Em vez de uma democracia vislumbra-se uma terceira república islâmica do Irão, que sucede à de Khomeini e de Khamenei. Mais militarizada, igualmente brutal, nada democrática
A guerra no Médio Oriente está em suspenso. Não terminou. Nenhuma das partes ganhou. Foi lançada com objetivos grandiosos: derrubar o regime iraniano, eliminar a sua capacidade nuclear e de mísseis, retirar-lhe qualquer possibilidade de condicionar a região através dos proxies. Não era apenas uma operação de contenção. Era uma tentativa de reconfiguração e uma oportunidade histórica para Israel decapitar um dos seus inimigos figadais.
O que se observa hoje não corresponde a essa ambição, por muito que o presidente dos Estados Unidos proclame vitória. O regime mantém-se, com os seus centros de decisão intactos. As capacidades militares foram atingidas, mas não desapareceram. No plano nuclear, o elemento central permanece: cerca de 440 quilos de urânio enriquecido a 60% continuam sob controlo iraniano. Esse facto, isoladamente, impede qualquer leitura de desmantelamento do regime.
A reabertura “controlada” do Estreito de Ormuz surge como o principal resultado político. Mas a navegabilidade não estava em causa antes do dia 28 de fevereiro. Os ganhos militares não produziram um resultado coerente com os objetivos definidos e redefinidos várias vezes. A discrepância é estrutural. Uma intervenção desenhada para alterar o equilíbrio regional termina com o adversário capaz de preservar os seus instrumentos essenciais. O Irão não venceu, mas resistiu o suficiente para impedir que a guerra fosse conclusiva.
Essa resistência traduz-se agora no plano negocial. Teerão não surge como parte vencida, mas como interlocutor que exige compensações e garantias contra novos confrontos. A posição relativa mudou. A guerra não eliminou a capacidade de pressão iraniana, apenas a reduziu sem a substituir por um novo statu quo aceitável para qualquer das partes.
As negociações em Islamabad serão fundamentais. Mas terão de alcançar os objetivos que não foram alcançados no terreno. O ponto decisivo continua a ser o programa nuclear. Se não houver uma limitação efetiva, o resultado ficará aquém do ponto de partida. Um conflito de grande escala que termina com o problema central intacto não corrige, agrava.
Mesmo numa leitura favorável a Washington, o balanço é pesado. Formaliza-se a reabertura de um estreito que estava aberto, enquanto o Irão demonstra que consegue condicionar esse espaço e extrair benefícios indiretos, seja através de concessões políticas, seja através do alívio de sanções. Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano, terá alguma margem de manobra negocial.
O custo humano foi elevado, com milhares de mortos, incluindo civis e crianças no Irão e no Líbano. As forças americanas registaram baixas. Embaixadas e bases no Médio Oriente sofreram danos significativos. Os impactos da crise energética não desaparecerão de um dia para o outro.
Os efeitos acumulam-se para além do campo militar. A posição internacional dos Estados Unidos não sai incólume. Sem chegar a invocar o Canal de Suez em 1956, torna-se evidente que o poderio militar norte-americano não foi suficiente para quebrar o regime dos aiatolas. A credibilidade estratégica degrada-se quando os meios empregues não produzem os resultados esperados e quando o principal rival, a China, é percecionada como a potência “de confiança”.
Os arsenais foram consumidos a um ritmo elevado. Os custos financeiros atingiram centenas de milhares de milhões. Os preços subiram, tanto nos Estados Unidos como fora deles. A economia global absorve mais um choque. A Rússia, por seu lado, beneficia de uma dispersão estratégica americana que lhe permite prolongar a ofensiva na Ucrânia durante mais tempo e com maior margem de manobra económica. A União Europeia e a NATO saem mais uma vez fragilizadas.
A leitura global sugere um cenário negativo mesmo para os mais acérrimos apoiantes do presidente dos Estados Unidos. A guerra não melhorou a posição relativa de quem a iniciou. A ideia de que foi perdida em múltiplas dimensões – moral, legal, política, económica, reputacional e estratégica – ganha consistência à medida que a poeira assenta. As negociações serão no mínimo instáveis. O Paquistão não medeia absolutamente nada sem o beneplácito da China. Os países do Golfo estão perante um pesadelo: um regime iraniano capaz de manter refém uma região e um modelo económico. E já ficou patente que o objetivo de Israel passa por uma tentativa de desorganização interna do Irão através da decapitação de lideranças e da criação de um vazio de poder, favorecendo uma potencial guerra civil e um conflito mais prolongado, que exporia os Estados Unidos a um pesadelo sem fim no Médio Oriente.
Em Israel, há quem fale de um desastre político, numa ausência de participação nas decisões centrais relativas à segurança nacional, apesar do desempenho militar ser descrito como eficaz. A separação entre eficácia operacional e direção política torna-se visível e difícil de gerir, sobretudo para um primeiro-ministro que faz depender a sua sobrevivência política de um clima de guerra permanente, e que tudo fará para que o cessar-fogo não seja alargado ao Líbano.
O essencial está à vista. O regime iraniano mantém-se, as suas capacidades não foram eliminadas, o programa nuclear continua ativo. A guerra não produziu a transformação que justificou a sua existência e em vez de uma democracia vislumbra-se uma terceira república islâmica do Irão, que sucede à de Khomeini e de Khamenei. Mais militarizada, igualmente brutal.
Trump encarna um estilo de política externa esquizofrénico, oscilando entre ameaças inflamadas e apelos súbitos à contenção. Esta duplicidade, ora incendiário ora bombeiro, não altera as realidades no terreno, mas perturba a perceção. Há quem invoque a teoria do louco, há quem invoque a loucura. Seja qual for o diagnóstico, não é tanto uma mudança material da ordem internacional, mas uma erosão da previsibilidade que a sustenta. Aliados e adversários continuarão a gastar mais energia a tentar decifrar Trump do que a analisar a sua política externa.