Mesmo antes desta iteração da política externa da Casa Branca, já na sua primeira administração, Trump decretou a saída do Acordo de Paris e do Plano de Ação Conjunto (o acordo nuclear com o Irão). Contudo, o verdadeiro zelo pelo isolacionismo levou os EUA a abandonar recentemente a Organização Mundial da Saúde, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, novamente o Acordo de Paris sobre o Clima, e a votar ao lado da Rússia, Coreia do Norte, Bielorrússia e Hungria, contra uma condenação nas Nações Unidas do ataque russo à Ucrânia.
Um caso particularmente revelador é o da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), criada em 1961 sob a administração do Presidente Kennedy para melhorar a saúde global, prestar auxílio em catástrofes naturais, promover o desenvolvimento socioeconómico, proteger o ambiente e apoiar a governação democrática e a educação. Resultado da desastrosa ação do “Departamento de Eficiência”, D.O.G.E., liderada por um claro irresponsável e megalomaníaco Elon Musk, a USAID foi "atirada para o triturador" (expressão usada pelo bilionário). Com isto, centenas de milhares, e eventualmente milhões de pessoas, a maioria em África, morrerão ou viverão vidas miseráveis.
Poderia pensar-se que este dinheiro seria então utilizado para outras questões humanitárias, mesmo que internas aos Estados Unidos. Porém, parece fazer parte de um fundo monetário à mercê da Administração para continuar o objetivo de delapidar (ainda mais) a ordem mundial, e alterar projeto da União Europeia (UE) que funciona como um coletivo de nações alicerçadas nos princípios da democracia liberal.
Entra então em cena a Subsecretária de Estado para a Diplomacia Pública, Sarah Rogers. O plano de Rogers é agora conhecido: utilizar as verbas destinadas a vacinas, alimentos, medicamentos e educação para populações desfavorecidas, para financiar think tanks e fundações políticas na Europa que promovam "valores” americanos como os vemos atualmente: autoritarismo, intolerância, racismo, xenofobia e a promoção de conservadores radicais, lunáticos de extrema-direita, e maníacos iliberais.
Contudo, desta vez não se trata apenas de um conjunto de grupos marginais, alimentados nos pântanos febris do MAGA e do America First, mas sim do próprio governo dos Estados Unidos a financiar grupos alinhados com o Trumpismo. Com milhões de euros à disposição e uma infraestrutura montada de ideólogos e traficantes de influência, a Casa Branca pode financiar diretamente grupos associados a partidos anti-UE, pró-Putin e antidemocráticos, seja na Alemanha, França, Itália, Áustria, Hungria, Polónia ou Reino Unido, espalhando propaganda corrosiva e extremista no sistema político europeu. Trata-se de uma estratégia clara de "dividir para conquistar", recorrendo a formas de desinformação e narrativas maliciosas para desestabilizar a UE.
Sarah Rogers não está a agir no vácuo. Isto vem do topo da Administração, começando em Trump, passando pelo Vice-Presidente JD Vance e o seu infame discurso na Conferência de Segurança de Munique, até à Estratégia de Segurança que apresenta a visão de uma Europa subjugada à vontade dos Estados Unidos. É a visão fascista do "sangue e solo", da cultura branca e da missão cristã, que está a ser implementada pelo Conselheiro Político Sénior da Casa Branca, Stephen Miller, normalizada, por exemplo, pelo Secretário de Estado Rubio, que enaltece as virtudes de uma "civilização ocidental que nos deu Mozart, os Beatles e os Rolling Stones", ele de origem cubana e fase formativa da vida passado em Miami.
Para os europeus, e em particular para os que vivem na UE, esta é mais uma frente de um ataque, coordenado e incessante da Administração Trump, do movimento MAGA, e da corrente America First, que visa envenenar os ambientes em que vivemos: político, social e digital. Segundo os ensinamentos de Sun Tzu, “Se conheces o inimigo e a ti mesmo, não precisas temer o resultado de mil batalhas.” Os europeus e a UE precisam de conhecer os inimigos do momento, e quem somos, como europeístas e democratas. E como combater estas batalhas, que sendo impostas e desnecessárias, assumem um grau elevado de perigosidade.