Nem a base de Diego Garcia (no Índico) nem a de Fairford (Inglaterra), a principal base avançada de operações para bombardeiros estratégicos dos EUA na Europa, foram utilizadas no ataque pontual com bombardeiros B-2 aos locais nucleares iranianos em junho passado. Os bombardeiros furtivos realizaram então uma viagem de ida e volta de cerca de 37 horas a partir da sua base no Missouri
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, bloqueou um pedido do presidente dos EUA, Donald Trump, para permitir que forças norte-americanas utilizassem bases aéreas no Reino Unido durante qualquer ataque preventivo ao Irão, afirmando que tal poderia violar o direito internacional, segundo múltiplas notícias na imprensa britânica que citam fontes governamentais.
De acordo com o The Times de Londres, que noticiou primeiro a divergência sobre o acesso às bases, Starmer recusou a utilização da RAF Fairford, em Inglaterra, e de Diego Garcia - território ultramarino britânico no Oceano Índico - para qualquer ataque ao Irão.
As duas bases têm servido há muito como importantes pontos de apoio militar dos EUA no estrangeiro para operações longe do seu território, sendo Diego Garcia um aeródromo fundamental para a frota de bombardeiros pesados norte-americanos.
O The Times refere que o Reino Unido está preocupado com o facto de permitir aos EUA a utilização das bases “constituir uma violação do direito internacional, que não faz distinção entre um Estado que executa o ataque e aqueles que o apoiam se estes tiverem ‘conhecimento das circunstâncias do ato internacionalmente ilícito’”.
O The Times citou fontes do governo britânico. A BBC, o The Guardian e o The Telegraph publicaram posteriormente as suas próprias notícias sobre o bloqueio do acesso às bases pelo Reino Unido, citando igualmente fontes.
Os pedidos norte-americanos para utilizar bases britânicas para fins operacionais têm sido historicamente avaliados caso a caso, com critérios específicos mantidos confidenciais por razões de segurança ao abrigo de acordos de longa data.
“Todas as decisões sobre a aprovação da utilização de bases militares no Reino Unido por nações estrangeiras para fins operacionais têm em consideração o fundamento jurídico e a justificação política de qualquer atividade proposta”, escreveu o ministro dos Veteranos, Al Carns, em resposta a perguntas do deputado britânico independente Jeremy Corbyn, segundo um relatório de janeiro do UK Defence Journal.
Starmer e Trump mantiveram uma conversa telefónica na noite de terça-feira, com os comunicados a indicarem que ambos discutiram a paz no Médio Oriente e na Europa.
No dia seguinte, Trump recorreu à sua plataforma Truth Social para retirar o apoio a um acordo que previa a transferência da soberania sobre as Ilhas Chagos, o arquipélago no Oceano Índico que alberga a instalação conjunta de apoio naval EUA-Reino Unido em Diego Garcia, para as Maurícias, em troca de um arrendamento de 99 anos da base militar.
A CNN contactou a Casa Branca para obter comentários.
O Reino Unido separou as Ilhas Chagos das Maurícias antes de essa colónia alcançar a independência, algo que tem sido fonte de fricção diplomática e de várias batalhas legais com os habitantes locais que foram expulsos. Em 2019, o Tribunal Internacional de Justiça decidiu que o Reino Unido deveria devolver as ilhas “o mais rapidamente possível”, para que pudessem ser descolonizadas.
Um acordo para a sua devolução tem vindo a ser analisado pelos canais governamentais britânicos desde então, com Londres a argumentar que um compromisso de arrendamento evitaria novas e dispendiosas batalhas judiciais, provavelmente infrutíferas, mantendo ao mesmo tempo o acesso militar no Oceano Índico.
Depois de inicialmente se opor ao acordo Reino Unido-Maurícias, Trump afirmou no início de fevereiro que era o “melhor” que o país poderia obter nas circunstâncias.
Mas, à medida que os EUA reforçaram as suas forças na região para um possível ataque ao Irão, Trump inverteu a posição, afirmando numa publicação no Truth Social que Starmer está “a cometer um grande erro” ao concordar com o acordo de arrendamento com as Maurícias.
“O Primeiro-Ministro Starmer está a perder o controlo desta importante Ilha por causa de reivindicações de entidades nunca antes conhecidas. Na nossa opinião, são de natureza fictícia”, dizia a publicação de Trump.
Contudo, apenas um dia antes, o Departamento de Estado dos EUA emitiu um comunicado afirmando, em parte, que Washington “apoia a decisão do Reino Unido de avançar com o seu acordo com as Maurícias.”
Questionada sobre a discrepância entre a publicação no Truth Social e a declaração do Departamento de Estado, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que a publicação do presidente deve ser entendida como a “política” da administração Trump.
Na sua publicação nas redes sociais, Trump fez referência direta às duas bases aéreas britânicas, citadas pela imprensa do Reino Unido, como importantes num eventual ataque ao Irão.
“Pode ser necessário que os Estados Unidos utilizem Diego Garcia e o aeródromo localizado em Fairford para erradicar um potencial ataque de um Regime altamente instável e perigoso”, escreveu Trump.
Nem Diego Garcia nem Fairford, a principal base avançada de operações para bombardeiros estratégicos dos EUA na Europa, foram utilizadas no ataque pontual com bombardeiros B-2 aos locais nucleares iranianos em junho passado. Nesse caso, os bombardeiros furtivos realizaram uma viagem de ida e volta de cerca de 37 horas a partir da sua base no Missouri.
Contudo, analistas antecipam que qualquer novo ataque dos EUA ao Irão poderá ser uma campanha muito mais prolongada, possivelmente de várias semanas ou mais.
Numa campanha desse tipo, ter os B-2, bem como os bombardeiros B-1 e B-52, a operar a partir de bases situadas a milhares de quilómetros mais perto do Irão permitiria rotações mais rápidas para rearmamento e reabastecimento para novos ataques.
Embora os EUA possam ter acesso a outras bases em países aliados mais próximos do Irão, utilizá-las poderia colocar a sua valiosa frota de bombardeiros pesados ao alcance de eventuais ataques retaliatórios com mísseis iranianos.