Serviços secretos norte-americanos estão a ajudar a Ucrânia a matar generais russos. O que isto nos diz da guerra

6 mai, 10:00

O apoio da Inteligência dos EUA tem sido decisivo no campo de batalha e tem contribuído para a perda de moral das tropas invasoras

Os serviços secretos norte-americanos ajudaram o exército ucraniano a localizar e matar generais russos no campo de batalha. A informação foi avançada pelo The New York Times, que citou fonte oficial sob a condição de anonimato, sem especificar o número. Mas, de acordo com as autoridades ucranianas, já morreram 12 generais russos na frente de combate desde o início da guerra.

A mesma fonte explicou que a informação partilhada pelos EUA com o exército ucraniano assenta, essencialmente, na comunicação do que se passa no terreno e na antecipação dos movimentos das tropas russas, nomeadamente a localização dos postos de comando do invasor, que se altera frequentemente.

De acordo com o jornal, o apoio da Inteligência norte-americana tem sido decisivo no campo de batalha, uma vez que, partindo desta informação geográfica, as forças ucranianas conseguem localizar e atacar alvos previamente identificados. 

A publicação salienta mesmo que o fluxo de informação que está a ser partilhado pelos EUA à Ucrânia "tem poucos precedentes". O que explica então este apoio ímpar às tropas ucranianas? De acordo com a investigadora Diana Soller, especialista em relações internacionais, há vários fatores que motivam o envolvimento dos Estados Unidos.

Em primeiro lugar, começa por dizer, porque "os EUA tiveram, desde muito cedo, a perceção de que esta guerra iria mudar as fronteiras de segurança da Europa e a ordem internacional no geral". "Ou seja, a intervenção da Rússia na Ucrânia não está só ligada às questões regionais - também está ligada a uma questão mais vasta que tem a ver com o facto de a Rússia ser uma autocracia que tem uma aliança ilimitada com a China, que é vista pelos EUA como o maior inimigo que vão enfrentar nos próximos anos", explica.

Além disso, acrescenta, "parte da razão pela qual a Rússia está a travar esta guerra prende-se com o facto de querer ser vista no sistema internacional como uma grande potência". "A Rússia é o primeiro Estado que [desde a Guerra Fria] está disposto a usar a força para reaver as fronteiras. Se isso acontecer, terá implicações muito fortes na forma como a ordem internacional se vai reorganizar e nas regras que ditarão as relações entre os Estados daqui para a frente", observa.

Além disso, aponta, os EUA, conhecidos como "líderes do mundo livre", têm todo o interesse em lutar pelo reforço das democracias ocidentais, e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, tem insistido que esta luta pela liberdade da Ucrânia é também uma luta pelo direito a serem uma democracia.

Os EUA têm, por isso, um objetivo muito claro nesta guerra, e que já foi, aliás, mencionado pelo secretário de Estado da Defesa norte-americana, Lloyd Austin. "Que a Rússia saia desta conflito enfraquecida", lembra a especialista. 

"O que quer dizer que os EUA pretendem não só que a Rússia não ganhe a guerra, mas que quando terminar este conflito e quando se negociar a paz, a Rússia saia desta guerra como um Estado que já não tem poder para atuar no sistema internacional", explica.

A investigadora de relações internacionais afirma que, como os EUA não se querem envolver diretamente no conflito (por receio de que, se o fizerem, "a China ataque Taiwan no dia a seguir), optaram, desde o início do conflito, por "apoiar a Ucrânia por todos os meios exceto a intervenção militar".

A notícia avançada pelo The New York Times não é, por isso, motivo de surpresa, considera Diana Soller. "Muito provavelmente, os EUA têm fornecido dados de inteligência muito direta à Ucrânia. E admito que esses dados tenham sido usados não só para travar os contra-ataques, mas também para tentar desmoralizar e travar o exército russo."

O Departamento de Defesa dos EUA negou, entretanto, ter fornecido informações sobre a localização de generais russos no campo de batalha para que as forças da Ucrânia pudessem matá-los. O porta-voz do Pentágono, John Kirby, admitiu que é verdade que os Estados Unidos fornecem inteligência militar às forças de Kiev “para ajudar os ucranianos a defender o seu país”, mas a Ucrânia toma suas próprias decisões sobre se deve ou não atacar um líder russo.

"Não fornecemos inteligência sobre a localização de líderes militares de alto escalão no campo de batalha ou participamos nas decisões de direcionamento dos militares ucranianos”, disse Kirby, citado pela CNN Internacional  O Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca classificou a reportagem do New York Times como “irresponsável”.

Como funciona a partilha de informação dos serviços secretos?

Em declarações à CNN Portugal, o major-general Agostinho Costa explica que os serviços secretos norte-americanos utilizam sistemas de satélite e meios aéreos para localizar os postos de comando onde se encontram os generais russos, partilhando depois informação com o exército ucraniano, que bombardeia depois a respetiva zona.

Este trabalho de vigilância aérea no conflito em específico está nas mãos da NATO, sobretudo dos EUA, uma vez que as capacidades de vigilância do exército ucraniano "são limitadas", uma vez que não tem os meios necessários para o fazer.

Mas, de acordo com o especialista, esta estratégia de atacar os postos de comando "sempre se fez" em situações de guerra, uma vez que "a probabilidade de o comandante que lá está morrer é grande". O major-general salienta ainda que os russos também têm utilizado esta estratégia, quando, por exemplo, atacam depósitos de armas dos ucranianos.

A investigadora Diana Soller considera ainda que existe a possibilidade de haver espionagem no terreno: "Não há razão nenhuma para pensarmos que a inteligência no terreno é uma coisa que acabou."

A Rússia vai retaliar?

A especialista em relações internacionais sublinha que é a divulgação desta informação - ainda que a identidade da fonte oficial não tenha sido revelada - que pode desencadear uma resposta do lado russo. Mas a investigadora admite ter dúvidas de que as tropas de Moscovo tenham capacidade para retaliação contra os EUA.

"Os russos têm avisado diversas vezes que qualquer intervenção de atores estrangeiros na guerra poderia dar origem a uma retaliação, mas não houve nenhuma, pelo menos até agora, a não ser as [retaliações] económicas, como o corte do gás à Polónia e à Bulgária", lembra.

Mas, se a Rússia efetivamente decidir avançar com uma retaliação militar, a investigadora exclui a possibilidade de um ataque com arma nuclear - algo que tem sido apontado por muitos analistas, depois de o Kremlin ter anunciado que colocou as suas forças nucleares em alerta máximo.

Para a especialista, esta questão do nuclear parece mais uma "retórica de guerra para assustar o Ocidente, especialmente a Europa, do que propriamente uma ameaça real". Até porque "um ataque nuclear total seria suicida para a própria Rússia".

"Penso que a hipótese nuclear nao está efetivamente em cima das mesa, mas tem sido usada como um elemento dissuasor para que o Ocidente tema a Rússia", defende.

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