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Economista; Professor Associado e Coordenador na Universidade Europeia; Investigador Integrado no CETRAD

A China e a diplomacia do comércio em tempos incertos

18 fev, 16:39

A discussão sobre autonomia estratégica ganhou novo fôlego na Europa.

Christine Lagarde defende cadeias de abastecimento menos expostas a riscos externos e enquadra o comércio como matéria de segurança. O argumento ecoa uma ideia que ganhou tração nos Estados Unidos já durante a presidência de Donald Trump.

A interdependência, antes celebrada como garante de estabilidade, passa a ser apresentada como vulnerabilidade estrutural.

É inegável que a pandemia e a guerra na Ucrânia expuseram fragilidades reais. Também é verdade que dependências energéticas podem ser instrumentalizadas em contextos de conflito.

Ainda assim, transformar exceções dramáticas em regra permanente pode conduzir a um erro estratégico de grande escala.

A prosperidade europeia das últimas décadas assentou na vantagem comparativa e na especialização produtiva. Produzir internamente aquilo que outros fazem com maior eficiência implica custos elevados para consumidores e empresas.

O protecionismo tende a proteger setores específicos, mas raramente protege o poder de compra das famílias.

Enquanto a Europa debate a redução de dependências, a China anunciou a eliminação total de tarifas sobre importações provenientes de 53 países africanos com os quais mantém relações diplomáticas. A decisão sinaliza uma aposta clara na expansão do comércio e na cooperação económica. Num momento em que várias potências erguem barreiras, Pequim escolhe aprofundar pontes.

A China mostra ao mundo que é possível investir em autonomia estratégica e, simultaneamente, promover ativamente acordos e parcerias internacionais.

Perante o discurso sem esperança da Sra. Lagarde, o alento vem de dentro da União Europeia. Alemanha e China reforçaram compromissos de cooperação económica no final de 2025. A Volkswagen, símbolo da força industrial alemã, inaugurou nesse período um centro completo de investigação e testes fora da Alemanha, precisamente em território chinês.

É certo que o mundo enfrenta volatilidade crescente e riscos geopolíticos persistentes. Ainda assim, a narrativa de fragmentação inevitável pode tornar-se profecia autorrealizável.

A estabilidade global constrói-se com diversificação inteligente, mas também com diplomacia económica ativa. Índia, China e Mercosul continuam a negociar acordos de livre comércio, demonstrando que a integração não está condenada.

A China, ao abrir o seu mercado a dezenas de países africanos, reforça a ideia de que o comércio pode ser instrumento de equilíbrio e desenvolvimento partilhado.

Num contexto de tensões entre blocos, a escolha entre muros e pontes definirá a próxima década. Se a Europa prosperou quando acreditou na abertura, talvez a resposta não esteja em recuar, mas em cooperar com maior maturidade estratégica.

A estabilidade global exige prudência, mas também requer coragem estratégica para manter o comércio internacional, a vantagem comparativa e a especialização económica como eixos de confiança entre nações.

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