Quando o rio subiu oito metros em 45 minutos: as cheias mortais no coração do Texas
O rio Guadalupe transbordou de madrugada no centro do Texas, arrastando casas, carros e vidas. Pelo menos 32 pessoas morreram, entre elas 14 crianças. Dezenas continuam desaparecidas — entre elas, várias raparigas de um campo de férias cristão. O estado continua sob alerta, com mais chuva a caminho
Na madrugada de sexta-feira, o rio Guadalupe rompeu margens e mapas, galgando oito metros em apenas 45 minutos. O número de mortos já vai em 32. Entre eles, 14 crianças. E há ainda dezenas de desaparecidos. Foi no coração do Texas que a terra cedeu à água — e a água não devolveu nada.
As previsões não previram. O sistema de alertas não alertou. Rob Kelly, responsável máximo pelo condado de Kerr, admitiu que "não havia qualquer aviso local". Quando a chuva caiu, caiu com força. Quando o rio subiu, subiu em silêncio. E quando tudo se inundou, era já tarde.
A força da cheia empurrou carros, arrancou árvores, destruiu estradas. Uma das principais vias de acesso à região desapareceu. A rede de comunicações colapsou em vários pontos. Casas foram arrastadas, a eletricidade falhou, o abastecimento de água também.
No sábado de manhã, as equipas de resgate percorriam quilómetros de margens e entulho flutuante. Helicópteros, nadadores-salvadores, unidades da Guarda Nacional, da guarda costeira e das autoridades locais tentavam encontrar sobreviventes. Os números são vastos: 850 pessoas evacuadas, 237 resgatadas com meios aéreos, pelo menos oito feridos, e dezenas ainda por localizar.
A devastação estende-se para leste, onde novas frentes de chuva ameaçam repetir o cenário. Mais de 30 mil pessoas estão sob alerta de cheias repentinas em várias zonas do Texas central. A torrente que nasceu no condado de Kerr continua a descer o curso do rio.
As meninas de Camp Mystic
Entre os desaparecidos estão mais de duas dezenas de meninas que participavam num campo de férias cristão — Camp Mystic, fundado em 1926. A instituição, que acolhia esta semana cerca de 750 jovens, viu parte das suas instalações serem destruídas pela cheia. Há relatos de raparigas a flutuar pelo rio até outro campo, a quilómetros de distância.
Mas Camp Mystic é apenas uma peça. As mortes não se concentraram num único local. As vítimas estavam em casa, em carros, em acampamentos.
O xerife Larry Leitha confirmou, no sábado, que a maioria dos mortos já foi identificada — mas há ainda sete corpos sem nome, entre eles uma criança. As autoridades não divulgaram, para já, qualquer identidade.
A tragédia lembra, aos mais velhos, a cheia de 17 de Julho de 1987, quando o mesmo rio Guadalupe se ergueu com violência. Mas agora, em 2025, a catástrofe é amplificada por outros meios: as redes sociais transportam imagens do desastre, vídeos de salvamentos improvisados, pedidos de ajuda, fotografias de desaparecidos.
A resposta do poder político chegou depressa, mas sem consolo. O vice-presidente JD Vance chamou-lhe uma “tragédia incompreensível”. A primeira-dama Melania Trump disse estar "a rezar" pelos afectados. O tenente-governador Dan Patrick alertou para a continuidade do risco, com mais chuva prevista para sábado e domingo, "e uma vasta área do estado sob ameaça".
A água recuará. Mas deixará para trás famílias partidas, mapas redesenhados, e uma pergunta cada vez mais difícil de ignorar: como é que, num estado com milhões investidos em tecnologia, ninguém viu isto a tempo? Por agora, procura-se, contam-se corpos e contam-se ausências.
