"Chorei rios de lágrimas": mudou-se dos EUA para a Europa e achou que nunca se iria adaptar

CNN , Tamara Hardingham-Gill
17 jan, 12:00
Barbara Olpinski

Enquanto percorre a pé as montanhas do Baixo Beskid, na Polónia, Barbara Olpinski observa os picos e solta um suspiro de satisfação, como quem sente que finalmente encontrou o seu lugar.

Natural de New Jersey, Barbara tornou-se mais ativa do que nunca desde que ela e o marido, Marian – de nacionalidade polaca - se mudaram para este destino europeu há cinco anos. O casal passa grande parte do tempo a explorar trilhos e igrejas antigas pelo país.

Quando não estão a caminhar, viajam frequentemente de carro. Recentemente, conseguiram atravessar três países num só dia: foram tomar o pequeno-almoço à Roménia, passaram pela Hungria e jantaram na Eslováquia, antes de regressarem à Polónia.

“Há tantos sítios para visitar”, conta Barbara à CNN Travel. “Por isso, estou mesmo a aproveitar para sair, viajar e desfrutar destas paisagens absolutamente lindíssimas”.

Uma vida feliz

Barbara e Marian, casados desde 2009, estavam estabelecidos em Chicago até 2020 e assumiam que ficariam lá. “Achei sinceramente que iria passar o resto da minha vida nos Estados Unidos”, diz.

Marian, pediatra, passou anos a tentar obter a cidadania norte-americana e a validar as suas qualificações médicas.

Conheceram-se online, depois de descobrirem, através da base de dados de visitantes de Ellis Island, que tinham um antepassado em comum e encontraram-se pessoalmente pela primeira vez em 2003.

Marian, que ainda vivia na Polónia na altura, começou a viajar para os Estados Unidos para visitar Barbara, que trabalhava na área dos cuidados domiciliários. “Ele cuidava dos pequeninos e eu cuidava dos mais velhos”, recorda.

Em 2008, Marian iniciou uma especialização num hospital em St. Louis, onde o casal ficou sedeado, antes de se mudarem para Chicago, em 2011.

Barbara lembra-se da primeira visita que fez à Polónia nesses primeiros anos e de ter ficado surpreendida com o quão colorido tudo lhe pareceu. “Como cresci nos Estados Unidos, a única imagem que tinha da Polónia era filmagens antigas da guerra”, diz.

“Lembro-me de pensar… Eles têm árvores como em qualquer outro sítio. Não é tudo a preto e branco”.

Construíram uma vida feliz em Chicago, enquanto visitavam regularmente a família de Marian na Polónia. Em 2018, após a morte da mãe de Marian, compraram uma casa de férias na pequena aldeia de Wapienne, a cerca de duas horas a leste de Cracóvia.

A ideia era que fosse um local de encontro para amigos e família, não uma residência permanente.

Mas Marian estava a sofrer de esgotamento profissional e a lidar com problemas de saúde. Percebeu que “não queria terminar a sua vida em Chicago”, conta Barbara.

Começaram então a reavaliar tudo, chegando a ponderar uma mudança para o Equador ou para a Costa Rica, onde alguns amigos se estavam a instalar.

No auge da pandemia de Covid-19, em 2020, com o contrato de arrendamento da casa em Chicago prestes a terminar, perguntaram-se o que fazer a seguir.

“Pensámos: ‘Bem, temos aquela outra casa. Vamos para lá…’”, recorda Barbara. Colocaram a maior parte dos pertences - incluindo o carro - em armazém e viajaram para a Polónia, convencidos de que seria uma estadia temporária.

Mas isso mudou rapidamente. “Começaram a surgir oportunidades para o meu marido”, explica. Marian passou a ser muito procurado como especialista.

“As pessoas contactavam-no a dizer: ‘Precisamos de si…’. Tornou-se evidente que devíamos ficar por cá mais tempo.”

Uma grande mudança

“Apesar dos desafios, os pontos positivos são muito maiores”, diz Bárbara. (Barbara Olpinski)

Um ano depois, regressaram aos Estados Unidos para empacotar a casa, vender o carro e comprometer-se totalmente com a mudança para a Polónia.

Barbara, reformada desde 2020, achou a transição mais difícil do que o marido. “O maior desafio para mim foi adaptar-me à cultura”, confessa.

Os polacos tendem a ser “muito mais reservados com estranhos”, e as suas abordagens eram por vezes mal recebidas.

“Se somos demasiado sorridentes, acham que somos malucos… E eu, sendo de New Jersey, sou super extrovertida. Queria ligar-me às pessoas”.

Como falava pouco polaco, Barbara tentou usar a simpatia como alternativa. Mas isso acabou por “criar distância”.

“Pensava: ‘Não percebo porque é que as pessoas não reagem bem ao facto de eu ser aberta e bem-disposta’”, recorda. “E elas pensavam: ‘Ok, não sei o que se passa com esta mulher’”.

Sentia-se sozinha e muitas vezes deprimida. “Chorei rios de lágrimas”, diz. “Foi mesmo muito difícil… ‘Como é que alguma vez vou encaixar aqui? Onde é que encontro o meu lugar?’ Foi uma grande mudança.”

Em retrospetiva, sente-se culpada por não ter sido mais paciente quando Marian se mudou para os Estados Unidos anos antes e teve dificuldades com aspetos simples, como a comida americana. “Eu dizia-lhe: ‘Aguenta-te. É assim que é’”, brinca.

As coisas começaram a mudar quando começou a caminhar regularmente. “Deu-me mais oportunidades de estar na comunidade”, explica.

Barbara acabou por começar a fazer voluntariado com refugiados ucranianos na Polónia e lançou-se de corpo e alma no desafio de trabalhar com mulheres e crianças deslocadas.

A barreira da língua

“Apesar dos desafios, os pontos positivos são muito maiores”, diz Bárbara. (Barbara Olpinski)

Continua a aprender polaco - uma língua “mesmo muito difícil” - e tem dificuldades com a gramática, mas sente que evoluiu. “Não acho que alguma vez vá ser fluente, mas aprendi o suficiente para ser simpática”.

Ter uma amiga que falava inglês na aldeia ajudou imenso. “Ela foi incrível”, reconhece Barbara. Poder falar com alguém para além do marido e da cunhada “ajudou-me a ultrapassar a fase mais difícil”.

Do ponto de vista financeiro, ficar na Polónia faz sentido. O casal percebeu que o custo de vida é cerca de 50% mais baixo e que os cuidados de saúde e dentários são muito mais baratos.

“Estamos a ficar mais velhos”, diz. “Essas coisas pesam muito no orçamento.” As despesas mais baixas também lhes permitem viajar para visitar os 12 netos, que vivem no Ohio, Alemanha, Portugal e Polónia.

“Apesar dos desafios, os pontos positivos são muito maiores”, afirma.

Cinco anos depois, Barbara sente-se instalada e desenvolveu um profundo respeito pela cultura polaca.

“As pessoas aqui têm uma história longa”, diz. “Lembram-se das coisas e preservam-nas desde há muito, muito tempo… As pessoas amam o seu país. Têm orgulho nele. E isso sente-se”.

Ainda assim, sente falta de pequenos gestos de Chicago, como conversar com desconhecidos ou pagar um café a alguém no Starbucks - atitudes que, na Polónia, podem por vezes ser vistas como ofensivas.

Aquando da entrevista, Barbara preparava uma visita aos Estados Unidos e confessava estar “ansiosa por meter conversa com a senhora do Dunkin’ Donuts”.

Mas o ambiente político “tenso” durante as visitas deixa-a desconfortável. “Eu ia para casa a pensar: ‘Mal posso esperar por voltar e ver toda a gente’”, diz. “E depois havia interações estranhas e desagradáveis… Sinto que toda a gente está a tentar perceber de que lado estamos”.

Marian não a acompanhou desta vez, por se sentir “um pouco nervoso”, explica.

“Vamos aterrar em Chicago, onde há muita tensão. E ele disse: ‘Sabes que mais? Acho que vou ficar de fora desta’”.

Barbara não exclui um regresso definitivo aos Estados Unidos, mas encontrar um lugar acessível - e perto da filha, no Ohio - seria difícil. “O custo de vida e os cuidados de saúde vão manter-nos aqui, acredito eu”, afirma.

“Dá-nos a flexibilidade de viajar quando precisamos e quando queremos, sem os custos de uma casa e da saúde e tudo o que isso implica nos Estados Unidos”.

Apesar de a adaptação à Polónia não ter sido fácil, Barbara está grata por ter persistido. “Não foi nada fácil”, diz. “Foi uma grande mudança, mas foi uma boa mudança. Crescemos com isso. E estou grata”.

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