Se Trump está realmente a comandar o mundo, para onde o levará?

CNN , Análise de Stephen Collinson
4 mai 2025, 22:00
Donald Trump
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Donald Trump pensa que está a comandar o mundo. A sua ambição não tem limites. Mas também exala uma arrogância perigosa e levanta uma questão grave: para onde acabará por ir o planeta sob a liderança deste presidente caótico e vingativo?

Trump revelou o seu plano de domínio global numa nova entrevista à The Atlantic. Disse que se livrou dos “tipos corruptos” e das investigações que limitaram o seu primeiro mandato. “Da segunda vez, comando o país e o mundo”, acrescentou.

O presidente está a tentar uma transformação massiva e simultânea da vida nos Estados Unidos e dos sistemas políticos e económicos globais liderados pelos EUA que garantem a primazia de Washington desde a Segunda Guerra Mundial. É, sem dúvida, a figura mundial mais omnipresente, passados 100 dias tumultuosos desde que regressou à Sala Oval. Ninguém sabe o que fará a seguir – nem os aliados dos EUA, nem os seus inimigos. E nesta era invertida da política externa MAGA, às vezes é difícil saber quem é quem. De Moscovo a Nova Deli e de Gaza a Roma, Trump tem o dedo em todos os tabuleiros geopolíticos.

Muitos estrangeiros podem sentir repulsa pelo presidente. Mas não o conseguem ignorar. Isso deve saber especialmente bem a um comandante-em-chefe cuja vida inteira foi uma busca por notoriedade.

Há alguma verdade na ostentação de Trump

A realidade do papel global dos EUA significa que quem ocupa o cargo mais alto tem imensa autoridade, diz Majda Ruge, investigadora sénior do programa dos Estados Unidos no Conselho Europeu de Relações Externas.

“Veja-se o caso da Ucrânia, que está nas fronteiras da União Europeia – é praticamente um assunto europeu, mas a verdade é que sem a inteligência, apoio militar e dissuasão nuclear dos EUA, os europeus não conseguem continuar a apoiar a Ucrânia ao nível necessário para ela avançar no campo de batalha”, adianta Ruge, a partir de Bruxelas, acrescentando: “Voltando à frase ‘Eu comando o mundo’, há verdade nisso por causa do enorme impacto dos EUA na política e nas relações internacionais”.

“Mas a questão é: ele [Trump] está realmente a conduzi-lo numa direção construtiva, ou numa direção disruptiva e caótica? E, em segundo lugar, está sequer a agir de forma estratégica para chegar ao destino que deseja?”

Os apoiantes de Trump argumentam que as abordagens tradicionais da política externa americana trouxeram apenas humilhação. Lembram-se das duas guerras perdidas no Afeganistão e no Iraque e acham que a Europa construiu estados sociais inchados sob o guarda-chuva militar generoso dos EUA.

A retórica bombástica do presidente desanima muita gente. Mas muitas vezes levanta questões pertinentes. Por exemplo – terá o envolvimento económico dos EUA com a China durante duas décadas produzido apenas uma rival superpotência no século XXI, destruindo ao mesmo tempo a indústria americana? E, 80 anos após a derrota do nazismo e três décadas e meia após o colapso da União Soviética, não deveriam os europeus cuidar da sua própria defesa? O problema é que a abordagem de Trump a estas questões arrisca minar a segurança e estabilidade do mundo que ele afirma liderar.

Os riscos do temperamento volátil de Trump

Os sinais relativamente às prioridades de política externa de Trump não são animadores, especialmente depois de ele ter iniciado guerras comerciais que abalaram os mercados globais e das quais não há saída fácil.

Mas talvez a sua abordagem pouco ortodoxa consiga encontrar uma solução para a guerra na Ucrânia que um presidente mais tradicional não conseguiria. Certamente que espera algo em troca pelas suas frequentes reverências ao presidente russo Vladimir Putin. E depois de destruir o último acordo nuclear com o Irão no seu primeiro mandato, procura agora outro para evitar o cenário horrível de ataques militares dos EUA. Contudo, a abordagem altamente personalizada e volátil de Trump ao mundo parece tão propensa a falhar quanto a ter sucesso.

Trump fez o seu nome como construtor. Mas é melhor a destruir do que a construir. E lançar-se no centro dos acontecimentos globais e entrar na mente de milhões de pessoas com explosões nas redes sociais está longe de ser próprio de um estadista. Tal como inventar tarifas colossais sem qualquer base real.

Longe de reforçar o poder dos EUA, Trump arrisca enfraquecê-lo.

O seu comportamento agressivo está a levar as nações estrangeiras a reavaliar rapidamente a sua relação com os EUA. Enfrentam a mesma escolha que presidentes universitários, CEOs e chefes de média nos EUA, só que com consequências maiores: resistir ao novo “rei” da América ou bajulá-lo?

O primeiro-ministro britânico Keir Starmer foi a Washington com a oferta de uma visita de Estado com o Rei Carlos para tentar explorar o amor de Trump pela realeza britânica. Mas o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky tentou fazer-lhe frente – e foi expulso da Casa Branca depois de ser repreendido ao vivo na Sala Oval. E o Canadá, um dos amigos mais próximos dos EUA, mostrou exatamente como a abordagem de Trump pode gerar ressentimento e consequências políticas surpreendentes. As exigências do presidente para que o Canadá se tornasse o 51.º estado americano deram novo fôlego ao Partido Liberal, que venceu as eleições gerais com uma plataforma anti-Trump liderada pelo primeiro-ministro Mark Carney. O líder do Partido Conservador, Pierre Poilievre, que há poucos meses liderava nas sondagens, até perdeu o seu lugar no Parlamento.

“O presidente e os que o rodeiam sentem que têm hoje uma maior liberdade de ação,” atira Ian Lesser, investigador sénior e conselheiro do presidente da German Marshall Fund. “Isso inclui não ter de considerar as opiniões dos aliados tradicionais. Pode trazer sucessos. Mas também implica riscos sistémicos”. Um desses riscos é a fragmentação das alianças que sustentaram o poder e a boa vontade dos EUA durante décadas, porque Trump vê os amigos tradicionais da América como parasitas.

Não esconde que prefere sentar-se com tiranos como Putin e o presidente chinês Xi Jinping – que vê como homens fortes à sua imagem – do que com líderes de nações aliadas que derramaram sangue ao lado dos EUA para proteger a liberdade e a democracia.

O ‘darwinismo social’ de Trump

Apesar das ações de Trump parecerem frequentemente impulsivas, há uma base ideológica clara para as suas ambições de segundo mandato – embora pouco agradável para os países que durante décadas confiaram nos EUA.

Num novo artigo na revista Internationale Politik Quarterly, dois especialistas em política externa alemães argumentam que o comportamento de Trump não é o de um impulsivo errático, mas sim o de alguém com uma visão do mundo coerente.

“Trump não conhece amigos nem inimigos, apenas força ou fraqueza,” escreveram o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros Sigmar Gabriel e Thomas Kleine-Brockhoff, antigo conselheiro da presidência alemã e atual presidente do Conselho Alemão de Relações Externas. Segundo eles, Trump “prospera num mundo de darwinismo social”. Se for esse o caso, um dos pilares do poder dos EUA foi perdido.

O país que foi um bastião de estabilidade e liderou o Ocidente contra o nazismo e o comunismo é agora a força mais imprevisível na política mundial. Trump está longe de ser o mestre de xadrez geopolítico que imagina ser. O seu confronto comercial com a China subestimou o orgulho de Pequim e a sua recusa em ceder. (Os líderes chineses também querem comandar o mundo.)

E, paradoxalmente, as suas tentativas agressivas de usar o poder americano podem resultar na perda de alavancagem global.

Um possível resultado da guerra comercial com a China é a separação das duas economias profundamente interligadas. Isso pode ser um processo doloroso para os consumidores de ambos os países. Mas também pode remover um dos fatores que desincentivavam uma invasão de Taiwan: a hipótese de um corte comercial dos EUA em tempo de guerra destruir a economia chinesa.

Na Europa pode ocorrer uma perda semelhante de influência. Se os aliados dos EUA cumprirem as promessas de se rearmarem, com receio de um futuro sem apoio americano, a sua nova independência pode enfraquecer a aliança atlântica que multiplicou o poder dos EUA durante gerações.

A abordagem de Trump também está a destruir a confiança dos aliados em Washington, drenando o poder e a influência não-militar dos EUA a cada dia que passa. O presidente está não só aparentemente disposto a reconhecer as anexações ilegais de Putin na Ucrânia, como também considera fazer uma ele próprio… na Gronelândia. E inverteu o lema do presidente John Kennedy, que dizia que os EUA não lideravam pelo poder da força, mas pela força do exemplo.

O seu desprezo pelos direitos humanos e pelo Estado de Direito; a preferência por ditadores em detrimento de democratas; e o corte da ajuda externa que mantinha milhões de africanos vivos podem manchar irremediavelmente a reputação da América.

Muitos amigos dos EUA questionam agora se partilham mesmo os mesmos valores dos americanos que elegeram – duas vezes – um presidente cujas convicções rejeitam.

Alguns aliados asiáticos estão a reconsiderar os pressupostos sobre o apoio dos EUA numa região cada vez mais dominada pela China.

Na Europa, o regresso de Trump ao poder intensificou os receios de que os EUA tenham outras prioridades estratégicas e que os seus aliados devem aprender a defender-se sozinhos. “Acho que a vitória de Trump nas eleições deu, de certa forma, um empurrão à história, e que uma preocupação que era teórica ou uma ansiedade de longo prazo tornou-se agora uma prioridade de curto prazo,” adianta Lesser, a partir de Ancara, Turquia.

Trump pode pensar que está a comandar o mundo agora, mas está quase de certeza a torná-lo mais difícil de governar para os presidentes que vierem a seguir.

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