e as empresas têm dificuldade em definir orçamentos para 2026. Este ambiente, de incerteza, foi criado, em larga medida, pela administração Trump.

Powell tem razões sólidas para não ceder. A Reserva Federal tem um duplo mandato. Deve manter a inflação sob controlo e promover o pleno emprego. Mas com tarifas cada vez mais agressivas a pressionar os preços e a travar o investimento empresarial, qualquer corte de juros prematuro poderá amplificar o risco de estagflação, ou seja, de inflação elevada combinada com crescimento económico estagnado e desemprego crescente. É esse o cenário que a Fed quer evitar.

A liderança de Trump tornou-se uma variável desestabilizadora. As suas medidas protecionistas provocaram aumentos de preços que já afetam o poder de compra das famílias. Jerome Powell não o diz de forma directa, mas as entrelinhas do seu discurso e ações são inequívocas. Na perspetiva do presidente da Fed, se Donald Trump insistir em impor tarifas e simultaneamente em cortes de juros, estará a colocar os objetivos da Reserva Federal em rota de colisão.

Há também um dado político preocupante. Trump já ameaçou demitir Powell. Ainda que não o concretize e que esta demissão seja praticamente impossível de materializar, o simples facto de o dizer repetidamente mina a independência de uma das instituições mais cruciais da economia norte-americana. É um jogo perigoso. A confiança nos mercados e na moeda americana assenta, em parte, na credibilidade da Fed. E essa credibilidade está hoje a ser defendida por um homem que prefere a prudência à popularidade.

A ironia é que o travão ao populismo económico de Trump poderá vir, precisamente, de dentro dos Estados Unidos. Não da oposição política, mas de uma instituição técnica, moderada e resistente à pressão. Com o consumo a abrandar e as empresas a acusarem o impacto das incertezas, Powell não está apenas a defender o seu mandato. Também está a proteger a economia americana de um experimentalismo político de consequências imprevisíveis.

Em tempos de populismo económico, a independência da política monetária não é um detalhe técnico. É uma defesa da estabilidade. Por agora, Powell continua firme. E o resto do mundo agradece.

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