Enquanto percorre a pé as montanhas do Baixo Beskid, na Polónia, Barbara Olpinski observa os picos e solta um suspiro de satisfação, como quem sente que finalmente encontrou o seu lugar.
Natural de New Jersey, Barbara tornou-se mais ativa do que nunca desde que ela e o marido, Marian – de nacionalidade polaca - se mudaram para este destino europeu há cinco anos. O casal passa grande parte do tempo a explorar trilhos e igrejas antigas pelo país.
Quando não estão a caminhar, viajam frequentemente de carro. Recentemente, conseguiram atravessar três países num só dia: foram tomar o pequeno-almoço à Roménia, passaram pela Hungria e jantaram na Eslováquia, antes de regressarem à Polónia.
“Há tantos sítios para visitar”, conta Barbara à CNN Travel. “Por isso, estou mesmo a aproveitar para sair, viajar e desfrutar destas paisagens absolutamente lindíssimas”.
Uma vida feliz
Barbara e Marian, casados desde 2009, estavam estabelecidos em Chicago até 2020 e assumiam que ficariam lá. “Achei sinceramente que iria passar o resto da minha vida nos Estados Unidos”, diz.
Marian, pediatra, passou anos a tentar obter a cidadania norte-americana e a validar as suas qualificações médicas.
Conheceram-se online, depois de descobrirem, através da base de dados de visitantes de Ellis Island, que tinham um antepassado em comum e encontraram-se pessoalmente pela primeira vez em 2003.
Marian, que ainda vivia na Polónia na altura, começou a viajar para os Estados Unidos para visitar Barbara, que trabalhava na área dos cuidados domiciliários. “Ele cuidava dos pequeninos e eu cuidava dos mais velhos”, recorda.
Em 2008, Marian iniciou uma especialização num hospital em St. Louis, onde o casal ficou sedeado, antes de se mudarem para Chicago, em 2011.
Barbara lembra-se da primeira visita que fez à Polónia nesses primeiros anos e de ter ficado surpreendida com o quão colorido tudo lhe pareceu. “Como cresci nos Estados Unidos, a única imagem que tinha da Polónia era filmagens antigas da guerra”, diz.
“Lembro-me de pensar… Eles têm árvores como em qualquer outro sítio. Não é tudo a preto e branco”.
Construíram uma vida feliz em Chicago, enquanto visitavam regularmente a família de Marian na Polónia. Em 2018, após a morte da mãe de Marian, compraram uma casa de férias na pequena aldeia de Wapienne, a cerca de duas horas a leste de Cracóvia.
A ideia era que fosse um local de encontro para amigos e família, não uma residência permanente.
Mas Marian estava a sofrer de esgotamento profissional e a lidar com problemas de saúde. Percebeu que “não queria terminar a sua vida em Chicago”, conta Barbara.
Começaram então a reavaliar tudo, chegando a ponderar uma mudança para o Equador ou para a Costa Rica, onde alguns amigos se estavam a instalar.
No auge da pandemia de Covid-19, em 2020, com o contrato de arrendamento da casa em Chicago prestes a terminar, perguntaram-se o que fazer a seguir.
“Pensámos: ‘Bem, temos aquela outra casa. Vamos para lá…’”, recorda Barbara. Colocaram a maior parte dos pertences - incluindo o carro - em armazém e viajaram para a Polónia, convencidos de que seria uma estadia temporária.
Mas isso mudou rapidamente. “Começaram a surgir oportunidades para o meu marido”, explica. Marian passou a ser muito procurado como especialista.
“As pessoas contactavam-no a dizer: ‘Precisamos de si…’. Tornou-se evidente que devíamos ficar por cá mais tempo.”
Uma grande mudança
Um ano depois, regressaram aos Estados Unidos para empacotar a casa, vender o carro e comprometer-se totalmente com a mudança para a Polónia.
Barbara, reformada desde 2020, achou a transição mais difícil do que o marido. “O maior desafio para mim foi adaptar-me à cultura”, confessa.
Os polacos tendem a ser “muito mais reservados com estranhos”, e as suas abordagens eram por vezes mal recebidas.
“Se somos demasiado sorridentes, acham que somos malucos… E eu, sendo de New Jersey, sou super extrovertida. Queria ligar-me às pessoas”.
Como falava pouco polaco, Barbara tentou usar a simpatia como alternativa. Mas isso acabou por “criar distância”.
“Pensava: ‘Não percebo porque é que as pessoas não reagem bem ao facto de eu ser aberta e bem-disposta’”, recorda. “E elas pensavam: ‘Ok, não sei o que se passa com esta mulher’”.
Sentia-se sozinha e muitas vezes deprimida. “Chorei rios de lágrimas”, diz. “Foi mesmo muito difícil… ‘Como é que alguma vez vou encaixar aqui? Onde é que encontro o meu lugar?’ Foi uma grande mudança.”
Em retrospetiva, sente-se culpada por não ter sido mais paciente quando Marian se mudou para os Estados Unidos anos antes e teve dificuldades com aspetos simples, como a comida americana. “Eu dizia-lhe: ‘Aguenta-te. É assim que é’”, brinca.
As coisas começaram a mudar quando começou a caminhar regularmente. “Deu-me mais oportunidades de estar na comunidade”, explica.
Barbara acabou por começar a fazer voluntariado com refugiados ucranianos na Polónia e lançou-se de corpo e alma no desafio de trabalhar com mulheres e crianças deslocadas.
A barreira da língua
Continua a aprender polaco - uma língua “mesmo muito difícil” - e tem dificuldades com a gramática, mas sente que evoluiu. “Não acho que alguma vez vá ser fluente, mas aprendi o suficiente para ser simpática”.
Ter uma amiga que falava inglês na aldeia ajudou imenso. “Ela foi incrível”, reconhece Barbara. Poder falar com alguém para além do marido e da cunhada “ajudou-me a ultrapassar a fase mais difícil”.
Do ponto de vista financeiro, ficar na Polónia faz sentido. O casal percebeu que o custo de vida é cerca de 50% mais baixo e que os cuidados de saúde e dentários são muito mais baratos.
“Estamos a ficar mais velhos”, diz. “Essas coisas pesam muito no orçamento.” As despesas mais baixas também lhes permitem viajar para visitar os 12 netos, que vivem no Ohio, Alemanha, Portugal e Polónia.
“Apesar dos desafios, os pontos positivos são muito maiores”, afirma.
Cinco anos depois, Barbara sente-se instalada e desenvolveu um profundo respeito pela cultura polaca.
“As pessoas aqui têm uma história longa”, diz. “Lembram-se das coisas e preservam-nas desde há muito, muito tempo… As pessoas amam o seu país. Têm orgulho nele. E isso sente-se”.
Ainda assim, sente falta de pequenos gestos de Chicago, como conversar com desconhecidos ou pagar um café a alguém no Starbucks - atitudes que, na Polónia, podem por vezes ser vistas como ofensivas.
Aquando da entrevista, Barbara preparava uma visita aos Estados Unidos e confessava estar “ansiosa por meter conversa com a senhora do Dunkin’ Donuts”.
Mas o ambiente político “tenso” durante as visitas deixa-a desconfortável. “Eu ia para casa a pensar: ‘Mal posso esperar por voltar e ver toda a gente’”, diz. “E depois havia interações estranhas e desagradáveis… Sinto que toda a gente está a tentar perceber de que lado estamos”.
Marian não a acompanhou desta vez, por se sentir “um pouco nervoso”, explica.
“Vamos aterrar em Chicago, onde há muita tensão. E ele disse: ‘Sabes que mais? Acho que vou ficar de fora desta’”.
Barbara não exclui um regresso definitivo aos Estados Unidos, mas encontrar um lugar acessível - e perto da filha, no Ohio - seria difícil. “O custo de vida e os cuidados de saúde vão manter-nos aqui, acredito eu”, afirma.
“Dá-nos a flexibilidade de viajar quando precisamos e quando queremos, sem os custos de uma casa e da saúde e tudo o que isso implica nos Estados Unidos”.
Apesar de a adaptação à Polónia não ter sido fácil, Barbara está grata por ter persistido. “Não foi nada fácil”, diz. “Foi uma grande mudança, mas foi uma boa mudança. Crescemos com isso. E estou grata”.