Casa Branca reescreve a história de 6 de janeiro e culpa a polícia pelo ataque ao Capitólio

CNN , Marshall Cohen e Kit Maher
7 jan, 10:56
Apoiantes de Trump invadem Capitólio

Administração Trump lançou um novo site onde afirma, sem fundamento, que a violência de 6 de janeiro de 2021 foi instigada pelas forças da ordem e pela então presidente da Câmara dos Representantes

A Casa Branca lançou, na terça-feira, um novo site com uma reformulação completa do registo histórico de 6 de janeiro de 2021, elogiando a multidão pró-Trump que invadiu o Capitólio dos EUA há cinco anos como “manifestantes pacíficos” que foram provocados pelas forças da ordem.

O novo site afirma, sem fundamento, que a violência de 6 de janeiro de 2021 foi instigada pelas forças da ordem e pela então presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, reinterpreta os invasores como as vítimas desse dia e retrata o presidente Donald Trump como um herói por ter concedido perdões abrangentes a quase 1.600 pessoas acusadas no âmbito do ataque mortal.

A página da Casa Branca sobre o ataque de 6 de janeiro de 2021 ao Capitólio dos EUA, tal como vista a 6 de janeiro de 2026. Casa Branca

Durante anos, Trump tem branqueado a história do 6 de janeiro, quando milhares de apoiantes seus invadiram violentamente o Capitólio na esperança de impedir o Congresso de certificar a vitória do presidente eleito Joe Biden. Mas o novo site vai notoriamente mais longe do que a retórica anterior de Trump, dando uma plataforma oficial da Casa Branca às suas alegações há muito desmentidas.

Um dos temas centrais do novo site é a alegação de longa data — mas completamente falsa — de Trump de que as eleições de 2020 foram roubadas. As suas mentiras repetidas sobre fraude eleitoral em massa foram a razão pela qual ele e os seus apoiantes quiseram impedir o Congresso de certificar os resultados a 6 de janeiro.

O diretor de comunicações da Casa Branca, Steven Cheung, sugeriu numa publicação no X que a página era uma “armadilha” para provocar indignação nos media. A CNN já noticiou anteriormente como a administração Trump está a usar o site oficial da Casa Branca para provocar os seus opositores.

Linha temporal seletiva

Uma “linha temporal” seletiva no site caracteriza o discurso de Trump a 6 de janeiro, no Ellipse, como tendo “detalhado provas de fraude eleitoral”, instando a multidão a marchar até ao Capitólio para protestar pacificamente e mostrar “força e determinação”. As suas alegações de fraude tinham sido desmentidas semanas antes de 6 de janeiro, e a linha temporal omite as partes do discurso em que Trump disse por duas vezes que os seus apoiantes deviam “lutar com todas as forças”.

A linha temporal ignora pormenores de manifestantes a partir janelas para entrar no Capitólio e a agredirem agentes da polícia. Em vez disso, afirma que o comício desse dia foi “ordeiro e animado, com bandeiras, cartazes e cânticos de apoio ao Presidente Trump”.

O site acusou, sem fundamento, a Polícia do Capitólio dos EUA de ter “deliberadamente escalado as tensões” nesse dia, quando multidões de apoiantes de Trump cercaram o complexo. Disse que as “táticas provocatórias” dos agentes, como o disparo de gás lacrimogéneo para a multidão, “transformaram uma manifestação pacífica em caos”, apesar de existirem extensas imagens de vídeo que mostram os manifestantes a atacarem a polícia primeiro.

A CNN contactou a Polícia do Capitólio dos EUA para obter comentários.

Além disso, a Casa Branca afirmou que apoiantes de Trump que morreram fora do Capitólio por causas naturais — um ataque cardíaco e um AVC — foram “mortos” nesse dia.

O site inclui a afirmação contestada de que “zero agentes das forças da ordem perderam a vida”.

O agente da Polícia do Capitólio dos EUA Brian Sicknick morreu de AVC um dia depois de ter sido agredido enquanto defendia o Capitólio, e o médico-legista de Washington afirmou que “tudo o que aconteceu” a 6 de janeiro influenciou a sua morte. Outros quatro agentes que responderam ao ataque ao Capitólio suicidaram-se nos meses seguintes. (O site da Casa Branca também não menciona que outros 140 agentes ficaram feridos nesse dia, alguns necessitando de hospitalização, e muitos sofreram mais tarde de stress pós-traumático.)

Culpar Pence e Pelosi

O site defende a alegação controversa de Trump de que o então vice-presidente Mike Pence “teve a oportunidade de devolver listas eleitorais contestadas às assembleias legislativas estaduais para revisão e descertificação”, durante a sessão conjunta do Congresso nesse dia, mas optou por não o fazer “num ato de cobardia e sabotagem”.

O próprio Pence, académicos de direito de todo o espectro político e muitos dos assessores e conselheiros de Trump, incluindo o secretário de Estado Marco Rubio, afirmaram que teria sido flagrantemente inconstitucional o então vice-presidente recusar-se a certificar as eleições de 2020.

Ao apresentar Pelosi, então líder democrata da Câmara, como a principal vilã de 6 de janeiro, o site da Casa Branca agarrou-se a comentários que ela fez num documentário da HBO, onde disse, sobre a segurança no Capitólio: “Assumo a responsabilidade por não os ter preparado para mais.”

“Eles claramente não sabiam, e eu assumo a responsabilidade por não os ter preparado para mais”, afirmou Pelosi no excerto.

Esta observação não prova a afirmação muitas vezes repetida de Trump, que repetiu num discurso na terça-feira, de que Pelosi recusou a sua suposta oferta de um destacamento antecipado de 10.000 soldados da Guarda Nacional. Pelosi sempre negou ter recebido tal oferta, e o presidente - não o presidente da Câmara - é o responsável pela Guarda Nacional de DC.

“6 de janeiro não foi uma aberração nem foi espontâneo. Foi o culminar de um ataque sustentado à verdade, ao Estado de direito e a um dos princípios mais sagrados da nossa democracia: a transferência pacífica de poder”, afirmou Pelosi numa declaração na terça-feira, na qual classificou 6 de janeiro como uma “tentativa de golpe” incitada por Trump para reverter as eleições de 2020.

O site da Casa Branca também retrata Trump como uma vítima que foi posteriormente “silenciada” nas plataformas de redes sociais e afastada por instituições financeiras, como a JPMorgan Chase e o Bank of America.

A Casa Branca argumenta que Trump “corrigiu uma injustiça histórica” ao perdoar milhares de pessoas acusadas ou condenadas no ataque ao Capitólio. No seu primeiro dia no cargo no ano passado, Trump perdoou quase todos os 1.600 manifestantes acusados e comutou as penas dos líderes de grupos extremistas de direita como os Proud Boys e os Oath Keepers.

O site classifica todos os 1.600 beneficiários de perdão como “americanos patriotas”. Esse grupo inclui membros de milícias da extrema-direita, pessoas condenadas por agredir agentes da polícia, alegados simpatizantes nazis e outros que levaram armas para o Capitólio.

*Daniel Dale e Annie Grayer contribuíram para este artigo

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