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Chris e Emily saíram da América para viver em Portugal. Como ainda não têm visto, usam uma lacuna na lei para circular

CNN , Carole Rosenblat
12 mai, 18:07
Chris Prudhomme e Emily Wilson, juntamente com o seu cão, Denver, viajaram para Espanha, Turquia, Áustria, Inglaterra, Tailândia, Portugal e Califórnia, tudo isto no último ano. Cortesia de Emily Wilson
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Esta lacuna na lei permite aos americanos ficar na Europa (sem burocracia): o que é o "Shuffle Schengen" e quem o pratica

As viagens de Christina e Eric Schwendeman levaram-nos a percorrer a Ásia durante vários meses no início do ano passado. Na primavera, os reformados americanos regressaram à sua base, em Itália, durante alguns meses.

Mas devido às restrições de 90 dias de permanência, o casal passou os três meses seguintes a viajar por Inglaterra, Montenegro, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Turquia, Jordânia e Chipre. E depois regressaram A Itália em outubro, para aí passarem o resto do ano.

Os Schwendeman estão a fazer o que é conhecido como a "Schengen Shuffle", que se pode traduzir como "Baralho Schengen".

Em suma, trata-se de um não europeu se ir deslocando (em vez de fixar-se), de modo permanecer dentro dos limites que permitem aos cidadãos da maioria dos países passar um máximo de 90 em cada 180 dias no Espaço Schengen da Europa, atualmente composto por 29 países membros - incluindo Portugal.

Alguns praticantes do "baralhar" gostam da mudança constante de cenário, enquanto outros se deslocam principalmente por necessidade, na tentativa de garantir uma residência de longo prazo. Surgiram grupos no Facebook e outras comunidades online em torno do "shuffling", permitindo que expatriados não europeus que enfrentam todo o tipo de situações comparem experiências e partilhem estratégias. Manter-se dentro dos limites de 90 dias pode ser desafiante — e gratificante.

Os Schwendeman mudaram-se para Itália em 2022, vindos de Naples, na Flórida, nos Estados Unidos, com vistos de residência elegíveis, que estão abertos a candidatos que não vão trabalhar e que se mudam para Itália a longo prazo. Mas, após dois anos, o casal mudou de rumo.

Christina e Eric Schwendeman passam cerca de metade do ano em Itália. O resto do tempo, viajam de um lugar para outro, fazendo a «Manobra de Schengen» para se manterem dentro dos limites de permanência no Espaço Schengen. Foto: Christina e Eric Schwendeman

"À medida que as nossas autorizações de residência de dois anos estavam a expirar, decidimos que preferíamos alternar entre Itália e o resto do mundo, em vez de as renovar", diz Christina.

"Adoramos Itália, mas percebemos que ainda queríamos viajar durante a maior parte do ano. Continuamos a passar cerca de 170 dias por ano, quase todo o nosso tempo permitido no Espaço Schengen, em Itália."

O que é o Espaço Schengen?

Esse "tempo permitido no Espaço Schengen" tem um limite máximo de 90 dias em qualquer período de 180 dias — num total de cerca de 180 dias por ano.

O Espaço Schengen, criado em 1985, é um acordo entre os países membros que garante a livre circulação entre eles — o que significa que não há controlos nas fronteiras nem carimbos obrigatórios no passaporte.

A regra 90/180 (aplicável a cidadãos de países não membros) não exige que os 90 dias máximos no Espaço Schengen sejam consecutivos, mas implica um cálculo cuidadoso para garantir que os viajantes não permaneçam mais de 90 dias em qualquer período contínuo de 180 dias. Ao entrar no espaço, os funcionários analisam os últimos 180 dias a partir da data atual para garantir que os visitantes não excederam o total de 90 dias na zona.

Cidadãos de vários países que visitam a Europa, incluindo os americanos, têm muito mais facilidade do que pessoas de muitas outras nações. Embora os países europeus exijam que os cidadãos de alguns países obtenham um visto antes de entrar, este não é o caso dos cidadãos dos EUA.

Ao entrar pela imigração de um país Schengen vindo de fora da área, o passaporte do visitante é normalmente carimbado, as suas informações são introduzidas nos computadores do sistema de imigração e, em seguida, está tudo pronto. (Os carimbos serão em breve eliminados, e a entrada será monitorizada exclusivamente por via eletrónica através do Sistema de Entrada/Saída (EES) e do Sistema Europeu de Informação e Autorização de Viagem — ETIAS. Espera-se que este último seja implementado ainda este ano.)

Este carimbo permite uma estadia de até 90 dias na zona. Qualquer estadia mais longa arrisca uma multa de vários milhares de euros e uma proibição de até cinco anos.

Porquê "baralhar" viagens?

Chris Prudhomme e Emily Wilson, juntamente com o seu cão, Denver, viajaram para Espanha, Turquia, Áustria, Inglaterra, Tailândia, Portugal e Califórnia, tudo isto no último ano. Cortesia de Emily Wilson

Os americanos Emily Wilson e Chris Prudhomme, juntamente com o seu cão Norwich Terrier de sete anos, Denver, viajaram para Espanha, Turquia, Áustria, Inglaterra, Tailândia, Portugal e Califórnia, tudo isto no último ano. 

Uma das razões para as suas viagens é explorar novos lugares; outra é a falta de um visto que lhes permita permanecer em Portugal, o país que escolheram, por mais de 90 dias de cada vez. Tal como nos Estados Unidos, a maioria dos países limita o tempo que os visitantes podem passar no território sem obter um visto de longa duração. Estes vistos podem ser difíceis de obter e vêm acompanhados de regras, incluindo tempo limitado fora do país e implicações fiscais.

"Analisámos vistos de residência, como o D7 português, mas a burocracia é intensa e os requisitos limitam frequentemente a quantidade de tempo que se pode viajar para fora do país", conta Wilson.

"Percebemos que não estávamos prontos para assentar e que ainda não tínhamos explorado verdadeiramente grande parte da Europa. O 'shuffling' permite-nos explorar o mundo lentamente, de uma forma em que não tínhamos pensado antes de ouvirmos outras pessoas falarem sobre isso no YouTube e em grupos do Facebook."

Os desafios do "shuffling"

Seja por escolha ou por necessidade, os "shufflers" enfrentam uma série de desafios, incluindo a obtenção de vistos, a procura de habitação e a familiarização com novos locais a cada poucos meses.

Cindy Wilhelm, natural de Akron, Ohio, praticou o "shuffling" durante três anos antes de obter uma autorização de residência de longa duração em França.

Em setembro de 2023, enquanto ainda praticava o shuffling, criou o grupo do Facebook Schengen Shuffle Expats para partilhar experiências com outros praticantes. Os seus quase sete mil membros dão conselhos, partilham recursos e, por vezes, encontram-se durante as viagens.

Cindy Wilhelm, aqui em Roma, viveu em regime de "shuffle" durante três anos antes de garantir a residência de longa duração em França. Foto Cindy Wilhelm

Outros grupos do Facebook para quem vive em regime de "shuffle" incluem o Schengen Shuffle Sisters e o Schengen Shuffle Rentals.

Enquanto alguns compraram casas dentro ou fora da Zona Schengen, outros precisam de arrendamentos de curta duração em qualquer lugar.

Wilson e Prudhomme encontram alojamento usando recursos como o Airbnb, o Idealista, vários grupos do Facebook do Schengen Shuffle e grupos do Facebook para expatriados em cidades específicas, sites de house-sitting e através de serviços em espaços de coworking.

Encontrar conexões também pode ser um desafio para quem está sempre a mudar-se.

Para encontrar uma comunidade enquanto viaja, Wilhelm explica: "Procuro aventura. Faço passeios, ando muito a pé e viajo de comboio e autocarro. Vejo tudo o que posso. Faço conhecidos nos passeios e, às vezes, eles tornam-se amigos."

Wilson e Prudhomme adotam uma abordagem diferente.

"Começo por aderir a grupos do Facebook para o nosso próximo destino. Com o tempo, percebi que a verdadeira atividade acontece quando já se está no local, em espaços mais privados, incluindo aplicações como o WhatsApp, o Telegram ou o Meetup", conta Wilson. "Pode ser preciso um pouco de pesquisa para nos ligarmos aos canais de comunicação certos para um local específico."

Às vezes, escolhem deliberadamente destinos que sabem que terão muitas oportunidades sociais.

“Se queremos conexão, também procuramos pontos de encontro de nómadas. Em lugares como Saranda, na Albânia, ou Chiang Mai, na Tailândia, somos convidados para tomar café, fazer caminhadas ou participar de eventos quase diariamente. Como parte do nosso trabalho nos negócios remotos, juntámon-os a um espaço de coworking em Antália, na Turquia. Era uma mistura maravilhosa de locais e nómadas. Agora, levo em conta no meu planeamento o nível de vida social que desejo num determinado momento. Depois de estabelecer ligações, muitas vezes voltamos a encontrar as mesmas pessoas em diferentes partes do mundo, o que é sempre divertido.”

Manter-se a par dos limites do Espaço Schengen requer vigilância.

Embora a regra dos 90 dias dentro e 90 dias fora pareça uma conta simples, pode ser mais complicada do que se possa pensar. Os dias em que se viaja de um país para outro contam como dias inteiros em cada país.

Os "shufflers" deslocam-se para países não pertencentes ao Espaço Schengen

Ao viajar de qualquer país membro do Espaço Schengen para, por exemplo, a Sérvia, um país vizinho não pertencente ao Espaço Schengen, um dia de viagem conta tanto como um dia no Espaço Schengen como um dia na Sérvia. Como a Sérvia também limita as estadias para a maioria a 90 dias, é necessário um terceiro país para não exceder os 90 dias nem no espaço Schengen nem na Sérvia. É sempre melhor prever alguns dias extra de margem, para o caso de atrasos nos voos, erros de cálculo ou outros imprevistos.

Muitos "shufflers" encontram ajuda através de aplicações como a Schengen Calculator 90/180 e a Schengen Simple, ou de sites como o Visa-Calculator.

Base fixa ou sem amarras?

Os "shufflers" têm várias abordagens em relação a fazer as malas, à propriedade de bens e ao armazenamento das suas coisas.

"Viajo com tudo o que possuo, que é uma mala grande de porão, uma pequena mala de mão e uma mochila", diz Karen Severy, que vendeu a sua casa, mandou o seu único filho para a faculdade e está a realizar o seu sonho de longa data de viajar.

"Finalmente tive a liberdade de viajar a tempo inteiro. Não tinha meios para fazer isto com uma base fixa", declara Severy.

Kimberly Gibbons e a sua cadela, Rosie, estão a viajar e à procura da sua “casa para sempre”. Cortesia de Kimberly Gibbons

Para Kimberly Gibbons, ter crescido como "filha de militar da Força Aérea" significa que está habituada a mudar-se frequentemente.

"O plano foi sempre viajar seis meses por ano após a reforma: três meses fora e três meses em casa" em Raleigh, na Carolina do Norte. "Mas com os EUA a deslizarem para o fascismo, decidi partir e talvez encontrar o meu “lar definitivo”." Arrendou a sua casa por dois anos e agora planeia viajar durante esse tempo para conhecer o maior número possível de países.

Gibbons, que viaja com a sua mini Goldendoodle de cinco anos, Rosie, descobriu que fazer as malas é mais fácil com um carro.

"Comprei um carro na Alemanha através de uma empresa chamada CarTurf, que permite que não residentes 'possuam' um carro. Eles são essencialmente a empresa gestora, pelo que posso obter seguro e matrícula do carro."

Ainda assim, sem o guarda-roupa completo que costumava ter, aprendeu a adaptar-se. "Sinto falta de certas coisas, mas, no geral, percebi que posso viver uma vida confortável com menos."

Embora algumas pessoas com quem a CNN falou mudem constantemente de lugar, sem regressar a uma base fixa, outras, como os Schwendemans, compraram imóveis.

E embora a compra de um imóvel num país do Espaço Schengen não garanta necessariamente um visto que permita ficar mais tempo, oferece um local fixo para onde regressar e guardar os seus pertences pessoais.

Custos e benefícios

Muitos consideram que os custos de viver em vários locais são iguais ou inferiores aos de viver nos Estados Unidos.

Um bom transporte público e cidades onde se pode andar a pé eliminam frequentemente a necessidade de um carro, e as estadias temporárias eliminam os custos da hipoteca e da manutenção.

Alguns americanos que vivem em vários locais adquirem planos de seguro de saúde internacional, que ficam mais baratos ao escolherem uma cobertura mundial (excluindo os EUA, uma vez que isso faz com que as taxas aumentem significativamente).

Enquanto alguns praticantes de "shuffling" usam o rendimento da reforma para se sustentar, outros arrendam as suas casas ou trabalham remotamente.

"Alugar a nossa propriedade ajudou a pagar a maior parte das nossas contas", diz Wilson. "Também criei um site sobre viajar com animais de estimação, o que me manteve ocupada e ajudou-me a conectar-me com uma comunidade de outros viajantes com animais de estimação, mas não rendeu muito financeiramente."

Os seus planos passam também por lançar um negócio de consultoria que ajudasse as pessoas a planear viagens lentas de longo prazo e períodos sabáticos, e o seu marido está a trabalhar num empreendimento de automação empresarial.

Severy observa que o estilo de vida itinerante elimina "a enorme quantidade de papelada, burocracia e despesas associadas à obtenção de um visto de residência, bem como lidar com potenciais questões de residência fiscal".

Emily Wilson encontra outra vantagem: é incentivada a explorar.

"Se não fossem as restrições de tempo do Espaço Schengen, talvez não tivéssemos alargado os nossos horizontes a locais fora dos circuitos habituais, como a Albânia e a Turquia. Mal sabíamos nada sobre muitos destes países, mas acabaram por se tornar algumas das nossas experiências mais memoráveis."

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