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Doutorado em Filosofia da Ciência, Mestre em Relações Internacionais e autor em ciência política

Melhor "pompa" que prepotência

27 abr, 13:15

As recentes declarações do Secretário de Estado da Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, sobre os aliados europeus revelam uma hostilidade excessiva e injustificada perante a lógica de interdependência que sustenta a NATO e a ordem internacional desde o pós-guerra. Este é o momento de continuar a enviar um sinal claro a Washington: os europeus, através da NATO ou por si próprios, não serão cúmplices de uma política externa conduzida por uma Administração abusiva e por lideranças politicamente irresponsáveis

O Secretário da Defesa continua a debitar um discurso deplorável e contraproducente atrás de um pódio no Pentágono. E isto num Departamento que, por muito que a Administração Trump insista em usar a designação “Departamento de Guerra”, o nome oficial é Departamento de Defesa e só pode ser alterado por ato do Congresso, uma vez que está consagrado na lei federal.

Desta vez, com a sua atitude prepotente e pueril, declarou que: “A Europa e a Ásia beneficiam da nossa proteção há décadas, mas o tempo de se aproveitarem sem contribuir acabou (…) Os Estados Unidos e o mundo livre merecem aliados capazes, leais e que compreendam que a aliança não é uma via de sentido único, mas sim de sentido duplo”.

Isto revela ignorância profunda e oportunismo político deliberado. Após os ataques de 11 de setembro, os aliados europeus responderam, pela primeira vez, à invocação do Artigo 5 da NATO em apoio aos Estados Unidos (USA). Por outro lado, os USA beneficiam estruturalmente da NATO e de alianças no Pacífico, que criaram um mercado quase exclusivo para a sua indústria de defesa através da padronização e aquisição de equipamento militar, sustentando empresas como a Lockheed Martin, a Raytheon e a Boeing.

Também economicamente, sem a “Pax Americana”, a que Pete Hegseth se refere, o comércio internacional seria muito mais volátil. Os USA beneficiam diretamente de uma Europa próspera e estável, que consome bens e serviços americanos. Tiram também vantagens da arquitetura financeira global que sustentam, desde a hegemonia do dólar como moeda de reserva e de transação internacional, até à capacidade de atrair a compra de dívida americana nos mercados internacionais.

O incómodo europeu com a ideia de salvar os Estados Unidos de aventuras militares no Médio-Oriente, ou com a utilização da NATO como um instrumento militar ao sabor das exaltações do Presidente Trump, é uma reação perfeitamente normal a uma intervenção não provocada, à revelia do Direito Internacional, e conduzida sem verdadeira consulta aos aliados. A frase “esta é muito mais uma luta deles, do que nossa” expõe a arrogância e a desfaçatez de uma narrativa construída em torno da ideia de que uma campanha militar no Irão poderia correr sem custos estratégicos, e de que Teerão colapsaria sem capacidade de resposta.

Continuando a ignorar factos básicos, Pete Hegseth disse também que “eles [os europeus], precisam muito mais do Estreito de Ormuz do que nós”. Isto é um exercício de negação da realidade ao serviço de uma narrativa política, apesar de essa realidade ser estrutural e incontornável. O preço do barril de petróleo é definido nos mercados internacionais. Qualquer perturbação no tráfego de petroleiros, gás natural, fertilizantes ou precursores farmacêuticos afeta também os Estados Unidos, como se vê no impacto nos preços dos combustíveis no país.

E, num ponto lateral, é de uma ironia difícil de ignorar ver membros da Administração Trump a admoestar quem quer que seja sobre “conferências pomposas na Europa”, quando o próprio presidente está historicamente obcecado com salões de festas, mármore para cadeiras em auditórios e o tipo de granito para o espelho de água do Memorial de Lincoln.

Esta hostilidade não é só de agora com a crise do Irão e do Estreito de Ormuz. Quando Jeffrey Goldberg, o editor-chefe do The Atlantic, tornou público como a Administração Trump o incluiu, por engano, numa troca de mensagens sobre planos de ataques militares às milícias Houthi no Iémen, o vice-presidente Vance disse: “3 por cento das trocas comerciais dos USA passa pelo suez (sic) e 40 por cento das trocas europeias passam por lá (…) É que eu odeio safar a Europa novamente”. O que mereceu uma resposta de Hegseth: “VP, eu partilho totalmente o seu desprezo pelos oportunistas (free-loaders no original) dos europeus. É PATÉTICO (letras capitais no texto original)”.

A União Europeia e o Reino Unido não devem “pestanejar” nem reverter a decisão, até agora correta, de não se envolverem militarmente neste conflito, devendo antes continuar os esforços diplomáticos para contribuir para a resolução do impasse e para a defesa do direito marítimo internacional. Este é o momento de continuar a enviar um sinal claro a Washington: os europeus, através da NATO ou por si próprios, não serão cúmplices de uma política externa conduzida por uma Administração abusiva e por lideranças politicamente irresponsáveis.

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