Elon Musk quer fundar um novo partido. A História dos Estados Unidos avisa: boa sorte, my friend 

5 jul 2025, 18:39
Elon Musk (Getty)

Quer romper com o sistema bipartidário dos Estados Unidos. Promete um novo partido, poucos candidatos, impacto máximo. Mas a História americana olha para ele e encolhe os ombros — já viu este filme antes

No dia em que os Estados Unidos celebraram os 249 anos da sua independência, Elon Musk lançou mais uma ideia com cheiro a manifesto: a criação do “America Party”. 

Fez a proposta ao seu estilo habitual — numa sondagem no X, a plataforma que comprou, renomeou e usa como palco e espada. Mais de 65% dos cerca de 1,25 milhões de votantes disseram que sim, que querem "independência do sistema bipartidário (ou unipartidário, como alguns lhe chamam)”.

A intenção — ou ameaça, ou provocação — foi publicada horas depois de Donald Trump assinar a sua controversa lei orçamental, aquela que acrescentará 3,3 biliões de dólares à dívida pública americana. 

Musk, que apoiou Trump com 277 milhões de dólares e chegou a liderar o agora extinto Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), considera esta lei “insana”. E prometeu: se for aprovada, o partido será fundado no dia seguinte. Foi aprovada. E agora? 

Ambição mínima para máximo impacto

A ambição declarada de Musk não é — para já — conquistar a Casa Branca. 

Não pode, aliás: nasceu na África do Sul e só se naturalizou cidadão americano em 2002. A estratégia é outra. “Uma forma de concretizar isto seria focar apenas em dois ou três assentos no Senado e entre oito a 10 distritos na Câmara dos Representantes”, escreveu. 

Com margens tão curtas, bastaria para ser o fiel da balança e decidir “leis controversas ao serviço da verdadeira vontade do povo”.

Não há, para já, nomes nem distritos. Só promessas e ameaças. Como a de financiar candidatos rivais nas primárias contra qualquer congressista que tenha votado a favor da proposta orçamental. 

Musk está irritado. E, ao contrário de Trump, tem liquidez.

A maldição dos terceiros partidos

A ideia de romper com o sistema bipartidário norte-americano é tão antiga quanto a sua frustração — e quase sempre condenada ao fracasso. 

Desde o século XIX, tentativas não faltaram: o Partido Progressista de Theodore Roosevelt, nascido da cisão com os republicanos em 1912; o Partido da Reforma, fundado por Ross Perot em 1995, após conquistar 18,9% dos votos na corrida presidencial de 1992; ou os mais resistentes, como os Libertários e os Verdes, que continuam a existir, mas com presença limitada a pequenos círculos e autarquias.

O problema não é falta de vontade. É de estrutura. O sistema norte-americano funciona por escrutínio maioritário simples — quem fica em primeiro ganha tudo, quem fica em segundo perde tudo, e quem fica em terceiro não existe. 

Maurice Duverger, politólogo francês, já o tinha notado: em sistemas como este, os incentivos conduzem ao bipartidarismo. Os eleitores escolhem entre dois males o menor, mesmo que nenhuma das opções os represente.

A isso somam-se os custos astronómicos das campanhas, a dependência de cobertura mediática e a inércia de um sistema político desenhado para se proteger. Ser outsider, nos Estados Unidos, exige não só carisma e dinheiro — exige também saber onde bater à porta. Por isso, os raros casos de sucesso contornaram o sistema por dentro: Donald Trump usou as primárias abertas dos republicanos para tomar o partido em 2016. Bernie Sanders tentou o mesmo do lado democrata, embora com menos sucesso. Ambos sabiam que, fora dessa moldura, as hipóteses eram nulas.

Elon Musk, que tanto se posiciona como revolucionário, sabe isto. Mas insiste. Como se o peso da fortuna pudesse compensar os entraves da realidade.

Um partido ou um ego com orçamento?

É aqui que a proposta se fragiliza. O “America Party” — nome provisório, mas revelador — ainda não existe. Não tem estrutura, nem liderança para além do próprio Musk, que não é conhecido por trabalhar bem com outros. 

Não se sabe se é veículo político ou extensão do ressentimento. E, como escreveu o jornalista Nate Silver, 55% dos americanos têm hoje uma opinião desfavorável sobre Elon Musk. A maior fortuna do mundo não compra simpatia.

Musk tem meios, palco e obsessão. Mas também um problema: se quiser mesmo mudar a política americana, terá de ceder protagonismo e confiar em alguém que lidere por ele. E até agora, tudo indica que não está disposto a ser o número dois — nem mesmo no seu próprio partido.

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