Portugal inaugura o ano eleitoral com a primeira volta das presidenciais a 18 de janeiro, mas essa está longe de ser a ida às urnas mais marcante do próximo ano
2025 pode não ter sido tão animado quanto o ano anterior em termos eleitorais. Ainda assim, houve 70 países a irem às urnas entre janeiro e dezembro. Na maioria dos casos, os resultados foram o que se previa: Daniel Noboa foi reeleito presidente do Equador e Friedrich Merz conduziu os democratas cristãos (CDU) de volta à chancelaria da Alemanha. Noutros, porém, a votações não seguiram o rumo antecipado.
Foi o caso da Austrália, onde o primeiro-ministro, Anthony Albanese, contrariou as sondagens e conduziu o seu Partido Trabalhista a uma surpreendente vitória, e também o caso do Canadá, onde o Partido Conservador perdeu uma eleição que lhe era atribuída à partida, sobretudo tendo acontecido após o presidente do país vizinho, Donald Trump, ter começado a referir-se ao país como o 51.º estado dos EUA.
No ano que acaba de arrancar, espera-se a mesma mistura de eleições previsíveis e outras de resultados surpreendentes. É bastante provável que os resultados da corrida à Duma (parlamento russo), até 20 de setembro, firmem a maioria do partido Rússia Unida, de Vladimir Putin. Bem antes, a 15 de março, também é quase certo que as legislativas do Vietname confirmem o poderio do Partido Comunista, que governa o país desde 1975.
Por outro lado, permanece em aberto a hipótese de o Sudão do Sul ir a eleições em dezembro, após conflitos internos e problemas constitucionais terem frustrado a ida às urnas programada para dezembro de 2024. Outras eleições com tudo em aberto são as do Bangladesh, logo a 12 de fevereiro, as legislativas na Etiópia, marcadas para 1 de junho, e as presidenciais na Gâmbia, a 5 de dezembro.
Para a Europa e o Ocidente, contudo, há outros plebiscitos agendados para este ano que prometem atrair mais atenção. Eis o que está em causa em sete deles.
Hungria. As mais importantes eleições em 25 anos
12 de abril
Numa anomalia estatística, nenhum dos 10 maiores países da União Europeia, que juntos representam mais de 80% da população do bloco, deverá ir às urnas em 2026. Mas isso não significa que as poucas eleições já marcadas em Estados-membros sejam de somenos importância – pelo contrário. Isso é particularmente verdade com a Hungria, sobre a qual paira uma grande questão: pode Viktor Orbán ser derrotado? E vai ser?
Pela primeira vez em 15 anos, desde que Orbán e o seu Fidesz chegaram ao poder, essa é uma distinta possibilidade. Há quem fale nas eleições mais importantes do país desde 1990 e a queda do império soviético. E é seguro dizer que poucos líderes europeus ficariam tristes com a sua partida. Próximo de Vladimir Putin e de Donald Trump, em década e meia, Orbán, em tempos jocosamente apelidado de "ditador" por um presidente da Comissão Europeia, transformou-se na pedra do sapato da UE, usando o seu poder de veto para bloquear debates e votações que exigiam a unanimidade dos 27, fosse sobre sanções à Rússia de Putin ou sobre a futura adesão da Ucrânia ao bloco.
Sob avisos e ameaças de Bruxelas por pôr em risco o Estado de Direito, Orbán também conseguiu, ao longo dos últimos 15 anos, consolidar o controlo sobre os tribunais, reguladores e instituições culturais húngaras e reescrever as leis eleitorais, redesenhando distritos, reduzindo o número de círculos eleitorais em Budapeste, mais favorável à oposição, e tornando mais fácil pedir recontagem de votos após idas às urnas.
Em 2022, nas últimas legislativas, o Fidesz conquistou 54% dos votos, a sua quarta supermaioria consecutiva de dois terços do Parlamento, o que lhe permitiu restringir ainda mais os direitos da comunidade LGBTQ+ e reforçar a censura do debate público, já antevendo uma possível derrota nas legislativas marcadas para 12 de abril deste ano.
A confirmar-se, essa derrota será possibilitada por Péter Magyar, antigo aliado de Orbán que cortou relações com o primeiro-ministro e o Fidesz há mais de um ano na sequência de um escândalo governamental, filiando-se no Tisza. Após a sua chegada, e num aparente sinal de insatisfação popular com o governo, o Partido do Respeito e da Liberdade conseguiu conquistar quase 30% dos votos nas eleições europeias de 2024.
Foi o melhor resultado de sempre para outro partido que não o Fidesz em quase duas décadas de corridas eleitorais na Hungria e a ela seguiu-se o lugar cimeiro para Magyar em sucessivas sondagens para as próximas legislativas, ainda que Orbán e o seu partido tenham vindo a reduzir a desvantagem, aproximando-se do Tisza e do seu candidato.
Na tentativa de reduzir ainda mais essa diferença, e enquanto continua a tentar reanimar a economia húngara duramente afetada pela invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, o primeiro-ministro anunciou nos últimos meses uma série de medidas económicas para agradar ao grosso dos eleitores que, segundo estimativas da S&P Global, correspondem a cerca de 2% da produção económica.
Na barricada oposta, vários partidos menores da oposição decidiram não avançar com candidatos às eleições de abril numa tentativa de reforçar a posição de Magyar e do Tisza, cuja pré-campanha se tem baseado numa plataforma anticorrupção e de responsabilidade política. Enquanto escrevemos esta antevisão, Orbán enfrenta enormes protestos exigindo a sua demissão, na sequência de um escândalo de abusos físicos e sexuais de crianças numa instituição correcional da capital.
Envolvido nas manifestações, Magyar acusa o ex-aliado tornado rival político de nada ter feito para proteger as crianças mais vulneráveis do país depois de, em 2024, a presidente da Hungria, Katalin Novak, e a ministra da Justiça, Judit Varga, terem sido forçadas a demitir-se por causa do indulto concedido a um homem condenado por abuso sexual de menores num orfanato público. Desde então, aponta o atual líder da corrida às legislativas, “todos os membros do governo Orbán ficaram do lado dos abusadores”.
Nas ruas de Budapeste, há quem acredite que o primeiro-ministro não vai sequer chegar a abril no poder. “Noutros países, todo o governo já teria caído por causa deste escândalo, aqui vemo-los agarrados ao poder com unhas e dentes – mas o governo vai cair”, dizia um manifestante à Associated Press em dezembro. Se não cair, abril deverá assistir a um promissor braço-de-ferro na Hungria, no que alguns analistas definem como o mais importante "teste à democracia" no país, ensombrado por receios de possível fraude eleitoral.
Colômbia. Adeus a Gustavo Petro, viragem à direita?
31 de maio (primeira volta)
Com a América Latina a virar à direita, como o comprovam a eleição de um defensor de Pinochet no Chile, de Javier Milei na Argentina e de Daniel Noboa no Equador, as eleições presidenciais colombianas serão um teste para o país mas não só. Gustavo Petro, o atual presidente e ex-guerrilheiro de esquerda, não pode recandidatar-se ao cargo, pelo que tudo está em aberto no arranque de 2026 – sobretudo depois de o senador da oposição Miguel Uribe Turbay, expectável candidato da direita à presidência, ter sido assassinado no verão passado por um jovem de 15 anos pago por sicários.
As eleições de maio e junho vão ter lugar perante um aumento das tensões políticas e da violência sectária no terceiro país mais populoso da América Latina, após Petro ter sido eleito com uma enorme taxa de popularidade em 2022 sob a promessa de cimentar a paz alcançada com o histórico acordo de 2016 com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), que veio pôr fim a meio século de guerra civil.
Os dados mostram que, só entre janeiro e março de 2025, o número de ataques contra as forças de segurança e civis, massacres, recrutamento de crianças por grupos armados, deslocamentos forçados e outros incidentes violentos aumentou 45% em comparação com o mesmo período do ano anterior. O aumento é atribuído à fragmentação da luta armada pós-FARC, com diferentes grupos a disputar territórios com lucrativas atividades de produção e tráfico de drogas. A Colômbia é a fonte de grande parte da cocaína que circula mundialmente e, nos últimos anos, a produção desta droga atingiu níveis recorde.
Ensombrado por escândalos de corrupção, falhanços na implementação do acordo de 2016 e pela tentativa de criar uma assembleia nacional constituinte para reescrever a Constituição, a reta final da presidência Petro tem sido marcada por um muito público braço-de-ferro com o presidente dos EUA, sobretudo por causa das pressões de Donald Trump ao governo venezuelano de Nicolás Maduro, que em meados de dezembro o levaram a avisar Petro que a Colômbia "pode ser o próximo alvo" da sua campanha.
O Pacto Histórico, partido de Petro, já nomeou o senador Iván Cepeda como o seu candidato presidencial. Entre os principais rivais deverão contar-se Sergio Fajardo, um centrista que já foi duas vezes candidato à presidência, e Abelardo de la Espriella, um advogado de direita do partido Defensores da Pátria que se proclama “fora do sistema” e que tem apostado numa campanha anticorrupção e em defesa dos “valores tradicionais” da família. Se nenhum dos candidatos obtiver uma maioria qualificada de votos a 31 de maio, os dois candidatos mais votados seguem para a segunda volta, que deverá ter lugar em meados de junho.
A cerca de meio ano da ida às urnas, há sondagens para todos os gostos e continua tudo em aberto. Um inquérito de opinião divulgado em novembro previa uma corrida renhida entre o esquerdista Cepeda e o centrista Fajardo, em empate técnico, com cerca de 24% de votos cada um. Semanas depois, outra sondagem antecipava resultados bem diferentes – quase 32% das intenções para o herdeiro de Petro, seguido de Espriella num distante segundo lugar (18,2%) e de Fajardo ainda mais longe em terceiro (8,5%). Tudo em aberto, portanto.
Arménia. À sombra de um "acordo de paz" falhado
7 de junho
Donald Trump gosta de se gabar de ter posto fim a várias guerras desde que regressou à presidência dos EUA há um ano, contando entre elas a guerra entre a Arménia e o Azerbaijão e o conflito entre as duas potências na província de Nagorno-Karabakh. Mas o facto é que, como noutros conflitos invocados pelo presidente norte-americano, o acordo de paz que impôs à força e que os dois países assinaram em março tem muitas pontas soltas.
“Temos um acordo muito abrangente”, disse Trump na Casa Branca, com o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, à sua direita, e o primeiro-ministro da Arménia, Nikol Pashinyan, à sua esquerda, no dia da assinatura do tratado. “É um acordo de paz. Não é um cessar-fogo. É um acordo de paz”, assegurou o presidente dos EUA. No dia seguinte, como relatado pela AFP em Yerevan, os arménios debatiam-se para entender o que o acordo significa para eles. "Estamos efetivamente a perder o controlo do nosso território”, dizia à data uma residente da capital. “É como se, no meu próprio apartamento, eu tivesse de pedir a um estranho para ir de uma divisão para a outra."
As eleições vão ter lugar um mês depois de Yerevan acolher a próxima cimeira da Comunidade Política Europeia. E se a generalidade dos plebiscitos costuma girar à volta de assuntos internos, as legislativas de 7 de junho na Arménia têm no seu cerne uma luta pela identidade e o lugar do país na Europa e no mundo, à sombra do conflito com os vizinhos azeris e do Acordo para a Paz e o Estabelecimento de Relações Interestatais desenhado pela administração Trump. Depois de 35 anos de conflito e mais de dois após o Azerbaijão ter atacado a república autónoma da Arménia, as lutas em Nagorno-Karabakh até podem ter amainado, mas à custa de quê e de quem?
Não só não é claro até que ponto é que a generalidade dos arménios apoia o acordo assinado por Pashinyan, como inquéritos recentes mostram que a sua taxa de popularidade é extremamente baixa – só 13% dos eleitores dizem confiar no atual primeiro-ministro. A boa notícia para o chefe do governo é que não só continua a ser a figura política mais consensual da Arménia, como o seu partido, o Contrato Civil, continua a ser a força política dominante no país.
Candidato à recondução, Pashinyan já prometeu trabalhar com o parlamento para fazer aprovar alterações à Constituição para criar o que chama de “quarta república fundada na paz”, com base no compromisso de aceitar a soberania da Arménia sob as fronteiras atuais e abandonar as aspirações para alargar esses limites territoriais – em teoria aprofundando a sua integração regional, dirimindo as tensões com os países vizinhos e reduzindo a histórica dependência económica e de segurança que o país tem da Rússia.
Do lado da oposição, uma panóplia de partidos maiores e menores oferecem outras visões e promessas de campanha – desde o Congresso Nacional da Arménia, liderado pelo primeiro presidente Levon Ter-Petrosyan, que promete construir uma “resistência nacional”, à aliança Hayastan, do segundo presidente, Robert Kocharyan, que recentemente criticou o atual governo e o acordo de paz com o Azerbaijão.
“As chances de reeleição de Nikol Pashinyan caíram para zero, a menos que a oposição cometa erros críticos”, defendeu Kocharyan, líder da aliança e provável candidato a primeiro-ministro. “A paz hoje depende inteiramente do humor de Aliyev [presidente azeri], porque o documento em questão não traz garantias. O que propomos é uma paz que venha com garantias – seguradores que assumam responsabilidade, não apenas que testemunhem uma assinatura.”
Suécia. Termómetro de populismos e interferências
13 de setembro
A Suécia é muitas vezes considerada o termómetro da Europa – o que ali acontece num dado ano é prenúncio do que vai acontecer, com menor ou maior intensidade, no resto do continente ao longo dos anos seguintes. E é também essa a expectativa em relação às eleições legislativas marcadas para setembro de 2026, potencial indicador da força das políticas e dos políticos populistas que têm assolado toda a União Europeia – bem como do impacto e alcance de campanhas de influência estrangeiras no continente europeu.
Governado por uma coligação de centro-direita encabeçada por Ulf Kristersson, a nível interno o país nórdico continua a braços com os mesmos problemas que marcaram a última década e que, em 2022, contribuíram para a ascensão do atual primeiro-ministro ao poder – à cabeça um aumento da violência de gangues e intensos debates sobre imigração e leis da cidadania e nacionalidade.
A par disso, os suecos encontram-se bastante divididos quanto às políticas energéticas que o país deve seguir, agora que já não podem contar com energia barata da Rússia: a direita, no poder, defende a expansão da energia nuclear e a agilização do licenciamento das centrais para estabilizar o mercado e os preços; à esquerda, defende-se uma maior aposta nas energias renováveis e pesados investimentos na indústria verde.
Mais consensual é a necessidade de reforçar os gastos com a Defesa, um dos tópicos incluídos na controversa proposta orçamental que Kristersson apresentou para 2026, que ascende a 80 mil milhões de coroas suecas (cerca de 7,3 mil milhões de euros) e que contempla amplos cortes de impostos. Para a oposição, a proposta de Orçamento peca por não dar resposta aos problemas estruturais na habitação, na integração da força de trabalho e nas capacidades energéticas do país.
Outro ponto consensual que não estará em debate nesta campanha é a adesão da Suécia à NATO, potenciada pela invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia em fevereiro de 2022 e oficializada em março de 2024, juntamente com a Finlândia – dois anos depois, as sondagens mostram que sete em cada 10 suecos têm uma visão positiva da entrada na aliança atlântica.
Os inquéritos de opinião mais recentes apontam para a provável vitória do Partido Social-Democrata de Magdalena Andersson, mas sem maioria – com os restantes partidos de centro-esquerda, com os quais o PSD poderia formar coligação, a atrair muito poucos apoios. Do outro lado da barricada, o Partido Moderado de Kristersson surge em terceiro lugar, atrás dos Democratas Suecos em segundo – juntos, os dois partidos angariam 39% de votos, 4 pontos percentuais à frente do PSD, mas também sem maioria qualificada.
As eleições de setembro vão ter lugar no contexto de crescentes operações de interferência cibernética e influência estrangeira, na sua maioria com origem na Rússia. No mês passado, o ministro da Defesa Civil avisou mesmo que a Suécia enfrenta uma “situação de segurança grave”, dando ordens às diferentes agências de segurança e defesa para que apresentem propostas para reforçar as proteções democráticas ao longo deste ano. “A democracia sueca está fundamentalmente bem preparada para as eleições de 2026”, disse o primeiro-ministro em novembro. “Mas quando a Suécia for às urnas no próximo ano, irá no contexto de uma grave situação de segurança que é preciso ter em consideração."
Brasil. Lula 4.0 vs. Bolsonarismo 2.0
4 de outubro
Quando os brasileiros forem chamados às urnas no outono, quase tudo vai a votos: o próximo presidente, o vice-presidente, a composição das duas câmaras do Congresso nacional e os governadores e assembleias de todos os estados do Brasil. E a grande certeza no arranque de 2026 é que Luiz Inácio “Lula” de Silva será novamente candidato à presidência pelo Partido dos Trabalhadores (PT).
Depois de, em 2022, ter dito que não pretendia concorrer a um quarto mandato presidencial não consecutivo, Lula mudou de ideias em outubro, a um ano das eleições. “Vou fazer 80 anos, mas podem ter a certeza de que tenho a energia de quando tinha 30 anos – e vou candidatar-me a um quarto mandato.”
A outra certeza quanto às próximas eleições é que o antecessor de Lula, Jair Bolsonaro, não vai entrar na corrida ao Palácio do Planalto. Atualmente a cumprir uma pena de 27 anos de prisão por ter tentado fomentar um golpe de Estado após perder as presidenciais para Lula há quatro anos, Bolsonaro está igualmente impedido de se candidatar a cargos públicos. Mas isso não significa que o Bolsonarismo está morto – muito pelo contrário.
Os analistas antecipam como potenciais rivais de Lula, Eduardo Bolsonaro, o filho mais velho do ex-presidente, que Bolsonaro pai já apoiou publicamente, e Tarcísio de Freitas, o governador do estado de São Paulo, o mais populoso do Brasil. A concorrência à direita é considerável, com vários governadores e outras figuras políticas a ponderarem candidatar-se à presidência.
“A questão é que todos esses nomes dependem fortemente do apoio da família Bolsonaro para obter um apoio mais amplo das forças de direita”, ressalta Creomar de Souza, da Dharma Political Risk and Strategy. E nesse contexto surge ainda Flávio Bolsonaro, o filho mais novo do ex-presidente, que enfrenta acusações de interferência num processo criminal a envolver o pai mas que poderá estar também a planear uma candidatura ao Palácio do Planalto.
Entretanto, há quem acredite que a administração Trump poderá tentar interferir nas eleições brasileiras a favor do candidato de direita apesar da "química" entre Lula e o homólogo americano, como referido por um alto funcionário do Planalto ao Folha de São Paulo, que invoca como exemplos as intervenções dos EUA nos mais recentes plebiscitos da Argentina e das Honduras.
As primeiras sondagens de intenção de voto mostram Lula na liderança, mas há quem defenda que essa vantagem pode ser um mero reflexo da união nacional na sequência dos recentes desentendimentos com Donald Trump. Em meados de dezembro, os dois líderes pareceram enterrar o machado de guerra, mas a sombra do presidente norte-americano continua a pesar, sobretudo sobre a economia brasileira, por via das tarifas adicionais de 50% sobre os produtos brasileiros exportados para os EUA – numa altura de lento crescimento económico, riscos de recessão e uma inflação próxima dos 5% do PIB.
Aos desafios económicos junta-se a elevada criminalidade e uma das mais altas taxas de homicídio do mundo, agravada pelos massacres ocorridos em novembro em duas favelas do Rio de Janeiro. Naquela que foi a operação policial mais letal da história do Brasil, as forças de segurança mataram 132 pessoas no complexo do Alemão e na Penha – sem contudo reduzirem o controlo e a impunidade dos gangues criminosos.
Israel. Netanyahu entre a corrupção e o 7 de outubro
Até 27 de outubro
Depois de, entre 2018 e 2022, os israelitas terem ido às urnas cinco vezes sem conseguirem eleger um governo estável, Benjamin Netanyahu conseguiu agregar a coligação mais religiosa, nacionalista e de extrema-direita da história do país. A essa coligação seguiu-se um governo de unidade nacional formado no rescaldo dos ataques do Hamas a 7 de outubro de 2023, que causaram mais de 1.100 mortos e que conduziram a uma guerra genocida contra a Faixa de Gaza – uma que, em mais de dois anos, provocou mais de 70 mil mortos, num balanço que continua a aumentar apesar do cessar-fogo que os EUA mediaram e que, em teoria, vigora desde 10 de outubro.
Face a divergências sobre a estratégia para a Faixa de Gaza, a crescente violência de colonos na Cisjordânia ocupada e os planos para o enclave palestiniano no pós-guerra, esse governo de unidade nacional colapsou ao final de apenas oito meses, na mesma altura em que Netanyahu e o agora ex-ministro da Defesa, Yoav Gallant, foram acusados de crimes de guerra e contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional (TPI). Contudo, a coligação continuou no poder e os seus elementos mais extremistas, Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich, respetivamente ministro da Segurança Nacional e das Finanças, continuam a ditar o rumo das políticas do executivo.
Quando se deram os ataques do Hamas, o primeiro-ministro estava a enfrentar a contestação de milhares de israelitas nas ruas por causa dos seus planos para limitar a independência do judiciário e pelas acusações de fraude e corrupção que enfrenta – sendo que, até ao fecho desta edição, não era ainda certo se o presidente israelita, Isaac Herzog, ia aceder ao pedido de Netanyahu para lhe conceder um indulto e poupá-lo ao julgamento que o mantém sentado no banco dos réus desde 2019.
A dominar a política israelita há quase três décadas, o líder de 76 anos ocupou o cargo de primeiro-ministro num total de 18 anos. E tudo indica que deverá voltar a ser candidato ao cargo nas legislativas ainda sem data marcada que, sob a lei israelita, têm de acontecer até 27 de outubro. Antes disso, até março, o Knesset (parlamento israelita) tem de aprovar um novo Orçamento do Estado, sob pena de as eleições serem convocadas automaticamente para os dois meses seguintes. Caso contrário, está nas mãos de Netanyahu decidir em que data terão lugar.
Além das óbvias questões de segurança e do futuro dos territórios palestinianos sob ocupação, a campanha eleitoral deverá ser dominada pelo aumento do custo de vida, pela controversa reforma judicial que o primeiro-ministro encetou há três anos, pela investigação às falhas dos serviços de informação que tornaram o 7 de outubro possível e pela outra grande pedra no sapato da atual coligação – o fim da isenção do serviço militar obrigatório que, até há pouco tempo, era concedida a judeus ultraortodoxos.
Face a todos os desafios, seria de supor que Benjamin Netanyahu tivesse a vida dificultada até à ida às urnas. Mas com a ultra fragmentação da oposição sobre os vários temas que dominam a vida política e social do Estado hebraico, as possibilidades de o primeiro-ministro ser reeleito continuam elevadas.
EUA. O primeiro grande teste da era Trump 2.0
3 de novembro
Eis o que a história moderna dos Estados Unidos nos mostra: só em duas das últimas 15 eleições intercalares é que o partido do presidente conquistou a maioria na Câmara dos Representantes, com uma média de perda de assentos na ordem dos 24. Para comparação, o Partido Republicano detém, desde as presidenciais de 2024, uma margem de sete lugares de avanço em relação aos democratas na câmara baixa do Congresso.
É por causa destes números que, desde que regressou à presidência, Donald Trump tem tentado alterar os mapas eleitorais de estados tendencialmente republicanos, como o Texas, o Missouri, a Carolina do Norte e outros. Alguns estados de tendência democrata têm tentado puxar a corda para o lado oposto, à cabeça a Califórnia – cujo governador, Gavin Newsom, tido no Partido Democrata como um dos mais prováveis candidatos à presidência em 2028, conseguiu ver aprovada num referendo, em novembro, a Proposta 50, mais conhecida como Uso da Emenda do Mapa de Redistritamento Legislativo do Congresso ou ainda Lei de Resposta à Fraude Eleitoral.
Nas intercalares deste ano, que vão ser disputadas na primeira terça-feira de novembro como manda a tradição, vão a votos a totalidade dos assentos da Câmara (435) e 35 dos 100 assentos do Senado. Os republicanos partem para o novo ano confiantes nas suas chances de manterem a maioria na câmara alta do Congresso, apesar de terem de defender 24 desses 35 lugares. Mas independentemente do que a história das intercalares possa augurar, tudo pode acontecer em 2026 – até porque, segundo uma sondagem recente, cerca de 60% dos norte-americanos consideram que o país está a ir na direção errada.
Quem os eleitores vão escolher castigar por isso permanece um mistério para já, sobretudo considerando que, neste momento, ambos os partidos são impopulares, no contexto de elevada ansiedade económica, custo de vida alto e salários estagnados. E enquanto republicanos e democratas tentam definir as suas mensagens para estas eleições, os analistas continuam a tentar tirar ilações das eleições locais de novembro passado, nas quais os candidatos apoiados por Trump foram derrotados pelos rivais democratas.
Se o partido da oposição conseguir reconquistar a maioria numa ou em ambas as câmaras do Congresso, a amargura política só deverá intensificar-se, no que deverá ser lido como um chumbo à atual administração. Aí, as atenções irão virar-se de imediato para 2028, quando vão ter lugar as próximas presidenciais – umas que Trump, pelo menos em teoria, não poderá disputar.