A ação política de Donald Trump pode ser lida como a consolidação da desregulação prática na economia global. Um novo paradigma em que a economia global já não colapsa por choques externos. Colapsa por decisões por decisões políticas. Tarifas, ameaças comerciais, reversões estratégicas e sinais contraditórios deixaram de ser ruído político para se tornarem um sistema operativo alternativo da ordem económica mundial. Nesse sistema, a previsibilidade deixou de ser o princípio organizador. A regra passou a ser a exceção.
As tarifas são o exemplo mais evidente. A teoria da vantagem comparativa assenta na previsibilidade institucional e na estabilidade das regras do comércio internacional. Ao transformar tarifas em instrumentos dinâmicos de negociação (ativados, suspensos e reativados como extensão direta da política externa), Donald Trump não distorce apenas o comércio global. Ele desloca-o estruturalmente para um regime de desregulação contínua, onde as regras deixam de ser fixas e passam a ser contingentes ao momento político. O comércio internacional deixa de ser um sistema normativo e passa a ser um sistema reativo.
Essa lógica propaga-se para o núcleo financeiro da economia mundial. A inflação deixa de ser apenas consequência de choques de oferta ou procura e passa a incorporar um prémio estrutural de incerteza regulatória. Os bancos centrais são forçados a prolongar ciclos de taxas de juro elevadas não apenas por razões macroeconómicas clássicas, mas porque o sistema económico internacional se tornou menos previsível. O resultado é um encurtamento do horizonte de investimento, um aumento do custo do capital e uma desaceleração estrutural da formação de capital produtivo.
A energia amplifica e acelera este mecanismo. O Estreito de Ormuz torna-se mais do que um ponto estratégico: transforma-se num amplificador da desregulação global. Cada sinal de tensão na região reorganiza imediatamente os mercados de petróleo. Os combustíveis reagem em cadeia, o gás natural assume funções geopolíticas e a energia converte-se num canal direto de transmissão da instabilidade política para a economia real.
Neste ambiente, a desregulação prática não é apenas económica. Também é geopolítica. A Rússia de Vladimir Putin opera num sistema internacional fragmentado, onde a coordenação ocidental é menos previsível. A China de Xi Jinping enfrenta uma economia global menos integrada e mais transacional, onde os acordos são substituídos por renegociações permanentes. Regimes como o Irão ou a Coreia do Norte exploram precisamente essa erosão da previsibilidade para maximizar margem de manobra estratégica.
O padrão subjacente é consistente com a ideia da substituição da arquitetura de regras por uma arquitetura de exceções. Neste sistema, a maior parte dos agentes económicos deixa de investir para crescer e passa a investir para sobreviver à volatilidade regulatória. O cálculo económico deixa de ser a otimização de eficiência e passa a ser a gestão de risco político permanente.
O efeito agregado é profundo e cumulativo. A inflação mantém-se estruturalmente mais elevada, as taxas de juro permanecem acima do seu equilíbrio histórico, a produtividade global desacelera e as desigualdades económicas e sociais aprofundam-se. Os países mais vulneráveis sofrem primeiro através do custo da energia e do acesso ao financiamento. As economias desenvolvidas sofrem depois, através da erosão da confiança institucional e do aumento da instabilidade política interna.
A economia global deixa de operar como um sistema de regras e passa a operar como um sistema de exceções permanentes. E é precisamente essa transição que define o conceito de desregulação prática: não a ausência de regras formais, mas a sua constante reinterpretação estratégica.
A prazo, o que aconteceria à ordem mundial e à economia global se a previsibilidade deixasse de ser um pressuposto e passasse a ser uma variável política ativa? Donald Trump termina o seu mandato em 2028. Veremos se a desregulação que se está a tornar método termina com ele.
