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Comentador da CNN Portugal

Trump, Teerão e a ilusão da mudança

25 mar, 08:30
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Há uma ideia persistente, quase intuitiva, de que as guerras modernas acabam por punir os regimes que as provocam. Que a pressão externa, combinada com o desgaste interno, cria inevitavelmente o momento de rutura. No caso do Irão, essa expectativa ganhou força com a morte de Ali Khamenei e com os apelos diretos de Donald Trump à população para tomar o poder. Mas essa leitura ignora uma das dinâmicas mais constantes da história contemporânea: as guerras raramente derrubam regimes autoritários. Pelo contrário, tendem a consolidá-los. E, enquanto isso, quem paga o preço mais alto não são os líderes, mas aqueles que não têm como sair, os civis.

O que estamos a assistir no conflito entre os Estados Unidos, Israel e o Irão é precisamente o contrário da narrativa confortável que tantas vezes se constrói. Se hoje os combates cessassem, se o silêncio substituísse o ruído dos bombardeamentos, é provável que os vencedores não fossem aqueles que muitos imaginam. E, mais perturbador ainda, os perdedores seriam exatamente os mesmos de sempre: os civis.

No Irão, no Líbano, em Israel. Sobretudo os mais pobres, os que não têm como sair, os que não têm refúgio, os que não têm alternativa. Existe uma lei não escrita da guerra que se repete com uma consistência quase cruel. Quanto menor a capacidade económica, maior a exposição ao risco. Quem pode, foge. Quem não pode, fica.

E é precisamente neste ponto que a leitura política dominante começa a falhar.

Durante semanas, construiu-se a ideia de que o regime iraniano estaria à beira do colapso. A morte de Ali Khamenei, nesse enquadramento, seria o catalisador de uma revolta popular. Donald Trump chegou mesmo a apelar diretamente ao povo iraniano para tomar o poder, como se bastasse uma janela de oportunidade para que milhões saíssem à rua. Mas essa revolta não aconteceu.

E não aconteceu por uma razão simples, ainda que muitas vezes ignorada nos centros de decisão ocidentais. As sociedades não se mobilizam no vazio. Mobilizam-se quando acreditam que a ação tem um custo aceitável. No Irão de hoje, esse custo é simplesmente insuportável.

A memória das repressões recentes continua viva. A violência exercida pelo regime sobre protestos anteriores não foi esquecida. E, agora, soma-se um novo fator de medo. O risco de ser atingido não apenas pelo próprio Estado, mas também por ataques aéreos externos. Entre a repressão interna e o bombardeamento externo, a sociedade iraniana entrou num estado de paralisia.

O regime percebeu isso rapidamente. E agiu em conformidade. Presença reforçada nas ruas, intimidação explícita, ameaças diretas. A mensagem é clara. Qualquer tentativa de contestação será esmagada. E, num contexto de guerra, essa mensagem ganha ainda mais eficácia.

O resultado é paradoxal, mas não inesperado. Em vez de fragilizar o regime, a guerra contribuiu para o consolidar. Não apenas ao nível do controlo interno, mas também na sua própria estrutura de poder. A liderança tornou-se mais dura, mais ideológica, mais fechada. E, ao mesmo tempo, mais confortável.

Porque, do ponto de vista estratégico, o Irão não está necessariamente a perder. Pelo contrário, há sinais claros de que poderá estar a ganhar margem de manobra. O controlo sobre o Estreito de Hormuz aumentou, reforçando a sua capacidade de pressão sobre o sistema energético global. A subida do preço do petróleo criou uma fonte inesperada de receita. E, talvez mais surpreendente, começa a desenhar-se a possibilidade de alívio de sanções por parte dos Estados Unidos. Mesmo em plena guerra.

A possibilidade de libertação de cerca de 140 milhões de barris de petróleo iraniano, atualmente bloqueados, traduzir-se-ia num encaixe financeiro na ordem dos 14 mil milhões de dólares. Um valor que, em qualquer contexto, seria significativo. Em contexto de guerra, é decisivo.

Tudo isto conduz a uma conclusão desconfortável. Se o conflito terminasse hoje, a elite do regime iraniano, nomeadamente os círculos ligados à Guarda Revolucionária, teria argumentos sólidos para se considerar vencedora.

Curiosamente, ontem, os Estados Unidos avançaram com uma proposta estruturada de cerca de quinze pontos para a abertura de negociações com Teerão, procurando criar um enquadramento formal para uma eventual saída do conflito. Mas esta iniciativa parte de um pressuposto que, neste momento, não encontra correspondência na realidade. O Irão não tem hoje qualquer incentivo racional para se sentar à mesa, nem razões para confiar em Washington. Ainda há poucos meses, enquanto decorriam contactos e sinais de aproximação diplomática, foi alvo de ataques diretos. Do ponto de vista de Teerão, negociar sob pressão militar e com um histórico recente de duplicidade estratégica não é um caminho para a estabilidade, é um risco existencial.

E é aqui que entra a segunda dimensão desta crise. A diplomática.

Porque, enquanto os combates continuam, decorre em paralelo um processo difuso de contactos, mensagens e tentativas de aproximação. Não se trata de uma negociação clássica, estruturada, com uma mesa formal e um calendário definido. Trata-se de algo mais opaco, mais fragmentado, mais difícil de interpretar.

A chamada névoa da guerra não se aplica apenas ao campo de batalha. Aplica-se também à diplomacia.

Sabemos que existem canais. Países como o Paquistão, Omã, Qatar, Turquia e Egito têm funcionado como intermediários. Mensagens são transmitidas, posições são testadas, linhas vermelhas são exploradas. Há contactos entre figuras-chave, tanto do lado americano como do lado iraniano. Há envolvimento de estruturas políticas relevantes em Teerão.

Mas não sabemos, com rigor, se existe uma negociação no verdadeiro sentido do termo. E isso não é um detalhe.

Porque a ausência de clareza cria espaço para a manipulação da perceção. Cada lado constrói a sua narrativa. Cada declaração pública pode significar pouco ou o seu contrário. E, no caso de Donald Trump, esse problema amplifica-se. O seu histórico de posições contraditórias e mudanças rápidas de estratégia introduz um elemento adicional de imprevisibilidade. Ainda assim, há sinais que merecem atenção.

O papel crescente do Paquistão como potencial plataforma para negociações é um desses sinais. Os contactos ao mais alto nível, incluindo conversas diretas entre a liderança paquistanesa e a Casa Branca, indicam que existe uma tentativa séria de criar um espaço de diálogo.

Mais relevante ainda é a possibilidade de envolvimento de J.D. Vance. Num contexto político americano marcado por divisões internas sobre a guerra, a presença de uma figura mais cética em relação ao conflito pode alterar o equilíbrio dentro da própria administração. Tudo isto aponta para uma realidade complexa, longe das leituras simplistas.

Não estamos perante uma guerra clássica, com linhas claras entre vencedores e vencidos. Estamos perante um conflito que, ao mesmo tempo que destrói, também reorganiza equilíbrios. Que, ao mesmo tempo que fragiliza, também fortalece.

E, sobretudo, estamos perante uma guerra que expõe uma verdade incómoda sobre o sistema internacional contemporâneo. Os regimes adaptam-se. As elites sobrevivem. As estruturas de poder reconfiguram-se. Os povos, esses, pagam.

Talvez seja essa a única constante verdadeiramente estável em todo este processo. A ideia de que, independentemente do desfecho político ou diplomático, há uma camada da realidade que permanece inalterada. A dos civis que ficam, que resistem, que sobrevivem como podem. E que, no fim, raramente têm voz na definição da paz que os deveria libertar.

Se esta guerra nos ensina alguma coisa, é precisamente isso. Que nem sempre quem dispara ganha. E que nem sempre quem sofre perde. E talvez seja essa a conclusão mais difícil de aceitar.

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