A antecipar a queda do regime "maligno" iraniano, a Europa arrisca-se a "compactuar" com uma violação do Direito Internacional semelhante à da Rússia na Ucrânia. Perante isso, a despreocupação europeia não só torna a "violação" de Putin "menos gravosa", como a transforma em apenas "mais uma"
Há exatamente dois meses, uma operação militar conduzida pelos EUA resultava na captura do antigo presidente venezuelano Nicolás Maduro. Este sábado, o mundo acordou, não para uma detenção, mas para a morte do líder supremo do Irão, Ali Khamenei, na sequência de uma vaga de ataques conjuntos de Israel e dos EUA contra Teerão, abrindo um precedente “perigosíssimo” para Vladimir Putin.
É o entendimento de Manuel Serrano, especialista da CNN Portugal em Relações Internacionais, que teme um “problema muito sério”, à medida que o direito internacional parece cair aos poucos por terra.
“Podemos reconhecer que o mundo mudou, mas isso não significa atirar porta fora o direito internacional, porque sem regras absolutamente nenhumas isto não vai correr bem”, alerta o também comentador da CNN Portugal.
É que “amanhã Vladimir Putin faz o que lhe apetece e nós não podemos dizer nada, porque perdemos toda a coerência”, sublinha.
Francisco Pereira Coutinho, especialista em Relações Internacionais, garante mesmo que já “ninguém nos leva a sério”. Perante a falta de prontidão de vários países - incluindo Portugal - em classificar a onda de ataques contra o Irão como uma “agressão”, é difícil manter a legitimidade “quando denunciamos a agressão russa, mas nós próprios compactuamos com violações a direitos internacionais semelhantes”.
Mas mais do que uma perda na capacidade argumentativa, a intervenção no Irão “torna a violação do presidente russo menos gravosa”, salienta o comentador da CNN Portugal.
O incidente assinala sobretudo o momento em que a ofensiva russa deixa de ser tratada como “a violação”, que tem vindo a ser discutida durante anos, e passa a ser apenas “mais uma”, destaca.
Europa "deixa de ter argumentos" contra Putin e contra Trump
Ao mesmo tempo que reconhece as consequências positivas de uma eventual queda de um regime “maligno”, Manuel Serrano condena aqueles que não entendem que a “destruição das bases que fundamentam o nosso sistema”, pode vir a trair as posições futuras do velho continente.
“Amanhã vai haver outro conflito, nós vamos estar do outro lado, como já tivemos no caso da Gronelândia, por exemplo, ou da Ucrânia com a Rússia, e não vamos ter argumentos e coerência para dizer que alguém não pode fazer algo, porque o que aconteceu no outro dia em Teerão foi o contrário.”
As reações e declarações de potências europeias têm contribuído precisamente para esse processo de perda de credibilidade, afirma o especialista. É o caso da Alemanha, que, pela voz do seu chanceler, Friedrich Merz, “disse basicamente que não se ia preocupar com interpretações legalistas do direito internacional”.
A ideia que fica, diz, é a de que temos de obedecer a Washington, mas se assim for “o que é que vai acontecer no futuro quando Donald Trump se voltar a virar para a Gronelândia e disser que os fortes mandam e os fracos obedecem?”
Para Manuel Serrano o desfecho deixa de ser assim tão difícil de adivinhar, tendo em conta que “nos pusemos numa posição extremamente complicada” - uma em que a Europa “será acusada de ‘double standards’, de ter uns valores para Nuuk, uns para Kiev e outros para outros lugares do mundo”.
“Isto expõe-nos a uma crítica de dois pesos e duas medidas”, completa Francisco Pereira Coutinho, reconhecendo que seremos acusados de tratar uns Estados de uma maneira e outros de outra, “quando as violações das regras são exatamente as mesmas”.
O especialista em Relações Internacionais lembra ainda que Portugal pode facilmente tornar-se num alvo, não estando livre dos “apetites” estrangeiros: “Estas regras destinam-se a proteger a soberania e a integridade territorial dos Estados, inclusive o nosso.”
Além do precedente a nível legal que esta guerra conjunta dos EUA e de Israel contra o Irão abre, as consequências de aceitarmos este tipo de intervenções “são muito complicadas a prazo”. “Teremos um mundo muito mais violento”, avisa Francisco Pereira Coutinho, uma vez que o argumento norte-americano assenta no ato de salvar vidas.
“O fim destas regras do direito internacional vai provocar ainda mais morte. Vamos ter ainda mais conflitos, porque os Estados podem entender que não gostam de um regime e, portanto, intervir. Ao fazê-lo podem invocar a proteção de direitos humanos ou outra coisa qualquer, como desculpa para intervenções militares”, justifica, acrescentando que o argumento de Putin não se distancia muito deste.
"Vladimir Putin intervém para dizer que vai proteger o povo russo no Donbass, que está a ser oprimido. É um argumento parecido", conclui.