Epstein já foi um "fantastic guy", mas agora é só o "recrutador" a quem Trump disse "fora". Mas será que (até) a MAGA compra isto? "Não", dizem as sondagens

1 ago 2025, 18:37
Donald Trump e Jeffrey Epstein (Getty Images)

O discurso, ou falta de discurso, de Donald Trump em relação aos chamados “ficheiros Epstein” começa a pesar no eleitorado mais fiel. Apesar de manter uma base sólida entre os republicanos, as últimas sondagens e episódios recentes, como as declarações controversas de Elon Musk — que colocou Trump entre os “clientes” —, mostram que o escândalo pode estar a abrir fissuras profundas no mundo MAGA. E isso é um desafio para o “outsider” que prometeu “drenar o pântano”

A relação entre Donald Trump e Jeffrey Epstein voltou a emergir, não por novas revelações, mas pelo peso do silêncio, ou dos já habituais flic flac à retaguarda do presidente. 

As sondagens mais recentes indicam que, para parte do eleitorado republicano, o incómodo cresce - embora o edifício principal do apoio a Trump permaneça sólido. A última sondagem da Quinnipiac University, divulgada em julho, revela que só 40% dos republicanos aprovam a forma como o Presidente dos Estados Unidos tem gerido o caso Epstein. Entre os autodenominados “MAGA Republicans”, o apoio sobe ligeiramente para 43%, mas mesmo assim sinaliza uma erosão numa das bases mais leais do presidente.

Em paralelo, um inquérito do Washington Post mostrou esta semana que apenas 38% dos eleitores republicanos aprovam a conduta de Trump relativamente a este escândalo. O Wall Street Journal, que realizou um inquérito nacional dias após o reacender mediático do caso, concluiu que a taxa de aprovação geral do Presidente se mantém nos 46%. Ou seja, a popularidade geral resiste, mas surgem sinais evidentes de fadiga dentro da base.

Segundo analistas da Quinnipiac, esta fissura no apoio absoluto, que marcou a era Trump, é particularmente relevante porque não se trata de contestação externa, mas interna. São republicanos que continuam a apoiar a política económica ou a gestão da imigração, mas hesitam perante o silêncio e as respostas evasivas sobre Jeffrey Epstein.

Durante uma viagem presidencial a bordo do Air Force One, em julho de 2025, Trump respondeu a perguntas de jornalistas sobre a sua relação com Epstein. Alegou que o afastamento se deveu ao facto do milionário (preso em julho de 2019 e encontrado morto na cela em agosto do mesmo ano) ter contratado funcionárias do clube Mar-a-Lago, propriedade de Trump, sem permissão. “Havia pessoas que trabalhavam no spa e ele contratou-as. Eu disse-lhe ‘não queremos que tires o nosso pessoal’ e ele fez novamente. E eu disse-lhe: 'fora daqui’.”

Quando questionado se uma dessas pessoas seria Virginia Giuffre - a mulher que denunciou Epstein por abuso quando tinha 17 anos - Trump respondeu: “Acho que ela trabalhou no spa. Ele roubou-a. E, a propósito, ela não teve queixas contra nós, nenhuma.” Estas declarações, registadas por repórteres do ABC News e da CNBC, confirmam uma estratégia clara do Presidente: desviar o foco do conteúdo dos ficheiros para o comportamento de Epstein como “recrutador”.

A ligação entre Trump e Epstein remonta à década de 1990. Registos fotográficos e testemunhos colocam-nos juntos em festas em Palm Beach e Nova Iorque. Em 2002, Trump declarou à New York Magazine: “Conheço o Jeff há 15 anos. É um tipo fantástico. Ele gosta de mulheres bonitas tanto quanto eu. E muitas delas são jovens”. 

Contudo, com a detenção de Epstein em 2019, Trump passou a distanciar-se. Afirmou não ser “fã” do magnata, disse que não falava com ele “há cerca de 15 anos” e que proibira Epstein de entrar em Mar-a-Lago. “Tivemos uma rutura. Muito antes do problema se tornar público”, assegurava Trump. Desde então, descreveu o caso como uma “caça às bruxas”, sublinhando: “Esses ficheiros eram geridos pela pior escória da Terra. Se tivessem algo sobre mim, assumo que já teriam divulgado”.

Mas os chamados “ficheiros Epstein” - um vasto conjunto de documentos judiciais, registos de voos, agendas, transcrições e listas de nomes - continuam em grande parte sob sigilo, protegidos por decisões judiciais e pedidos de confidencialidade. O Departamento de Justiça norte-americano arquivou recentemente uma investigação interna ao suicídio de Epstein na prisão, sem apresentar novas conclusões.

Para a opinião pública, essa falta de transparência alimenta especulação e desconfiança. E para o eleitorado MAGA - historicamente desconfiado das instituições, das elites e dos “intocáveis” - o silêncio começa a soar a cumplicidade. Em junho, por exemplo, um inquérito da Impact Research revelou que 68% dos eleitores de Trump acreditam que “a maioria dos políticos é corrupta ou apenas defende os seus próprios interesses”. Entre os apoiantes de Kamala Harris, opositora democrata e derrotada eleitoral, o valor desce para 57%. A diferença é expressiva.

Este caso de Epstein difere de outras controvérsias da presidência Trump porque não é uma divergência meramente política ou ideológica - como aconteceu com a política comercial ou os ataques a Teerão -, mas uma ferida reputacional, alimentada pela perceção de que os “poderosos” jogam segundo regras diferentes.

Nesse contexto, circulou recentemente nas redes sociais um rumor que teve impacto: Elon Musk, após desentendimentos com Trump e a sua saída da administração presidencial, sugeriu, numa troca de mensagens, que o nome de Trump constava entre os alegados abusadores nos ficheiros Epstein - mensagem que Musk entretanto apagou e relativizou horas depois. Apesar de Musk não ter apresentado provas, o episódio reforçou a ideia de que os ficheiros são um “segredo obscuro” e uma ameaça para muitos dentro do círculo Trump.

Joe Rogan, podcaster influente entre os seguidores MAGA, chamou ao caso “uma linha na areia”: “Isto não é sobre política. É sobre justiça. E todos sabemos que há gente que joga com outras regras”. Estas palavras refletem uma inquietação crescente entre os eleitores que, apesar de continuarem a apoiar Trump em temas chave, começam a exigir mais transparência e respostas.

Trump, que nunca foi eleito como conservador clássico mas como agitador e outsider, construiu a sua campanha na promessa de “drenar o pântano” - um sistema corrupto e autoimune. Agora, já dentro da máquina do poder - pela segunda vez -, é pressionado a cumprir essa promessa. Os números mostram que o apoio persiste, mas as dúvidas não se dissipam. E, mesmo as maiorias mais ruidosas, um dia, podem querer respostas.

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