ANÁLISE || A confiança com os aliados é conquistada ao longo de décadas, mas pode ser perdida em semanas. Esperemos que as reviravoltas desta última semana resultem numa aliança fortalecida
Em 416 a.C., a cidade-estado de Atenas encontrava-se num conflito prolongado com Esparta, sua arquirrival. Durante anos, Atenas desfrutou de vantagem comparativa sobre Esparta, particularmente em alianças e pactos de defesa mútua com cidades-estado menores, no que ficou conhecida como a Liga de Delos. Em 416 a.C., a Liga de Delos já existia há quase 70 anos, aproximadamente o mesmo tempo da NATO, o equivalente moderno de uma aliança de defesa mútua prolongada e bem-sucedida.
Aquele também foi o ano em que Atenas passou a considerar a ilha mediterrânea de Melos vital para a sua posição estratégica. Melos não tinha forças armadas próprias, mas estava geograficamente localizada na interseção de rotas marítimas que ajudavam tanto a proteger quanto a projetar o poder ateniense. A ilha há muito reivindicava neutralidade, mas para Atenas, isso já não era suficiente.
Quando uma delegação ateniense exigiu que Melos se tornasse parte de Atenas, os melianos recusaram e apelaram às tradições atenienses da lógica e da justiça para chegar a um acordo. Os atenienses responderam com uma famosa frase sobre o poder: "Sabem tão bem quanto nós que o direito, no mundo real, é uma questão apenas entre iguais em poder — enquanto os fortes fazem o que podem, os fracos sofrem o que devem."
Ganhar uma ilha, perder um império
Atenas tomou Melos, um exercício de força bruta que contrariava as suas tradições e o que havia construído as suas alianças, baseadas no consentimento ao longo de décadas. Pouco tempo depois, essas alianças desfizeram-se, pois Atenas passou a depender da coerção em vez da persuasão para as manter. No espaço de uma década, Atenas foi derrotada e o seu império entrou em colapso.
Este relato de Melos e da queda do império ateniense é narrado pelo historiador grego antigo Tucídides. O seu "Diálogo de Melos" descreve a interação entre a ilha e os atenienses, juntamente com a famosa frase sobre a política de poder global. A lição atemporal, no entanto, não se refere apenas à força bruta, mas sim aos riscos de usar a força bruta em detrimento das alianças.
Diálogo “gronelandês” de Trump
Numa entrevista recente com Jake Tapper, da CNN, o conselheiro sénior do presidente Donald Trump, Stephen Miller, citou Tucídides ao descrever a lógica da Casa Branca para a aquisição da Gronelândia:
“Podemos falar o quanto quisermos sobre gentilezas internacionais e tudo mais. Mas vivemos num mundo, no mundo real, Jake, que é governado pela força, pelo poder. Essas são as leis de ferro do mundo que existem desde o início dos tempos.”
Miller estava certo ao afirmar que o poder e a sua projeção continuam a ser uma componente irredutível dos assuntos globais. Também estava certo ao afirmar que os Estados Unidos hoje continuam a ser o Estado mais poderoso do mundo, considerando a sua força militar, resiliência económica e sistema empreendedor que impulsiona as inovações globais.
Mas isso também era verdade para Atenas, e assim como Esparta foi para Atenas naquela época, a China não está muito atrás dos Estados Unidos hoje. É aí que as "leis de ferro do mundo" de Miller falham miseravelmente: elas não reconhecem que a fórmula duradoura para manter e sustentar o poder global ao longo do tempo passa por alianças mutuamente benéficas, e não pela força bruta e a coerção.
A Gronelândia enquanto Melos
Agora, apliquemos tudo isso ao que acabou de acontecer com a Gronelândia. Trump não é o primeiro a reconhecer que a Gronelândia, assim como Melos para Atenas, é um terreno estratégico para a defesa dos EUA.
William Seward, secretário de Estado dos presidentes Abraham Lincoln e Andrew Johnson, depois de negociar com sucesso a compra do Alasca à Rússia por 2 centavos de dólar por acre, voltou as suas atenções para a Gronelândia. Em 1868, as negociações de Seward com a Dinamarca para comprar a ilha avançaram um pouco, com uma oferta de 5,5 milhões de dólares em ouro supostamente sobre a mesa, mas estagnaram porque o Congresso não demonstrou interesse e os Estados Unidos pós-Guerra Civil tinham problemas maiores com que lidar.
Em 1946, o presidente Harry S. Truman ofereceu à Dinamarca 100 milhões de dólares em ouro pela Gronelândia, motivado pela sua localização estratégica no início da Guerra Fria. O comando militar de Truman havia instado unanimemente a Casa Branca a adquirir o território, dada a sua proximidade à Rússia e os planos de Moscovo para a região ártica.
A Dinamarca rejeitou a oferta de Truman, mas concordou em negociar um pacto militar que concedia a Washington acesso irrestrito e direitos de instalação de bases militares em toda a ilha. Este tratado — o Acordo de Defesa da Gronelândia — foi ratificado pelo Congresso dos EUA em 1951. No auge da Guerra Fria, os Estados Unidos tinham dezenas de bases e posições militares na Gronelândia. Hoje, existe apenas uma — mas isso é por opção. O tratado de 1951 está em pleno vigor.
Esta experiência histórica com a Gronelândia deixaria Tucídides orgulhoso. Os Estados Unidos conseguiram tudo o que queriam — e, por fim, derrotaram a União Soviética — por meio da construção de alianças e da projeção de poder através do consenso, não pela força bruta e coerção.
A lição intemporal para Trump
Trump está certo ao identificar a Gronelândia como uma prioridade estratégica para os Estados Unidos. De facto, a ilha é ainda mais importante hoje do que na época de Truman. Com o degelo polar e a abertura de novas rotas marítimas, a região do Ártico não é uma zona de amortecimento, mas sim uma arena estratégica. A Rússia investiu maciçamente em navios quebra-gelo para forjar e controlar rotas de acesso. A China, apesar de não ter acesso territorial à região, declarou-se um "Estado quase ártico" e pretende construir uma "Rota da Seda Polar" juntamente com a Rússia para reequilibrar os padrões de comércio global.
Olhando para o futuro, a região do Ártico poderá em breve ser central para o comércio global. A sua Rota Marítima do Norte, da Ásia Oriental à Europa, tem menos 8 mil quilómetros (e é 14 dias mais curta em tempo de trânsito) em comparação com as rotas tradicionais pelo Canal de Suez. O tamanho e a localização central da Gronelândia compensam algumas vantagens de que a Rússia desfruta em detrimento dos Estados Unidos na região, e fornece uma posição estratégica no Ártico que Pequim jamais poderá igualar.
Os EUA, por si só, no entanto, não conseguem competir efetivamente com a Rússia numa região ártica disputada. O litoral ártico da Rússia estende-se por 24 mil quilómetros – mais de dez vezes o tamanho do litoral americano, limitado ao Alasca. A Rússia possui uma frota de 50 navios quebra-gelo, incluindo alguns movidos a energia nuclear. Os Estados Unidos têm três, que não são movidos a energia nuclear.
Tudo isso muda de figura enquanto os Estados Unidos permanecerem alinhados com a NATO. Juntamente com os Estados Unidos, a NATO inclui oito aliados com acesso ao Ártico — Canadá, Noruega, Dinamarca, Islândia, Finlândia e Suécia. Combinados, eles detêm mais de 160 mil quilómetros de costa ártica — mais de cinco vezes a da Rússia — e uma frota de quebra-gelos que começa a igualar-se à da Rússia. Todo esse território e a projeção para fora dele estão ligados por meio de acordos de defesa mútua.
A força e o poder dos Estados Unidos na região ártica, como Atenas no Mediterrâneo, não vêm de uma ilha remota, a Gronelândia, mas sim da sua rede de alianças com base no mútuo consentimento. Assim sendo, qualquer política que, na prática, colocasse em risco o abandono da NATO para adquirir a Gronelândia visando uma suposta vantagem sobre a Rússia ou a China na região do Ártico ou globalmente seria o cúmulo da insensatez.
Uma saída bem-vinda — por enquanto
Esta semana em Davos, Trump pareceu recuar na sua insistência em adquirir a Gronelândia pelo uso da força ou por compra — confiando, em vez disso, no tratado negociado por Truman, que oferece aos Estados Unidos tudo o que eles poderiam precisar na ilha. Os detalhes do que Trump chamou de acordo “infinito” e “ilimitado” ainda não estão claros, mas ambos os adjetivos descrevem apropriadamente o Acordo de Defesa da Gronelândia de 1951. Trump pode não conseguir tudo o que queria, mas os Estados Unidos já têm o que precisam por meio de alianças consensuais construídas ao longo de décadas — a verdadeira superpotência americana que China e Rússia jamais poderão igualar.
A questão em aberto é o que pode ter sido desperdiçado neste exercício. A confiança com os aliados é conquistada ao longo de décadas, mas pode ser perdida em semanas. Esperemos que as reviravoltas desta última semana resultem numa aliança fortalecida — e numa Gronelândia fortalecida — e possam começar a reparar as costuras desgastadas da confiança dentro da NATO. Porque, como ensina Tucídides, embora qualquer grande potência possa tomar um pedaço de terra, apenas as potências duradouras sustentam os seus aliados.