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Doutorado em Filosofia da Ciência, Mestre em Relações Internacionais e autor em ciência política

O niilismo como filosofia política

16 mar, 08:23

Num sistema de governação, como o que existe nos Estados Unidos, onde o poder alterna entre dois partidos, é imperativo que ambos ajam como agentes responsáveis, com valores e convicções resultantes de uma ideologia política para o eleitor avaliar e identificar-se (ou não). O que vemos na “era Trump” é uma completa abdicação destes pressupostos pelo Partido Republicano, onde a única coerência que existe é fazer apenas o que o líder manda fazer, por muito que seja contraproducente ou errado

Em 2009, quando os Estados Unidos inauguravam uma nova era na Casa Branca com a posse do seu primeiro Presidente afroamericano, os conservadores republicanos reagiram com a formação do Tea Party. Apresentado como um movimento espontâneo e popular, revelou-se, afinal, uma estrutura orquestrada e financiada por oligarcas. O argumento central: o défice e a dívida tinham de estar sob controlo. Os Democratas eram retratados como o partido do despesismo e da irresponsabilidade, enquanto os Republicanos se apresentavam como baluartes da disciplina orçamental.

Quando Trump toma posse para o seu segundo mandato, um ano depois, em janeiro de 2026, a dívida nacional dos EUA atingiu os 38,5 trillions (biliões) de dólares, com a dívida a aumentar em 2025 em 2,17 biliões de dólares em relação a 2024. Aquela que foi a medida legislativa mais enaltecida pela Administração, a One Big Beautiful Bill Act, o grupo independente do Congresso para análise de orçamentos estima que esta lei possa aumentar o défice cumulativo em 4,1 biliões de dólares nos próximos 10 anos.

Após a tragédia em Sandy Hook em 2012, com o massacre de vinte crianças de seis e sete anos, Barack Obama elevou o controlo de armas como prioridade do seu segundo mandato, propondo um pacote de ações executivas e legislação para mitigar a violência com armas nos Estados Unidos. O movimento conservador e políticos Republicanos retrataram Obama como um "tirano" que usava ordens executivas para contornar a Constituição.

Após o assassinato do enfermeiro Alex Pretty, em Minnesota, Donald Trump comentou: “Não se pode ter armas. Não se pode entrar em protestos com armas”. Kristi Noem, a então Diretora da Homeland Department afirmou que o tiroteio tinha sido justificado, focando-se na arma que Pretty transportava no coldre. Até o diretor do FBI, numa entrevista à Fox News, reforçou: “Ninguém pode trazer uma arma carregada para qualquer protesto lá porque quer.” Desta vez, a reação da dos defensores de posse de arma, como a NRA, foi menos centrada em acusações de tirania ou preocupações constitucionais, limitando-se a qualificar tais posições como “perigosas e erradas”.

Em 2016, a publicação de e-mails de John Podesta, então diretor de campanha de Hillary Clinton pela WikiLeaks, serviu de combustível para uma deriva alucinatória. Utilizadores de fóruns como o 4chan e o Reddit interpretaram termos como 'pizza' ou 'queijo' como palavras códigos para uma rede de tráfico infantil. Este delírio coletivo foi o gérmen para a ascensão do fenómeno QAnon, no qual um suposto oficial do governo, com credenciação de segurança de nível 'Q', garantia que Donald Trump travava uma guerra secreta contra o Deep State: uma elite global de Democratas, celebridades e burocratas, unidos por uma rede de pedofilia e rituais de abuso de menores.

Nos Ficheiros Epstein, Trump é mencionado repetidamente com um grupo de magnatas ligados diretamente ao pedófilo e traficante de menores. O Departamento de Justiça, sob a direção de Trump, tem ativamente dificultado a divulgação de informações, continuando a proteger potenciais criminosos. Ou seja: a 'grande cabala' de uma elite perversa que abusava de crianças, protegida por políticos influentes, o mito central do movimento QAnon e do universo MAGA, revelou-se afinal verdadeira. A ironia suprema é que Trump não só parece estar envolvido, como é hoje o principal obstáculo para que a justiça alcance os prevaricadores.

O facto de o Presidente Obama ter, uma vez, feito uma saudação militar ao sair do helicóptero Marine 1 com a mão que segurava um café, ou por ter pedido a dois Marines para segurarem chapéus de chuva sobre si e o Presidente da Turquia numa conferência de imprensa na Casa Branca causaram semanas de comentário por políticos Republicanos e comentadores conservadores como se fossem escândalos de proporções suficientes para terminar uma Presidência pelo desrespeito para com as tropas.

Quando Trump usou um boné da sua linha de produtos licenciada aquando da transferência dignificada de soldados que morreram numa guerra iniciada por ele, ou quando enviou um email para os seus apoiantes a pedir dinheiro com fotos dessa transferência. Ou quando disse numa entrevista que não o incomodava que a Federação Russa tivesse a passar informação sobre posições militares americanas porque “se eles o fazem nós também o fazemos”, no lugar de os Republicanos eleitos para o Congresso criticarem veementemente o Presidente, fingem não ter visto ou ouvido as declarações.

Como já se descrito neste espaço, o Partido Republicano deixou de ser o bastião de um conservadorismo responsável, realista, atento às necessidades das classes menos favorecidas e promotor de valores democráticos e internacionalistas. Tudo isso desapareceu na era Trump, deixando um partido que outrora contou com presidentes como Lincoln, Roosevelt, Eisenhower e até Reagan como uma casca vazia. Pouco sobra de ideologia, coerência, serviço ou coragem. Hoje, é mais fácil para políticos republicanos e para os “conservadores” do movimento MAGA dizerem que são, política, social e internacionalmente, aquilo que Trump determina a cada dia.

Esta hipocrisia, a mediocridade e o desdém pela política enquanto meio de governação consistente, responsável e produtivo, criam uma espécie de aceleracionismo e de niilismo corrosivos para a manutenção de uma democracia funcional e equilibrada. O risco de contágio é elevado para outras partes do globo, em particular para a Europa, onde já se observa uma normalização desta política da pós-verdade. Fica a cargo de todos nós, que acreditamos em verdade, em valores e em soluções negociadas com agentes bem-intencionados, a tarefa de expor e contestar esta forma de estar na política e na sociedade.

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